Xico Graziano: Celebridades e a desinformação

Xico Graziano: Celebridades e a desinformação

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Foto: Divulgação

Produção de milho não ’empobrece’ o solo (segundo a Bela Gil); confira o artigo de Xico Graziano escrito para o portal Poder 360

Pessoas famosas gostam do campo. Curtem o mundo rural de forma bucólica, poética. É salutar: a alface fresca da horta, um cavalgar, água na bica, um quitute caipira no prato, ar puro. Valorizam o modo de vida campestre. Bacana.

Alguns artistas vão além. Como que tomados por espíritos sapientes, opinam sobre o que não entendem. Palpitam sobre a produção agropecuária, criticam a moderna tecnologia rural, falam barbaridades. Tornam-se arautos do atraso. Horrível.

Bela Gil é uma dessas celebridades que adoram denegrir o agronegócio. Defensora da alimentação saudável, a apresentadora não se contenta em enaltecer sua “culinária holística”. Não. Para promover seu naturalismo, ela xinga a agronomia.

Um recente texto sobre o milho transgênico foi seu último libelo anticientífico. Escrevendo sobre as gostosuras elaboradas com o amarelo cereal, apreciadas nas festas juninas –curau, canjica, pamonha, bolo de fubá– Bela Gil condena a realidade agrícola, eis que 90% do milho cultivado no Brasil é geneticamente modificado.

Segundo a artista-especialista, essa situação é intolerável, pois o cultivo do milho transgênico:

a) empobrece o solo;
b) desmata o Cerrado; e
c) estimula a fome mundo afora.

Ademais, inexistem estudos que garantam sua segurança nutricional.

Confesso que jamais vi um ataque tão esdrúxulo, e mentiroso, contra uma prática tecnológica no agro. Afirmar que o moderno cultivo do milho “empobrece” o solo beira a insanidade. Fiquei pensando: de onde ela retirou essa (des)informação agronômica?

Normalmente, a lavoura do milho na região Centro-Oeste se instala secundariamente, após a colheita da soja, de março a abril. Essa sucessão entre uma leguminosa (soja) e uma gramínea (milho) favorece a fertilidade do solo. Ninguém desmata o Cerrado para plantar milho.

Os dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) indicam que a produtividade média, em toneladas por hectare plantado de milho, aumentou nas últimas 4 décadas a uma taxa média anual de 5,8%. É um feito extraordinário, que jamais ocorreria com a terra depauperada. Qual maluco assoprou para a Bela Gil que o milho anda empobrecendo o solo?

Agora, julgar que a produção de milho transgênico “estimula” a fome do mundo é um acinte à inteligência humana. Os Estados Unidos produziram 348 milhões de toneladas de milho na safra 2019/20, enquanto que no Brasil se colheu 101 milhões de toneladas. Será que os sórdidos argumentos da Bela Gil valem também para os norte-americanos? E a China, com 260 milhões de toneladas, estaria igualmente estimulando a fome de seu povo? É patético.

Segundo a “especialista” Bela Gil, a ênfase na exportação agrícola está tornando o país vulnerável, pois “queremos comida, não commodities que enriquecem o bolso de poucos deixando tantos brasileiros com fome”. E, para comprovar sua tese, diz que “enquanto exporta soja para alimentar os porcos da China, o Brasil precisa importar feijão da Argentina”.

Fui conferir a informação. O Brasil historicamente importa feijão preto da Argentina, e nos anos recentes também da China, na ordem de 150 mil toneladas anuais. Esse volume importado significa ao redor de 5% da produção de feijão nacional.

Só que, ao mesmo tempo, o país exporta feijão. No ano passado (2019) foram vendidas 165 mil toneladas para cerca de 80 países. O Vietnã, seguido da Índia e do Egito, foram os maiores compradores do feijão nacional. Acreditem: uma das principais variedades exportadas é o feijão caupi, o popular feijão-de-corda. E agora, Bela, exportar feijão pode?

Vou dizer uma coisa que talvez decepcione Bela Gil. O Censo Agropecuário do IBGE (2017), divulgado há meses, mostrou que é de 12% a participação da chamada agricultura familiar no valor da produção de milho. Comprova que aí impera o “agronegócio”.

Só que o mesmo Censo Agropecuário também mostra que, na produção de feijão, o valor é idêntico: apenas 12% do querido cereal vem da agricultura familiar. Pois é, quem diria, o feijão se tornou capitalista. Sabem onde predomina a produção familiar, tão romanceada pela Bela Gil? Na lavoura do fumo, com 94%. Se é familiar, é bom?!

Conhecimento é poder. Cuidado, Bela Gil e demais celebridades, com as informações que lhes passam escritas, ou lhes assopram no ouvido. Ao contrário das artes, o conhecimento agronômico exige experimentação, verificação e validação. Procurem comprovar as lorotas que lhes empurram. Não as tomem como um script a ser decorado.

Os árcades defendiam o belo refúgio da natureza vivendo ricamente nos centros urbanos. A situação é parecida. Os agricultores do Brasil merecem mais respeito desses artistas que fazem do “fingimento poético” seu modo de se enriquecer vendendo mercadorias caras para a elite.

Nós somos caipiras, mas não somos bobos.

Fonte Poder 360

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