Aos 86 anos, Godofredo vive uma rotina bem diferente daquela que marcou grande parte de sua vida. Morador de Bela Vista, em Mato Grosso do Sul, ele hoje cuida de uma chácara, mantém algumas vacas e acompanha os filhos que seguiram pelo mesmo caminho no campo.
A calma dos tempos atuais contrasta com a rotina pesada de trabalho que marcou sua vida por 50 anos. Aos 19 anos, Godofredo começou a carreira no transporte de bovinos, em uma época em que era preciso conduzir os animais a pé por longas distâncias. A primeira viagem levou uma boiada do interior de Mato Grosso do Sul até São Paulo e durou cerca de 45 dias.
Jovem do campo virou condutor de grandes rebanhos
Criado na Fazenda Margarida, localizada a aproximadamente 60 quilômetros de Bela Vista, Godofredo começou a rotina de trabalho rural aos 14 anos. Cinco anos mais tarde, depois de passar pelo Exército, encontrou nas comitivas a profissão que exerceria durante décadas.
A habilidade para lidar com os animais chamou atenção de um condutor experiente durante uma das primeiras viagens. O profissional trabalhou como um “mentor” para Godofredo, que pouco tempo depois já era responsável por contar e controlar uma comitiva com 1.300 bois.
Com a experiência acumulada, ele passou a conduzir rebanhos cada vez maiores para diferentes pecuaristas. As viagens chegaram a alcançar São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e regiões do Paraguai.
Viagem de 80 dias terminou com centenas de bezerros
Entre as histórias que ficaram na memória está uma viagem de aproximadamente 80 dias, na qual Godofredo conduziu mil vacas de Mato Grosso do Sul até Cascavel, no Paraná. O percurso precisou ser feito em ritmo mais lento porque muitos bezerros nasceram durante a caminhada. Além das mil vacas, a comitiva entregou cerca de 600 animais que haviam nascido durante o trajeto.
Naquela época, uma comitiva reunia peões, um condutor e um cozinheiro. A organização da viagem dependia das paradas em propriedades rurais, das pastagens disponíveis e do acesso à água para manter os animais em condições de seguir viagem.
Do caminho de terra aos caminhões boiadeiros
A trajetória profissional de Godofredo também acompanhou a modernização do transporte de gado. No começo, os animais percorriam todo o caminho a pé. Mais tarde, parte das viagens passou a ser realizada em trens, com os peões acompanhando os rebanhos até o destino.
Ele chegou a transportar lotes de cerca de 500 bois em viagens entre Mato Grosso do Sul e São Paulo. Com o avanço dos caminhões boiadeiros, passou a atuar também no embarque dos animais e continuou trabalhando com compra e transporte de gado.
Em 1968, depois de quase uma década na atividade, Godofredo decidiu trabalhar por conta própria. O conhecimento adquirido e a rede de contatos formada entre pecuaristas de diferentes estados ajudaram na nova fase profissional. A rotina de viagens se encerrou em 2014, aos 74 anos, e deu lugar para uma vida entre a família.













