Jason Watts construiu uma operação agrícola baseada em apertos de mão e confiança mútua, modelo raro em uma indústria acostumada a contratos blindados e cláusulas de proteção.
Jason Watts, ex-centro de futebol americano da Universidade de Kentucky, teve uma breve carreira na NFL antes de deixar o futebol em 2002 para se tornar fazendeiro. O retorno à Flórida, sua terra natal, deu origem a uma operação de negócios diversificada, na qual a palavra dada vale mais que qualquer documento assinado.
Um acidente de trânsito fatal, no qual dois amigos morreram, havia interrompido sua trajetória no futebol universitário e deixado uma cicatriz visível no antebraço direito.
Atualmente, Watts administra aproximadamente 450 acres de mirtilos, um rebanho de centenas de cabeças de gado, uma crescente produção de uva muscadine e um negócio de pesticidas.
Watts prefere fechar negócios com um aperto de mão, enquanto a maioria dos agricultores protege as transações com contratos. A decisão lhe rendeu o título de Agricultor do Ano na Sunbelt Ag Expo de 2024.
Confiança em vez de contratos
Watts admite que sua estratégia soa arriscada até para ele próprio. Em entrevista ao Farm Futures, disse que não redige contratos, embora reconheça que talvez devesse fazê-lo, e que confia mais nos relacionamentos do que na proteção legal. Para Watts, a confiança funciona melhor do que qualquer documento.
Essa prática se estende aos agricultores que usam seus serviços de empacotamento e aos compradores de seus produtos. Além de vender a colheita das próprias terras, Watts comercializa frutas de outros produtores, que entregam suas safras sem acordo assinado.
Watts disse ao Farm Futures que esses produtores basicamente confiam nele e na Florida Best Farms para fazer o melhor com suas frutas.

Uma safra perdida, mas não a determinação
Em janeiro de 2026, uma onda de frio tardio destruiu praticamente toda a safra de mirtilos e uvas muscadine de Watts.
A perda atingiu a comunidade: vizinhos fruticultores também perderam completamente seus cultivos, o que forçou o fechamento da casa de empacotamento. A estrutura é central para a região, e Watts emprega principalmente mão de obra local para processar cerca de 3 milhões de libras de mirtilos e 750 mil libras de uvas muscadines por ano.
Diante da perda, Watts decidiu replantar, e conforme informou ao Farm Futures, ele ampliou a área e introduziu novas variedades depois que o congelamento eliminou a colheita.
O resultado completo só ficará claro em 2028, quando as plantas atingirem plena produtividade. Em 2027, porém, o agricultor já terá indícios do desempenho.
Uma trajetória além do futebol
A trajetória de Watts o levou do centro do campo de futebol à administração de uma das operações de mirtilos mais proeminentes da Flórida. Hoje, ele se dedica à agricultura no estado.
Desde o lançamento da divisão de mirtilos, em 2009, a Florida Best Farms sobreviveu à pandemia de COVID-19. À concorrência de produtores mexicanos, à escassez de mão de obra e à ameaça constante de geadas que devastam colheitas sazonais.
A operação diversificada prospera sem depender apenas do volume de terras ou da variedade de negócios. Watts mantém um modelo de confiança que remete a outra era, mas continua gerando resultados concretos para os envolvidos em sua rede agrícola.
Por que a confiança substitui o risco de contratos
Watts evita contratos por três razões práticas que, na avaliação dele, podem prejudicar o agricultor mais do que protegê-lo. Primeiro, os contratos exigem compromissos de volume que estão fora do controle do produtor — uma geada pode destruir tudo, mas a obrigação permanece.
Segundo, os preços são fixados antes da safra com base em expectativas que costumam favorecer o comprador, deixando o agricultor com margem menor. Terceiro, sair de um contrato ruim exige processo judicial caro e demorado.
Os acordos informais de Watts funcionam de outra forma: ele negocia a quantidade esperada no começo de cada estação, mas deixa margem para variações. Se a safra é menor, ambos ajustam as expectativas sem culpa mútua. O modelo reduz o risco legal e permite mais flexibilidade do que os documentos assinados.
Onde a confiança não funciona mesmo para Watts
Grandes compradores corporativos são a exceção: com eles, Watts não consegue negociar apenas com apertos de mão. Watts disse ao Farm Futures que essas empresas são tão corporativas que não admitem exceções nem flexibilidade, exigindo que tudo esteja formalizado em documento. Segundo ele, seu maior contrato foi redigido de forma genérica justamente porque a empresa precisava ter algo oficial no papel, embora ele próprio não quisesse esse formato.
Essa limitação mostra que o modelo de confiança funciona bem em redes menores e pessoais, onde reputação importa mais que poder corporativo. Quanto maior e mais impessoal a empresa, menos viável fica substituir papéis por palavra.













