Mais de 200 mil hectares de arrozais no Rio Grande do Sul serão usados em um dos maiores projetos de mitigação climática já anunciados pelo Google. Em parceria com a empresa Terradot, a gigante de tecnologia vai combinar duas estratégias na mesma área: reduzir o metano liberado pelo cultivo do arroz e remover CO₂ da atmosfera
O acordo é a maior compra de remoção de carbono já feita pelo Google e também dá origem ao maior projeto de intemperismo acelerado de rochas já anunciado no mundo. A proposta é atacar o problema em duas escalas de tempo: reduzir rapidamente um gás de forte efeito sobre o aquecimento e, ao mesmo tempo, retirar carbono da atmosfera de forma duradoura.
Água drenada corta a produção de metano
- Problema: o arroz cultivado em campos alagados favorece a produção de metano. O PNUMA estima que o cultivo responda por cerca de 8% das emissões humanas do gás.
- Solução: a Terradot aplicará o Molhamento e Secagem Alternados (AWD), com drenagens periódicas dos arrozais para reduzir a formação de metano e o consumo de água.
- Meta: gerar até 1 milhão de toneladas de redução em CO₂ equivalente até 2030. Isso representa redução de emissões, não retirada de CO₂ da atmosfera.
Basalto contra o CO₂
- Técnica: a Terradot espalhará basalto triturado nos mesmos arrozais.
- Como funciona: o Intemperismo Acelerado de Rochas acelera uma reação natural em que minerais da rocha interagem com água e CO₂, armazenando o carbono em formas mais estáveis.
- Duração: a empresa estima que o carbono possa permanecer armazenado por mais de 10 mil anos.
- Meta: remover 1 milhão de toneladas de CO₂ até 2040.
Custo e expansão do projeto
O custo ainda é um dos desafios. Em 2024, a Terradot fechou um acordo de cerca de US$ 300 por tonelada de CO₂ removida. No novo projeto, a empresa espera reduzir o valor, mas ainda acima dos US$ 100 por tonelada considerados necessários para ampliar a tecnologia. Uma das estratégias é deixar o intemperismo ocorrer por mais tempo antes da verificação do carbono removido.
O Rio Grande do Sul foi escolhido pela combinação de grandes áreas de arroz e disponibilidade de rochas vulcânicas próximas. O Google já havia investido na Terradot em 2024 e comprado 200 mil toneladas de créditos de remoção de carbono.
Agora, a empresa prevê projetos-piloto em outros países em 2026, expansão comercial em 2028 e, se o modelo avançar, até 1,5 milhão de hectares de arrozais no Brasil, antes de chegar a regiões como Índia e Vietnã.
Data centers de IA aumentam a pressão
O acordo acontece em meio à expansão da inteligência artificial, que aumenta a demanda por eletricidade e infraestrutura de data centers. Em 2025, o Google contratou mais de 12 GW de nova energia limpa e reduziu em 2% suas emissões operacionais, mesmo com o aumento do consumo de eletricidade.
A remoção de carbono é considerada pelo IPCC necessária nos cenários de neutralidade climática, principalmente para compensar emissões que não podem ser eliminadas completamente. O painel, porém, aponta diferenças entre as tecnologias em relação a custos, maturidade, potencial e riscos.
No projeto brasileiro, Google e Terradot combinam as duas frentes. O metano é reduzido no curto prazo, enquanto o CO₂ é removido e armazenado por longos períodos. A expectativa é que o modelo possa ser ampliado para outras regiões produtoras de arroz.













