Famílias de produtores rurais do sul da Austrália, que há um ano mal conseguiam fechar as contas, agora se preparam para uma reviravolta nesse cenário. Na propriedade da família Fisher, as lavouras de trigo e cevada cresceram tanto que a filha de três anos, Aurora, quase desaparece ao correr entre elas.
A recuperação é resultado de chuvas acima da média em partes da Austrália do Sul, que trouxeram alívio a quem enfrentou quatro anos seguidos de seca. A propriedade dos Fisher recebeu 330 milímetros de chuva neste ano, bem acima da média local, que fica em torno de 250 milímetros.
Kiara Fisher contou ao ABC que a área hoje coberta de lavouras era só terra batida, e que o marido já precisou cortar o mato neste ano. Segundo ela, no ano passado as plantações mal chegavam ao tornozelo, enquanto agora a filha pequena quase some entre os pés de trigo e cevada.
Expectativa de recomeço financeiro
O trabalho fora da propriedade e o auxílio do governo federal para famílias ajudaram o grupo a se manter durante o período mais seco. Fisher disse ao ABC que a família poderá recomeçar do zero depois de alguns anos difíceis e que, desta vez, plantou por um motivo concreto. Ela explicou, porém, que precisará vender a maior parte do grão para pagar as contas dos últimos três anos.
Realidades opostas entre vizinhos
Mais adiante, em Maggea, Louise Smith recebeu 350 milímetros de chuva neste ano, mais do que o dobro dos 115 milímetros registrados no ano anterior. Ela também sonha em fechar as contas no azul pela primeira vez em cerca de sete anos, depois de plantar centeio, cevada, trigo e aveia.
A produtora relatou que a cidade voltou a ter movimento, com vizinhos parando para conversar e trocando sorrisos, algo raro nos anos de seca. O gado e as ovelhas da propriedade, que antes precisavam ser alimentados à mão, engordaram com a melhora das pastagens.
Decisões que evitaram prejuízo maior
Parte do rebanho de ovelhas de Louise Smith não resistiu às condições severas da seca do ano passado. Mesmo assim, manter os animais vivos, ainda que fracos, foi uma escolha acertada: quem optou por vender o gado agora não tem dinheiro para repor o plantel.
Segundo a produtora, olhando para trás, as decisões tomadas há um ano foram as melhores possíveis para chegar em boas condições a esta temporada. Neste ano, segundo ela, não foi necessário alimentar à mão o gado da raça Charolais.
Colheita recorde à vista
As colheitadeiras já começaram a trabalhar nas lavouras do oeste do estado, enquanto a maior parte dos produtores ainda se prepara para receber uma safra robusta. A temporada 2026/27 deve bater recordes, segundo Brad Perry, executivo-chefe da Grain Producers South Australia.
Ao ABC, Perry disse que a média histórica de colheita de grãos no estado gira em torno de 9 milhões de toneladas e que a expectativa agora é superar amplamente esse número. A entidade projeta que a Austrália do Sul deve colher 13 milhões de toneladas de grãos neste ano, desde que a colheita siga conforme o planejado e as lagartas que ameaçam as lavouras não atrapalhem o resultado.
O que uma boa safra significa financeiramente para essas famílias
A colheita robusta representa a primeira oportunidade real em anos de essas famílias saírem do vermelho. Kiara Fisher precisou vender a maior parte dos grãos apenas para pagar as contas dos últimos três anos — ou seja, a safra não é lucro imediato, mas sim um resgate financeiro.
Louise Smith sonha em fechar as contas no azul pela primeira vez em cerca de sete anos. Isso mostra que a boa colheita é menos sobre ganho e mais sobre sobrevivência econômica após período de crise.
As decisões tomadas durante a seca também têm efeito prático: manter o rebanho vivo, mesmo fraco, em vez de vendê-lo agora se mostra acertado. Quem vendeu o gado não tem dinheiro para repor o plantel, enquanto quem manteve os animais consegue aproveitar a recuperação, e a diferença entre as escolhas cria disparidade entre vizinhos: uns recuperam o patrimônio, enquanto outros precisarão de mais tempo.













