Cerca de 3.000 ovelhas passam boa parte do dia caminhando por pedras molhadas e areia na costa de North Ronaldsay. No extremo norte das Ilhas Órcades, na Escócia, à espera de a maré baixar para se alimentar.
Pequenas e com pelagem espessa em tons de marrom, preto, branco e cinza, elas dividem o litoral com focas e se alimentam quase só de algas marinhas. A dieta não resulta de uma escolha dos animais, mas de uma adaptação imposta há quase dois séculos.
Além da iguana-marinha das Galápagos, os pesquisadores consideram essa raça a única espécie terrestre capaz de sobreviver basicamente à base de algas.
Um muro que isolou o bicho em 1832
A separação entre essas ovelhas e o restante da ilha começou em 1832, quando o proprietário das terras decidiu liberar espaço para plantações e para um gado considerado mais valioso.
Os animais foram então confinados a uma faixa de 271 acres voltada para o mar, isolada por uma parede de pedra com cerca de 13 milhas de extensão, conhecida como sheepdyke.
A construção do muro também respondeu ao colapso da produção de soda feita a partir de algas, atividade que até então ocupava parte da economia local. A queda levou à proteção das terras agrícolas internas.
Sem alternativa, o grupo passou a se alimentar da grande quantidade de algas que as ondas trazem à costa, engordando principalmente no inverno, quando as tempestades depositam mais alimento na praia.
Uma raça isolada desde a Era do Ferro
Os animais pertencem ao grupo das ovelhas de rabo curto do norte da Europa e são menores do que a maioria das raças modernas. Considerados primitivos, evoluíram em isolamento desde uma possível chegada à ilha na Era do Ferro. Semisselvagens, vagam livremente, mas geralmente permanecem em seu próprio território.
O hábito de comer algas trouxe um efeito colateral conhecido: a vulnerabilidade à intoxicação por cobre, o que obriga os criadores a evitar que os animais tenham contato excessivo com capim comum.
A tosquia que une os vizinhos
Durante alguns dias do verão, quando a lua cheia eleva as marés e reduz o espaço disponível na praia, o grupo é reunido para a tosquia, em um evento chamado punding. A prática é apontada como um dos últimos exemplos de agricultura comunitária no Reino Unido.
Moradores se ajudam para conduzir os animais da costa até nove cercados de pedra espalhados pela ilha. É justamente essa cooperação entre vizinhos que hoje sustenta a continuidade de uma das criações mais peculiares das Órcades.













