A cada setembro, comunidades inteiras na Islândia se mobilizam para uma atividade no mínimo inusitada: reunir milhares de ovelhas que passaram o verão soltas nas montanhas. O rettir, tradição centenária do país, transforma a volta do rebanho para casa em celebração que mistura trabalho rural, convívio familiar e competição quase esportiva entre vizinhos.

Durante meses, as ovelhas selvagens pastam livremente nas terras altas islandesas, onde não existem predadores naturais. Quando setembro chega, os criadores precisam identificar a que fazenda pertence cada animal — uma tarefa que parece simples até ser executada.
Duas fases de um trabalho monumental
O processo começa com o gongur, a busca inicial que acontece semanas antes do rettir oficial. Agricultores locais, seus amigos e familiares seguem a cavalo pelas montanhas com cães pastores, reunindo os rebanhos dispersos.
Essa etapa pode levar de alguns dias até uma semana inteira — as ovelhas vagueiam por grandes territórios, às vezes cruzando a fronteira invisível entre propriedades vizinhas. Quando um animal de outra área é encontrado, os fazendeiros reconhecem a marca de identificação na orelha e avisam o proprietário legítimo.
No fim de semana designado, sempre o terceiro domingo de setembro em localidades como Fljótshlíð, na costa sul, centenas de ovelhas são liberadas num curral central de madeira cercado por compartimentos marcados que irradiam como raios de sol. Cada setor pertence a um fazendeiro.
Dentro do curral, as ovelhas correm de um lado para o outro, amontoando-se pela segurança enquanto tentam escapar de quem as persegue. O trabalho exige que o criador agarre o animal pelos chifres, imobilize-o entre as pernas e o conduza até o compartimento correto depois de ler sua marca de orelha.
Do trabalho necessário à festa comunitária
O que começou como uma necessidade prática transformou-se em uma celebração que atravessa gerações. Crianças, adultos e idosos dividem tarefas para participar dessa tradição: uns ativos no curral, outros observando das laterais com câmeras e xícaras de café fumegante.
Aðalheiður Margrét Gunnarsdóttir, professora de canto clássico e performer local, disse ao Smithsonianmag que manter a tradição é importante para que as próximas gerações conheçam as raízes da comunidade. Além do papel cultural, ela acrescentou que o rettir continua sendo a forma mais eficaz de separar os rebanhos.
Eyrún Aníta Gylfadóttir, amiga de Gunnarsdóttir e gerente de marketing do Hotel Rangá nas redondezas, exlicou que a mistura de ovelhas entre áreas diferentes é rara porque os animais tendem a permanecer no local onde foram soltos. Mesmo assim, quando ocorre, a solidariedade entre criadores garante o retorno de cada animal ao seu proprietário legítimo.
Um esporte disfarçado de tarefa rural
A captura propriamente dita funciona como esporte informal — exige força, equilíbrio e velocidade. Colocar uma ovelha em movimento constante, equilibrá-la entre as pernas sem deixá-la escapar e ainda identificar sua marca de orelha em meio ao caos é um desafio que mistura técnica e resistência física.
Crianças islandesas crescem aprendendo a manobra: apertar o animal entre as coxas, erguê-lo pelos chifres para tirar as patas dianteiras do chão e arrastá-lo suavemente até o setor correto. Cada área da Islândia realiza seu próprio rettir durante setembro, criando um mês inteiro de celebrações que une tradição rural com diversão moderna.













