A participação feminina no campo brasileiro ganhou dimensão inédita: cerca de 947 mil estabelecimentos agropecuários do país são dirigidos por mulheres, o equivalente a 19% do total, segundo dados do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O avanço mostra que as produtoras já ocupam espaço relevante na administração, na produção e nas decisões que definem o futuro das propriedades rurais.
A presença feminina também aparece na gestão compartilhada. Mais de 30% dos estabelecimentos rurais contam com homens e mulheres dividindo responsabilidades, o que amplia a atuação das produtoras em áreas como investimentos, comercialização, planejamento e continuidade dos negócios familiares.
Mulheres ganham espaço na produção e na gestão
A atuação das produtoras não se limita às atividades diretamente ligadas ao cultivo ou à criação de animais. Mulheres também têm participação expressiva na agricultura familiar, na agroecologia e no processamento de alimentos, além de assumirem tarefas administrativas e financeiras dentro das propriedades.
Apesar disso, parte desse trabalho ainda é vista como uma extensão das responsabilidades domésticas e familiares. A falta de reconhecimento formal pode dificultar o acesso a renda própria, crédito e outras ferramentas necessárias para ampliar a atividade.
Acesso ao crédito ainda é um dos principais obstáculos
Entre os desafios enfrentados pelas produtoras está a dificuldade para obter financiamento. A titularidade da terra é um dos pontos que podem pesar nesse processo: quando o imóvel ou os bens utilizados como garantia não estão registrados no nome da mulher, o acesso ao crédito pode se tornar mais complicado.
Linhas específicas, como o Pronaf Mulher, foram criadas para ampliar as possibilidades de financiamento para produtoras da agricultura familiar. Programas voltados aos chamados quintais produtivos também podem ajudar na geração de renda e na diversificação das atividades.
O crédito pode ser utilizado em investimentos como compra de equipamentos, melhoria da estrutura da propriedade e ampliação ou diversificação da produção. Para além do recurso financeiro, o acesso ao financiamento pode aumentar a participação das mulheres nas decisões sobre os negócios rurais.
Gestão feminina pode influenciar a sucessão no campo
A maior presença de mulheres na administração das propriedades também ganha importância quando o assunto é sucessão rural. A continuidade das atividades entre diferentes gerações depende cada vez mais de planejamento, organização financeira e capacidade de adaptação.
Nesse cenário, a participação feminina na gestão pode contribuir para modernizar negócios familiares e manter as propriedades produtivas. A autonomia financeira também fortalece a posição das mulheres nas decisões relacionadas ao patrimônio e aos investimentos.
O movimento ocorre em um momento em que o campo brasileiro passa por transformações tecnológicas e econômicas, exigindo novos conhecimentos e maior capacidade de gestão.
Jornada dupla aumenta os desafios das produtoras
Mesmo com quase 1 milhão de propriedades sob comando feminino, as mulheres ainda enfrentam obstáculos relacionados à divisão das responsabilidades. Além das tarefas produtivas e administrativas, muitas acumulam atividades domésticas e cuidados com a família.
Essa sobrecarga pode reduzir o tempo disponível para qualificação profissional, acesso à informação e adoção de novas tecnologias. São fatores que influenciam diretamente a produtividade e a capacidade de expansão dos negócios rurais.













