Utilizar os castrados compensa mais do que macho inteiro

Utilizar os castrados compensa mais do que macho inteiro

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Foto: Lenine Mueller da Silva

Experimento mostra vantagem para castrados cirurgicamente e novilhas, se o mercado comprador foi o de carne gourmet.

Por Moacir José

Produzir carne de qualidade a partir de machos cruzados castrados cirurgicamente e novilhas é viável economicamente e mais vantajoso na comparação com o uso de animais inteiros ou imunocastrados. Essa é a conclusão de experimento científico conduzido pela médica veterinária Lenise Mueller da Silveira, doutoranda em Zootecnia (qualidade e produtividade animal) pela Universidade de São Paulo.

O estudo levou mais de dois anos para ser concluído, entre o abate (março de 2014) e o resultado das análises laboratoriais (meados de 2016) e serviu de base para dissertação de mestrado da veterinária, em janeiro/2017.

As duas categorias apresentaram melhor retorno financeiro em função da combinação entre uma melhor remuneração da arroba e um menor custo de produção em confinamento, a despeito de os machos inteiros terem apresentado maior peso final, maior ganho de peso e rendimento de carcaça que só perdeu para o das novilhas.

Nos números finais do experimento, com animais cruzados Angus x Nelore, o lucro (receita em relação à despesa) dos animais castrados cirurgicamente foi de 28% e o das novilhas, 26%, ante 25% para os inteiros e 16% para os imunocastrados.

O objetivo inicial do trabalho – conduzido no campus de Pirassununga da USP, sob orientação da doutora Angélica Simone Cravo Pereira, responsável pelo Laboratório de Ciência da Carne e em parceria com o Grupo VPJ Alimentos, de Jaguariúna (do empresário Valdomiro Poliselli Júnior), que forneceu os animais e, depois, a carne para as análises laboratoriais – foi o de confirmar a hipótese de que novilhas e machos castrados meio-sangue Angus x Nelore apresentariam melhores características qualitativas na carne, em comparação com machos inteiros.

A necessidade de se investir em tecnologias genética (cruzamento entre raças), nutricional (suplementação em confinamento) e de manejo (castração) compuseram a base dessa hipótese, uma vez que a adequada deposição de gordura na carcaça é um dos atributos que qualificam esta carne como sendo de melhor qualidade, para atender às novas exigências dos consumidores, que procuram no varejo carne mais macia e saborosa.

Confinamento mais longo

O experimento foi realizado com 176 bovinos (quatro grupos de 44 cada) pertencentes ao Programa de Certificação de Carne Angus, em confinamento de 190 dias e abatidos com idade média de 20 meses. Lenise Silveira esclarece que a duração da engorda foi propositalmente maior do que a usual (100 a 120 dias), para que se pudesse dar mais tempo aos machos inteiros para depositarem gordura intramuscular e alcançarem um escore de marmorização tão favorável quanto o dos demais grupos. O período de engorda foi dividido em três fases, com mudança na composição da ração: adaptação (21 dias), crescimento (49 dias) e alto desempenho (120 dias).

Outra ressalva feita pela doutoranda da USP, em função do alongado período de confinamento, foi a necessidade de três aplicações de vacina para a imunocastração dos animais desse grupo, ante o normal de duas aplicações, para que o seu efeito não fosse diminuído ou cessado antes do momento certo para abate dos animais. Esse fato, evidentemente, aumentou o custo de produção da arroba dos animais desse grupo.

Já a castração cirúrgica do outro grupo de machos foi realizada 30 dias antes da entrada no confinamento, por método fechado, através de incisão lateral na bolsa escrotal.

Ao fim do experimento, e visando a realização de cálculo de desempenho dos animais, a equipe da USP de Pirassununga coletou dados como ingestão de matéria seca de cada lote, ganho de peso médio diário e peso vivo final. Em seguida, os animais foram transportados até o frigorífico comercial, sem mistura dos lotes, sob a supervisão das pesquisadoras responsáveis. Os bovinos foram abatidos no Frigorífico Boa Vista Alimentos, de Goianira, GO.

Partindo do pressuposto de que determinadas características da carcaça – especialmente o acabamento – são influenciadas pela condição sexual do animal, durante o abate foram coletados dados sobre peso de carcaça quente e rendimento de carcaça, enquanto na desossa foram analisados pH, área de olho de lombo, espessura de gordura subcutânea e escore de marmorização.

Fonte: Autor

Vantagem anulada

Lenise Silveira destaca que os números do trabalho apontam para uma maior eficiência dos machos inteiros no confinamento, uma vez que apresentaram maior peso vivo final, maior ganho de peso médio diário, maior área de olho de lombo e maior peso de carcaça (confira na tabela). No entanto, esse desempenho foi impulsionado por um consumo maior de alimentos (ingestão de matéria seca), o que fez aumentar o custo de produção dessa categoria em relação às demais.

Ela ressalta que a aparente vantagem do macho inteiro – que, por ser mais pesado, rende mais no gancho e no valor pago pelo frigorífico – não resiste ao resultado financeiro de lucratividade, quando se coloca na conta o custo de produção e o adicional de preço pago por animais de melhor acabamento de carcaça. Esse diferencial foi de 8% no valor pago pela arroba do macho castrado cirurgicamente e de 10% pelo da arroba da novilha, bônus praticados pela VPJ Alimentos, e que têm como base a média de preços da arroba levantada pelo Cepea na região.

Além disso, o rendimento de carcaça dos inteiros não apresentou diferença substancial em relação às outras categorias sexuais, mesmo os machos inteiros apresentando uma carcaça mais pesada. Outro fato apontado pelo estudo – já de conhecimento dos pecuaristas – é que a deposição de gordura na carcaça (subcutânea e intramuscular) dos inteiros é menor do que a dos castrados e revelou-se também em relação à das novilhas. “Ressalta-se, ainda, que, em geral, há uma maior susceptibilidade dos machos inteiros ao estresse pré-abate, o que acarreta severos problemas na qualidade da carne”,
diz Lenise.

O desempenho dos imunocastrados (peso maior da carcaça, maior rendimento) foi muito parecido com o dos machos inteiros e se assemelhou ao dos castrados cirurgicamente em espessura de gordura, o que os coloca em condição de ser alternativa à castração cirúrgica. “Porém, é preciso levar em conta, o custo com as vacinas”, alerta Lenise.

Vantagem mantida

Já com relação às novilhas, a doutoranda da USP de Pirassununga chama a atenção para o fato de que houve excessiva deposição de gordura em suas carcaças (16,5 mm), quando o ideal seria um acabamento uniforme, entre 6 e 10 mm. Como isso se deveu ao longo período de confinamento, o encurtamento da engorda para 120 dias daria para essa categoria a vantagem de ter uma excelente cobertura, com um custo de produção mais baixo ainda. Fica a dúvida se, nesse encurtamento, outros indicadores de desempenho seriam prejudicados.

Lenise concorda que, de fato, isso poderia acontecer, por exemplo, com o ganho de peso, mas lembra que fêmeas (novilhas) começam a depositar gordura na carcaça mais cedo, em comparação com machos castrados e não castrados, e que isso seria uma vantagem a ser considerada. “Some-se a esse fator o genético (animais cruzados), o da idade dos animais e o da dieta altamente energética, e, aí, é provável que as novilhas tenham uma equivalência muito próxima à dos machos castrados,
por exemplo”, diz ela.

Explicamos o dilema dos frigoríficos: boi inteiro x boi castrado

Fonte: Revista DBO 449

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