Uma fábrica de liofilização em Carnarvon, cidade a 900 quilômetros ao norte de Perth, na Austrália, passou a transformar em alimento as bananas que antes seriam descartadas por puro critério estético.
A região produz mais de 5.000 toneladas da fruta por ano, e boa parte dela não chegava às prateleiras só por ter manchas na casca, tamanho fora do padrão ou formato irregular.
A gerente de negócios da Sweeter Banana Cooperative, Doriana Mangili, contou que, no início das operações da cooperativa, o desperdício chegava a aproximadamente 60% da colheita, com as bananas voltando à lavoura como adubo.
Em entrevista à ABC, ela afirmou que o objetivo agora é garantir que toda banana comestível vire alimento. Já que descartar a fruta também significa jogar fora o trabalho e os custos da colheita.
Produtores da região comemoram a mudança
O produtor de Carnarvon Chris Collins disse à ABC que o novo processo já absorve até 400 caixas por semana. O equivalente a seis toneladas de bananas que antes iam para o lixo apenas por causa de marcas na casca. Para ele, a novidade anima especialmente os agricultores, que historicamente perdiam grande parte da produção por esse motivo.
A fruta reaproveitada passa a abastecer produtos como gelato e pão de banana, dando uma segunda vida ao que antes era considerado perda. A estrutura de congelamento ampliada também permite guardar o excedente por mais tempo, até que seja vendido ou processado.

Um problema que vai além das bananas
O desperdício de alimentos é pauta do governo federal australiano desde 2017, quando foi firmado o compromisso de reduzir pela metade o volume descartado no país até 2030. Um estudo de viabilidade ligado à Estratégia Nacional de Resíduos Alimentares estimou que o desperdício custa cerca de 36,6 bilhões de dólares por ano à economia australiana.
Segundo Melissa Smith, líder de horticultura da End Food Waste Australia, boa parte das perdas agrícolas ocorre ainda na fazenda.
Em declaração à ABC, ela afirmou que o levantamento anual de horticultura do Australian Bureau of Statistics aponta fatores climáticos, pragas. E doenças como as principais causas das perdas, seguidos por exigências estéticas do mercado e, por fim, pela falta de mão de obra.
Frutas descartadas viram bebida e aproveitamento criativo
Em Perth, a Damaged Goods Distillery também aproveita produtos considerados fora do padrão, como cascas de cítricos de empresas de suco e polpa de maçã de fabricantes de cidra. A destilaria recebeu mais de 300 quilos de bananas da região de Gascoyne e testou a fruta na produção de vodca.
O cofundador Tim Laferla disse à ABC que a ideia não é criar uma vodca com sabor de banana. Mas usar os açúcares fermentáveis da fruta para formar a base da bebida, preservando um leve traço de identidade do insumo.
Em Carnarvon, a dona de cafeteria Valeria Lucchitto faz algo parecido: processa manualmente cerca de três toneladas e meia de mangas de qualidade inferior por ano. Ela vende a fruta à Whalebone Brewery, em Exmouth, para a produção de chutneys, geleias e bebidas como seltzer e cervejas azedas.
O aproveitamento de frutas rejeitadas já alcança diferentes elos da cadeia produtiva, da lavoura à cervejaria.













