Famílias de Chorwan, uma aldeia isolada na região de Gurez, na Caxemira administrada pela Índia, guardam até 500 quilos de batata em khraw, poços subterrâneos revestidos de palha. O método preserva alimentos durante os invernos do Himalaia, quando as temperaturas caem abaixo de 20 graus negativos, mas está desaparecendo.
Hajra Begum examina cada batata com cuidado e separa as melhores para o khraw que sua família usa há gerações. Ela procura sinais de danos que possam comprometer o armazenamento.
À medida que as estradas melhoraram e as gerações mais jovens emigraram para as cidades em busca de trabalho e educação, caiu o número de famílias que mantêm os poços tradicionais. Aos 40 anos, Begum teme que um conhecimento transmitido de mãe para filha durante séculos desapareça em breve.
Um sistema de conhecimento ancestral em colapso
O vale de Gurez fica próximo à Linha de Controle, a fronteira militarizada que separa a Caxemira administrada pela Índia e pelo Paquistão. A 125 quilômetros de Srinagar, a região fica isolada a cada inverno, quando a neve bloqueia a passagem de Razdan, sua única estrada principal, situada a aproximadamente 3.600 metros de altitude.
Nesse isolamento, as comunidades locais desenvolveram técnicas de armazenamento e seleção de sementes adaptadas às condições extremas. A região abriga os Dard-Shin, um povo indígena que fala Shina e tem uma cultura distinta da Caxemira, com vínculos comunitários do outro lado da fronteira, em Gilgit-Baltistão.
As batatas representam cerca de 45% da área cultivada em Gurez, segundo um estudo de 2019 do National Bureau of Plant Genetic Resources (ICAR-NBPGR), órgão ligado ao Conselho Indiano de Pesquisa Agrícola. Apesar disso, a diversidade genética das variedades locais nunca foi sistematicamente documentada.

Variedades inteiras desaparecem sem registro científico
Sheikh M Sultan, cientista sênior na estação de Srinagar do ICAR-NBPGR, disse ao The Guardian que viu muitas variedades na primeira visita ao vale. Depois, mal conseguiu localizar amostras de algumas delas, e segundo ele, a perda de diversidade genética é enorme.
Sultan atribui o declínio à migração, à melhoria das estradas e às mudanças no estilo de vida. Esses fatores levam ao abandono da agricultura tradicional e do conhecimento sobre como selecionar, cultivar e preservar variedades locais.
Ele alertou que, quando as pessoas deixam de produzir as próprias sementes e passam a depender apenas de variedades comerciais, a perda pode ser irreparável.
O desaparecimento dos khraw representa mais do que a perda de uma técnica de armazenamento: marca o fim de um sistema de conhecimento que permitiu às comunidades locais selecionar e preservar variedades adaptadas aos extremos do Himalaia. Quando as famílias abandonam o cultivo de suas próprias sementes e passam a depender inteiramente de variedades comerciais, a perda se torna irreversível.
Sultan também disse ao The Guardian que instituições de pesquisa costumam priorizar variedades introduzidas em detrimento das indígenas, cujas características ainda são pouco conhecidas. Segundo ele, as variedades indígenas podem ter tolerância ao frio e resistência a certas pragas e doenças.
O conhecimento que desaparece a cada geração
Begum aprendeu com a mãe a diferenciar as batatas que armazenam bem daquelas que apodrecem ou brotam rápido demais. Ela transmite esse saber à filha, mas não tem certeza de que a habilidade sobreviverá a mais uma geração. Ao The Guardian, disse que, quando era jovem, quase todas as famílias tinham três ou quatro poços.
Hoje, ela diz que apenas um punhado de famílias ainda usa os poços no vale principal. As demais compram batata no mercado ou variedades subsidiadas pelo governo.
Parveen Kumar, da Universidade de Agricultura e Tecnologia Sher-e-Kashmir, disse ao The Guardian que variedades adaptadas localmente não devem ser ignoradas. Segundo ele, a mudança climática é uma realidade, e os agricultores precisam conhecer estratégias de adaptação. Sem documentação sistemática, o conhecimento sobre essas variedades pode desaparecer antes que os cientistas compreendam o que elas contêm.













