Milhares de ovelhas e cabras tomaram as ruas de Madri no domingo, 25 de outubro, atraindo multidões de turistas e moradores para acompanhar o festival anual da transumância. O evento recria a prática ancestral de deslocar rebanhos entre pastos sazonais e preserva direitos de pastoreio e migração que remontam a séculos na Península Ibérica.
A rota tradicional do festival foi desviada este ano para contornar um acampamento de protesto de ativistas de moradia instalado na Puerta del Sol, a praça central de Madri.
Os rebanhos percorreram as ruas do centro ao som de sinos e balidos. O desfile mostrou como a prática coexiste — ainda que desconfortavelmente — com as tensões urbanas contemporâneas da capital espanhola.
Raízes históricas de um trajeto ancestral
Madri se ergue sobre uma rede de caminhos de pastoreio que atravessa toda a Península Ibérica desde tempos remotos. Campos abertos e florestas cortados por rotas de transumância cobriam a área onde hoje está a cidade. A movimentação sazonal entre pastos fazia parte da economia rural da região há gerações.
O festival começou a ser realizado em Madri em 1994. A iniciativa mantém viva uma memória cultural e reafirma direitos historicamente consagrados de acesso aos caminhos rurais, enquanto a cidade avança sobre territórios que antes eram exclusivamente pastoris. Cidades similares na Itália, França e Califórnia também promovem eventos que honram essa herança agrícola.
Um movimento em declínio acelerado
A transumância — o deslocamento entre pastos sazonais — enfrenta um colapso demográfico há décadas. Desde aproximadamente 1950, gerações de jovens abandonaram o interior da Espanha em busca de trabalho e oportunidades nas cidades, esvaziando comunidades rurais e deixando grandes extensões de terra sem manejo tradicional.
Essa ausência de gado traz consequências ambientais diretas: sem o pastoreio, a vegetação rasteira e os galhos se acumulam nos campos, aumentando o risco de incêndios florestais descontrolados.
O festival, porém, resgata um conhecimento ecológico crucial: o gado limpa o mato e reduz o acúmulo de material combustível, o que ajuda a conter a propagação de incêndios nas zonas rurais da Península.
Quando a cidade se encontra com a tradição
O desvio do trajeto reflete tensões mais amplas na capital. Os protestos por moradia ganharam força em setembro, alimentados pela comoção causada pelo caso de Maricarmen. Ativistas por moradia acamparam na Puerta del Sol após a expulsão de uma mulher de 87 anos. María del Carmen Abascal, que vivia há sete décadas em seu apartamento no centro de Madri.
A mulher morreu no hospital logo após ser removida de casa, um caso que intensificou protestos contra a crise habitacional da cidade. A mudança no percurso do festival mostra como práticas centenárias precisam agora negociar espaço com lutas sociais urbanas imediatas.
Se a transumância está em declínio desde 1950, como o festival ainda acontece?
O festival existe porque um “pequeno grupo de fazendeiros” mantém a tradição viva — isso não significa que todos os criadores de gado da região ainda pratiquem a transumância.
Madri realiza o evento como uma recriação anual desde 1994, usando rebanhos de quem ainda trabalha com a prática para manter visíveis na cidade a memória cultural e os direitos históricos de pastoreio. É um evento comemorativo que celebra conhecimento que quase desapareceu, não uma prática ainda comum no dia a dia.
Quando a transumância não consegue competir com a cidade
O desvio do trajeto do festival em 2026 ilustra uma realidade: a transumância não pode sempre ocupar o mesmo espaço que ocupava historicamente. Os ativistas de moradia acampados na Puerta del Sol representam urgências urbanas contemporâneas — pessoas sem casa — que também reivindicam direitos sobre o espaço público.
Diferentemente de um campo aberto, uma praça central de uma capital não comporta simultaneamente um protesto de moradia e um rebanho. Isso mostra que, embora a transumância tenha “direitos historicamente consagrados”, eles não podem ser exercidos sem limite quando entram em conflito direto com outras necessidades urgentes da cidade.













