Aromas produzidos em laboratório podem ajudar a levar sementes para áreas onde a floresta foi destruída. Pesquisadores da Embrapa Florestas, do IFPR e da PUC-PR descobriram que compostos aromáticos sintéticos conseguem atrair morcegos frugívoros, criando uma alternativa para estimular a regeneração natural de áreas degradadas.
A estratégia aproveita o olfato dos animais. Ao serem atraídos pelo aroma, os morcegos sobrevoam a área e podem depositar sementes nas fezes, aumentando a chamada chuva de sementes.
Como surgiu essa alternativa
A pesquisa reúne quase duas décadas de estudos com óleos essenciais de frutos consumidos por morcegos. Os principais gêneros envolvidos são:
- Artibeus: atraído por aromas de figueiras;
- Carollia: associado a frutos do gênero Piper;
- Sturnira: atraído por frutos de Solanum, como tomates silvestres.
Nos últimos seis anos, os pesquisadores passaram a separar os componentes responsáveis pelos aromas e testar versões produzidas artificialmente. Os resultados indicaram que compostos sintéticos comercialmente disponíveis conseguem atrair os morcegos mesmo em pequenas quantidades.
Menos extração de frutos silvestres
A produção de óleos essenciais naturais exige a coleta de grandes quantidades de frutos. Segundo a equipe, cerca de 500 gramas de frutos podem render apenas algumas gotas de óleo, dependendo da espécie e do processo de extração.
Os compostos sintéticos podem reduzir essa necessidade e oferecem:
- menor coleta de frutos silvestres;
- maior padronização do atrativo;
- uso de pequenas quantidades;
- possibilidade de aplicação em projetos de restauração.
Essas substâncias são chamadas de semioquímicos, compostos que transmitem sinais capazes de influenciar o comportamento de outros organismos.
O morcego como dispersor
A proposta não é fazer o animal transportar sementes artificialmente, mas aproveitar seu comportamento natural. O aroma pode ser interpretado como sinal de alimento, levando os morcegos a permanecer na região e aumentar a deposição de sementes.
Um estudo publicado em 2025 na Biotropica, realizado na Costa Rica, também encontrou resultados positivos: atrativos sintéticos aumentaram a presença de morcegos do gênero Carollia e a quantidade de sementes coletadas em determinados testes. Os pesquisadores, porém, observaram que o efeito sobre a chuva de sementes ainda depende das condições de cada ambiente.
Técnica ainda em desenvolvimento
A tecnologia não substitui o plantio de mudas ou outras estratégias de restauração. A Embrapa trata a abordagem como uma ferramenta complementar e aponta a necessidade de novos testes para definir protocolos adequados a diferentes ambientes.
Nos experimentos brasileiros, os compostos foram colocados em septos de borracha de látex, que liberam o aroma gradualmente. O dispositivo pode permanecer ativo por cerca de 20 a 25 dias, funcionando como um ponto de atração para os morcegos.













