Cheryl Martin trocou a criação de vacas leiteiras pela de ratos e afirma que nunca ganhou tanto dinheiro. A fazendeira de 57 anos, moradora de Woodlane, a leste de Adelaide, cultivava frutas e cuidava de gado antes de mudar de ramo.
Ela decidiu abandonar essa rotina depois de um período trabalhando numa loja de material de construção. Buscava algo que pudesse fazer em casa, por conta própria, e que fugisse do convencional — e encontrou isso na criação de roedores para alimentar répteis.
Da estranheza ao hábito
No início, o cheiro da criação quase a fez desistir. À ABC, Cheryl disse que chegou a comentar com a esposa Fiona que talvez tivesse cometido um erro, porque o odor lhe tirava o apetite. Com a limpeza em dia, porém, o incômodo passou.
Ela também precisou enfrentar o medo de ser mordida pelos animais. Aos poucos, aprendeu que os ratos não pulavam nem atacavam e eram dóceis. Apenas alguns exemplares mais arredios chegaram a mordê-la no início, mas foram logo substituídos.

Um negócio de ciclo rápido
A fazendeira vende ratos em 10 tamanhos, dos filhotes recém-nascidos, chamados de “pinkies”, aos exemplares extragrandes, que pesam mais de 500 gramas. A gestação dura até 26 dias, e cada ninhada pode ter até 18 filhotes, o que permite recomeçar o ciclo quase imediatamente.
Esse ciclo rápido diferencia a criação de ratos da pecuária tradicional. Cheryl consegue aumentar ou reduzir a produção rapidamente, ao contrário da criação de bovinos e ovinos, que leva muito mais tempo para dar retorno.
A rotina tem horários flexíveis, mas também exige lidar com a limpeza constante das gaiolas. A parte mais difícil, segundo ela, é o abate, feito com gás carbônico de grau alimentício — um processo que considera necessário, mas nunca humano ou agradável de realizar.
Cuidado até na hora de empacotar
Depois do abate, Cheryl organiza os ratos com cuidado, recolhe cauda e patas e os congela antes de embalá-los para a venda. A apresentação influencia a decisão de compra dos clientes, por isso ela evita que os animais pareçam estressados na embalagem final.
O cuidado sugere respeito pelos bichos que cria, embora Cheryl saiba que o destino final deles é servir de alimento. Essa relação entre afeto e função comercial aparece até no fato de ela ter mantido um dos ratos como animal de estimação, batizado de Dave.
A procura de quem cria répteis
Entre os compradores de boa parte da produção de Cheryl está Julian Craig, tratador e educador de serpentes que mantém cerca de 80 das espécies mais peçonhentas do mundo em Murray Bridge. Ele recorre a diversos fornecedores de roedores, entre eles a fazendeira de Woodlane, mas conseguir um fornecimento constante nem sempre é fácil.
Ele disse que moradores de áreas rurais têm dificuldade para encontrar bons fornecedores e acabam pagando mais por isso. Cheryl relata que a demanda por ratos disparou durante os períodos de isolamento da pandemia, quando mais pessoas passaram a adotar répteis como animais de estimação.
Cheryl descreve aquele período como estressante, mas de forma positiva, porque foi o ano em que mais faturou com o negócio. Até hoje, lida com a curiosidade de quem descobre sua profissão, inclusive com a pergunta recorrente sobre se já experimentou carne de rato. Ela responde que sim.
Se criar ratos é tão lucrativo, por que mais pessoas não fazem?
A resposta combina barreiras iniciais: o cheiro forte, que quase fez Cheryl desistir; o medo cultural de ratos e de mordidas; e a dificuldade de aceitar que se criam animais destinados ao abate. Cheryl precisou passar por um período de adaptação em que enfrentou nojo, medo e desgosto antes de tornar o negócio rentável.
Também há uma exigência prática: o negócio só é rentável quando existe demanda e acesso a clientes. Criadores rurais de répteis têm dificuldade para encontrar fornecedores confiáveis e acabam pagando preços mais altos. Por isso, produtores urbanos ou de áreas sem demanda local não teriam para quem vender. A rentabilidade de Cheryl está ligada a um nicho específico.













