Família argentina mantém uma tradição de mais de um século na pecuária e hoje reúne seleção genética, agricultura, terminação intensiva e criação de cavalos de polo em diferentes propriedades
Uma operação familiar que atravessou cinco gerações transformou a criação de Shorthorn em um negócio rural diversificado na Argentina. Os irmãos Jorge, Carlos e Felipe Dawney participam da gestão de uma estrutura que soma mais de 2 mil vacas, cultiva milho, trigo e soja, dispõe de um confinamento com capacidade para 3 mil bovinos e inclui uma propriedade de aproximadamente 27 mil hectares no oeste argentino. A família também cria cavalos destinados ao polo.
A dimensão territorial, porém, precisa ser entendida corretamente. Os 27 mil hectares correspondem a uma das propriedades administradas pelo grupo familiar, predominantemente voltada à pecuária comercial. O número superior a 2 mil vacas se refere ao conjunto das operações dos Dawney, e não exclusivamente a essa fazenda. A produção está distribuída principalmente entre áreas de Nueve de Julio, na província de Buenos Aires, e La Pampa. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Três irmãos dividem a gestão do negócio rural
A estrutura é conduzida com responsabilidades distintas. Jorge Dawney atua diretamente nos rebanhos puros, que incluem Shorthorn, Angus e Criollo, além de participar da gestão do confinamento e das lavouras próximas a Nueve de Julio. Carlos, engenheiro industrial, concentra atividades administrativas, financeiras e de registros. Felipe, engenheiro agrônomo, está ligado às atividades produtivas e à gestão da propriedade localizada mais a oeste.
Documentos oficiais argentinos ajudam a confirmar a ligação dos três com a Agropecuaria Ibis. Registros societários publicados pela Província de Buenos Aires identificam Jorge Eduardo, Felipe Miguel e Carlos Juan Guillermo Dawney entre os integrantes da empresa familiar. Em 2026, a Agropecuaria Ibis continuava aparecendo em atos oficiais do município de Nueve de Julio relacionados a propriedades rurais e manutenção da rede viária.
O modelo atual resulta de uma história iniciada muito antes dos gestores atuais. Reportagens argentinas registram cerca de 120 anos de criação de Shorthorn pela família, com origem nos animais mantidos pelo tataravô dos irmãos, John Alston, em La Pampa.
Fazenda de 27 mil hectares é voltada principalmente à pecuária
O dado mais impressionante sobre área surgiu em um relato técnico publicado em janeiro de 2026 pela Heritage Shorthorn Society, organização norte-americana dedicada à raça. Após visitar produtores argentinos em novembro de 2025, os autores relataram que Felipe Dawney administrava uma propriedade no oeste do país com aproximadamente 27 mil hectares.
São cerca de 270 quilômetros quadrados, mas não há documentação pública suficiente para atribuir toda essa extensão à Cabaña El Chajá em Nueve de Julio. Por isso, tratar o negócio como uma única fazenda de 27 mil hectares concentrando todas as atividades distorceria a estrutura encontrada na apuração.
Fontes argentinas mostram que a família trabalha em ambientes produtivos diferentes. As áreas de cria em La Pampa são caracterizadas por condições mais secas, vegetação natural e manejo extensivo. Já Nueve de Julio está associada à recria, agricultura e terminação de bovinos.
Essa distribuição permite aproveitar cada ambiente conforme a etapa do ciclo produtivo.
Mais de 2 mil vacas e três raças na estratégia genética
Segundo a visita técnica mais recente, os diferentes rebanhos dos Dawney somam mais de 2 mil vacas. A produção comercial trabalha principalmente com Shorthorn, Angus e Criollo, enquanto os plantéis puros fornecem reprodutores utilizados também nos próprios rebanhos comerciais.
O Shorthorn ocupa uma posição especial na história da família. A raça chegou à Argentina no século XIX e teve participação relevante na transformação dos bovinos crioulos existentes no país. Em 2023, a Argentina celebrou os 200 anos da chegada do touro Tarquino, introduzido pelo escocês John Miller em 1823.
No sistema dos Dawney, entretanto, tradição não significa trabalhar apenas com animais puros. Carlos Dawney já explicou publicamente que a estratégia é pragmática e procura combinar características produtivas das diferentes raças.
O cruzamento envolvendo Shorthorn é utilizado em diversos sistemas de produção de carne. No Brasil, a raça também participou da formação do Santa Gertrudis, resultado da combinação de genética Shorthorn e Brahman.
