Na região costeira de Hopetoun, no sudoeste da Austrália Ocidental, o criador de grãos e ovelhas Graham Tonkin deixou a administração da fazenda para o filho ao se aposentar. Contudo, ele levou as colmeias consigo, e agora precisa alimentar manualmente as abelhas quando as plantas nativas deixam de florescer.
Nas colinas arenosas do Parque Nacional de Yanchep, o apicultor migrante Anton Esterhuysen relata que as plantas nativas, que normalmente florescem na primavera, agora mostram apenas alguns brotos, em consequência do clima seco e do verão muito quente.
Por isso, a migração sazonal das colmeias do norte, onde o calor favorecia as flores, para as planícies de areia tornou-se impossível neste ano.
A estiagem prolongada impediu o florescimento esperado do mallee e da vegetação de heath no outono, forçando o criador a fornecer xarope de açúcar e favos de mel para manter as colmeias vivas. O cenário se repete em toda a Austrália Ocidental, onde quatro anos de invernos cada vez mais secos devastaram o ciclo reprodutivo das abelhas.
Flores sem néctar em um estado com 12 mil espécies
A Austrália Ocidental abriga a maior coleção de flores selvagens do mundo, com mais de 12 mil espécies que explodem em cores a cada ano. Esse número, porém, vem diminuindo à medida que as estações ficam mais secas.
O fenômeno vai além da simples falta de floração: quando conseguem florescer, as plantas frequentemente não produzem néctar ou pólen. Assim, deixam as abelhas sem alimento apesar das flores visíveis. Essa “floração seca” engana o apicultor e o inseto, que encontra flores estéreis onde esperava alimento. Graham Tonkin já viu algumas de suas colmeias serem abandonadas, e teme perder mais.
Quando o clima não oferece alimento suficiente, a rainha reduz a postura de ovos e as colmeias diminuem. As abelhas então deixam a estrutura em busca de mel em outro lugar. É um ciclo de colapso que o criador vinha mantendo sob controle com alimentação artificial à base de xarope de açúcar.
Avisos de colapso futuro e impacto ambiental
Liz Barbour, pesquisadora da Universidade de Western Australia e diretora-executiva do centro de pesquisa em abelhas Y-Trace, confirma que a Austrália Ocidental já foi recordista mundial em produção de mel, mas que a produção declinou ao longo dos anos.
Ela alerta que as abelhas servem como indicador da saúde ambiental geral: quando sofrem estresse, outros animais nativos, como marsupiais e abelhas nativas, também estão sob pressão.
Alguns apicultores da região conseguem amortecer o impacto usando estoques do ano anterior e importações que chegam ao mercado doméstico. Isso evita uma escassez imediata de mel para os consumidores, mas a qualidade do produto pode declinar.
Barbour projeta que ainda pode haver alguma floração neste ano, mas alerta que depois virá um colapso absoluto. É o que os apicultores locais já preveem para os próximos ciclos se a estiagem continuar.













