Propriedades rurais inexistentes ou com registros irregulares estão despertando preocupação entre bancos e investidores do agronegócio. O problema surge quando terras apresentadas como garantia de empréstimos não correspondem à realidade, dificultando a recuperação do dinheiro emprestado.
O alerta ganha dimensão diante dos R$ 256 bilhões em operações problemáticas no setor agropecuário, segundo dados citados na reportagem do Money Times. Esse total reúne diferentes tipos de dificuldades financeiras e não se refere exclusivamente a fraudes envolvendo propriedades rurais.
Investigações apuram suspeitas de fraude
No Pará, a Polícia Federal realizou a Operação Imperium Fictum para investigar suspeitas de criação de fazendas fictícias vinculadas a uma área federal em Anapu. Conforme informações reunidas pela investigação, os imóveis teriam sido negociados ou utilizados como garantia de empréstimos que ultrapassaram R$ 8,4 milhões.
Em Mato Grosso, outra investigação apurou suspeitas de alteração eletrônica do desenho de uma propriedade no Cadastro Ambiental Rural (CAR). O registro teria sido utilizado em avaliações apresentadas em tentativas de obtenção de crédito, envolvendo um imóvel avaliado em R$ 84 milhões.
Cadastros deslocados colocam garantias em dúvida
As irregularidades também podem envolver propriedades registradas em locais incompatíveis com sua localização real. No Pará, um imóvel que recebeu R$ 4,6 milhões em crédito rural em 2021 apareceu posteriormente com seu cadastro ambiental sobre o leito do Rio Araguaia.
O caso foi identificado em uma apuração jornalística baseada em dados do Monitor do Crédito Rural do MapBiomas. Segundo as informações divulgadas, o registro teria sido deslocado cerca de 30 quilômetros para dentro do rio. O banco afirmou que o cadastro estava regular quando o financiamento foi concedido.
Também foram identificadas suspeitas relacionadas a matrículas duplicadas ou sobrepostas em diferentes estados. No Tocantins, titulares de cartórios passaram a responder a processos disciplinares, enquanto, na Bahia e no Pará, registros imobiliários suspeitos foram bloqueados ou anulados.
Documentação irregular dificulta a recuperação de empréstimos
Outro problema envolve a averbação da certificação de imóveis rurais nas respectivas matrículas. Dados consultados em outubro de 2026 indicavam que 709 mil dos 1,58 milhão de imóveis certificados tinham essa informação averbada, o equivalente a 44,9%.
A falta de correspondência entre documentos, registros e localização física pode passar despercebida durante a concessão do crédito. As inconsistências acabam se tornando mais evidentes quando os bancos tentam executar as garantias para recuperar os valores emprestados.
Por isso, especialistas em análise de propriedades rurais defendem verificações mais rigorosas antes da liberação de financiamentos. A conferência dos registros e da localização efetiva dos imóveis pode ajudar a identificar possíveis irregularidades e reduzir os riscos para instituições financeiras e investidores do agronegócio.