Reprodução tem janela de apenas 65 dias
A escala do rebanho vem acompanhada de controle produtivo. Durante a visita de 2025, os criadores relataram acompanhamento de indicadores relacionados a fertilidade, ganho de peso, peso à desmama e longevidade das matrizes.
Um dos critérios mais duros está na reprodução. As vacas precisam emprenhar dentro de uma estação de 65 dias. Matrizes que não atendem ao critério deixam o programa de reprodução, segundo o relato técnico.
A família também trabalha com vacas próximas de 550 quilos, acima do tamanho observado pelos visitantes em alguns outros plantéis argentinos de Shorthorn. O objetivo descrito é obter maior peso de bezerros à desmama sem abandonar características funcionais.
O conceito se aproxima do princípio utilizado em programas modernos de avaliação genética, nos quais fertilidade, crescimento, habilidade materna e características de carcaça são analisados conjuntamente. No Brasil, por exemplo, o PROMEBO acompanha características produtivas e reprodutivas de diferentes raças de corte, incluindo o próprio Shorthorn.
Confinamento comporta até 3 mil animais
A operação possui ainda um confinamento com capacidade declarada para 3 mil cabeças, utilizado principalmente na fase de terminação de novilhos de maior valor. O número consta no relato da Heritage Shorthorn Society após a visita às instalações.
A estrutura complementa um sistema que não depende exclusivamente de terminação intensiva.
Em entrevista publicada em 2023, Carlos Dawney explicou que os bezerros das áreas de cria de La Pampa eram transferidos para Nueve de Julio. Parte da recria acontecia sobre pastagens e alguns lotes posteriormente recebiam terminação a curral. Naquele período, ele citou animais chegando a cerca de 380 quilos em aproximadamente um ano e sendo comercializados próximos dos 430 quilos, com grande parte do crescimento obtido a pasto.
Esses números representam o manejo relatado naquele momento e não devem ser interpretados como indicadores obrigatoriamente mantidos em 2026.
Milho, trigo e soja fazem parte da operação
A Agropecuaria Ibis não se limita à pecuária. As fontes argentinas e a visita internacional registram produção de milho, trigo e soja dentro do negócio familiar.
A presença das lavouras cria uma operação mais diversificada e amplia as possibilidades de integração com a pecuária, especialmente em uma estrutura que também termina animais em confinamento.
Não há, porém, informação pública suficiente para determinar quanto dos grãos produzidos é efetivamente direcionado à alimentação do gado. A relação técnica entre agricultura e confinamento existe, mas afirmar autossuficiência na produção de ração iria além do que as fontes permitem concluir.
Cavalos de polo aparecem como atividade complementar
Entre bovinos e lavouras, os Dawney mantêm ainda criação de cavalos de polo. A atividade foi identificada pela Heritage Shorthorn Society como uma linha complementar do negócio.
A fonte não informa quantidade de animais, área destinada aos equinos, faturamento ou volume de vendas. Por isso, não há base para classificar a criação como uma das maiores ou mais importantes coudelarias argentinas.
Ainda assim, sua presença combina com uma característica marcante do meio rural do país. A Argentina possui forte tradição no polo e uma cadeia consolidada de seleção e criação de animais voltados ao esporte.
Grandes propriedades rurais em outros países também combinaram pecuária e cavalos ao longo de sua história. Um caso conhecido é o King Ranch e seu trabalho com bovinos e linhagens de cavalos, nos Estados Unidos.
Tradição centenária precisou acompanhar a produtividade
A história dos Dawney chama atenção não somente pelo tamanho da propriedade ou pelo número de animais, mas pela transformação do negócio ao longo das gerações.
A família manteve sua ligação com o Shorthorn, porém incorporou outras raças, produção agrícola, manejo extensivo, recria, confinamento e acompanhamento de indicadores produtivos. A lógica atual é menos a de preservar uma genética por tradição e mais a de utilizá-la dentro de um sistema comercial.
A continuidade da atividade também pode ser verificada fora das reportagens. Além dos registros históricos da empresa, documentos municipais publicados em agosto de 2026 confirmam a Agropecuaria Ibis como proprietária rural no partido de Nueve de Julio.
Assim, a operação dos três irmãos reúne dois elementos que nem sempre caminham juntos: uma história pecuária superior a um século e um sistema produtivo que continua sendo adaptado às exigências econômicas e técnicas atuais.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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