Uma única árvore no campus da Syracuse University, em Nova York, nos Estados Unidos, floresce em tons de rosa, branco, vermelho e depois produz, ao mesmo tempo, pêssegos, ameixas, damascos, nectarinas, cerejas e amêndoas. O artista e professor da Syracuse University Sam Van Aken criou a planta ao unir galhos de dezenas de espécies diferentes em um só tronco.
O resultado, batizado de Tree of 40 Fruit, nasceu de um projeto artístico iniciado em 2008 e hoje reúne 18 exemplares espalhados pelos Estados Unidos. Van Aken pensava a árvore como uma escultura viva, capaz de se transformar sozinha conforme o que havia sido enxertado em cada galho.
Sete das árvores ficam em Nova York, incluindo a primeira delas, ainda no campus da Syracuse University, enquanto outras seis formam um pequeno bosque em Portland, Maine. Exemplares individuais, que chegam a custar US$ 30.000, foram vendidos a residências particulares e museus, caso do 21C Museum/Hotel em Bentonville, no Arkansas.
Três novos exemplares foram plantados em abril de 2015 em Illinois, Michigan e Califórnia.
Como a enxertia costura as árvores
O método por trás do feito é a enxertia, prática utilizada na China há milhares de anos e que hoje serve principalmente para produzir mudas na agricultura. A técnica consiste em unir um pedaço de uma planta a outra para que o conjunto cresça como um único organismo.
Van Aken, que cresceu numa fazenda na Pensilvânia, insere uma fatia de galho com brotos dentro de um corte feito numa árvore hospedeira já estabelecida há pelo menos três anos. Fita elétrica prende as partes enquanto os vasos internos das duas plantas se conectam e passam a compartilhar o mesmo sistema de circulação de seiva.
Há ainda uma segunda técnica, baseada apenas em brotos: ele retira brotos saudáveis em fevereiro, guarda-os no congelador até agosto. E depois os encaixa no lugar de brotos antigos da árvore receptora, embrulhados em plástico para simular um efeito estufa.
Após o plantio, Van Aken mantém as árvores por três anos, visitando-as duas vezes ao ano: na primavera para poda dos ramos e no verão para adicionar novos enxertos.
Ele estima que são necessários pelo menos nove anos para que uma Tree of 40 Fruit atinja seu potencial máximo: cinco anos para os enxertos se desenvolverem e outros quatro para as diferentes frutas aparecerem.
Pêssego funciona bem como planta receptora porque aceita um número maior de combinações genéticas, segundo o professor de Produção Vegetal da ESALQ/USP João Alexio Scarpare Filho.
Parentesco genético explica o truque
A combinação só funciona porque todas essas frutas pertencem ao gênero Prunus e compartilham a mesma estrutura cromossômica. Essa proximidade genética é o que permite que os diferentes enxertos se desenvolvam juntos sem que o tronco rejeite nenhuma das partes.
Na prática, a árvore receptora atua como fornecedora de água e nutrientes para cada enxerto, mas nem toda espécie aceita esse tipo de união. A árvore de 40 frutos levou cerca de oito anos até ganhar ramos fartos e começar a produzir, prova de que o processo é lento e exige paciência.
Um projeto que virou missão
O que nasceu como experimento artístico transformou-se em esforço para reaproximar os americanos de variedades de frutas nativas que perderam espaço no mercado ao longo das décadas. Muitas dessas espécies raramente chegam às prateleiras porque não resistem bem ao transporte em larga escala.
Van Aken segue criando novas árvores e ampliando o projeto para outros Estados, mantendo viva uma técnica milenar através de uma escultura que floresce, frutifica e surpreende a cada primavera.













