Potência na produção de soja, milho, café, açúcar e carnes, o país ainda busca reduzir uma das maiores vulnerabilidades do agro: a dependência externa dos fertilizantes que sustentam a produtividade das lavouras.
O Brasil transformou solos tropicais, expandiu a produção agrícola e se consolidou entre os maiores fornecedores de alimentos do planeta. Há, porém, uma contradição pouco visível por trás das lavouras que abastecem o mercado interno e seguem para dezenas de países: boa parte dos nutrientes usados para produzir essa comida chega de navio.
A dependência é elevada. Estimativas variam conforme a metodologia e o tipo de fertilizante considerado, mas diferentes fontes oficiais colocam mais de 80% da demanda brasileira vinculada ao exterior. A Embrapa cita atualmente dependência próxima de 87%, enquanto levantamento da CNA apontou que 93% dos fertilizantes utilizados em 2025 foram importados.
A explicação não está simplesmente na falta de minerais no território brasileiro. O problema envolve uma combinação bem mais complexa: disponibilidade e qualidade das reservas, preço do gás natural, mineração, investimentos bilionários, infraestrutura, logística, licenciamento, escala industrial e décadas de perda de competitividade da produção doméstica.
É por isso que o país capaz de produzir algumas das maiores safras agrícolas do planeta ainda depende de Rússia, Canadá, China e outros fornecedores para manter boa parte de suas lavouras adubadas.
Quanto fertilizante o Brasil realmente utiliza?
A dimensão do problema aparece nos números.
Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes foram entregues ao mercado brasileiro em 2025, contra 45,6 milhões de toneladas no ano anterior. A produção nacional de fertilizantes intermediários e complexos NP, por sua vez, ficou em aproximadamente 7,22 milhões de toneladas. As importações de intermediários e complexos NPK chegaram a 43,33 milhões de toneladas.
Os números não podem ser simplesmente divididos para calcular a dependência, porque entregas, produção, importações, estoques e composição dos produtos obedecem a metodologias diferentes. Mas deixam evidente a diferença de escala entre aquilo que a agricultura brasileira demanda e o que a indústria doméstica consegue fornecer.
E essa demanda tem endereço conhecido.
Soja, milho e cana-de-açúcar concentram mais de 73% do consumo brasileiro de fertilizantes. O país responde por aproximadamente 8% do consumo mundial e ocupa a quarta posição global, atrás de China, Índia e Estados Unidos.
Em outras palavras, a dependência cresceu também porque o Brasil se tornou uma potência agrícola.
Quanto mais o país produz, maior é sua necessidade de nitrogênio, fósforo e potássio — o conhecido NPK, base da nutrição de grande parte das lavouras comerciais.
Se o Brasil é tão grande, por que não produz todo o adubo aqui?
Essa é justamente a parte mais interessante da questão.
Ter território continental não significa possuir, em localização, concentração, qualidade e condições econômicas adequadas, todos os minerais necessários para fabricar fertilizantes competitivos.
No potássio, por exemplo, o Brasil possui reservas. Dados da Agência Nacional de Mineração mostram que as reservas brasileiras representavam cerca de 3,2% das principais reservas mundiais em 2024. Mesmo assim, a produção doméstica permanece pequena diante do tamanho da agricultura nacional.
Em 2024, foram produzidas cerca de 398,5 mil toneladas de K₂O contido, concentradas em Sergipe. O Ministério de Minas e Energia já estimou que aproximadamente 90% do potássio consumido no país é importado.
Parte importante do potencial potássico brasileiro está na Bacia do Amazonas. Transformar uma jazida em fertilizante disponível na fazenda, entretanto, exige mineração, licenciamento, infraestrutura, capital intensivo e anos de desenvolvimento.
No fósforo existe outro desafio. O diagnóstico do Plano Nacional de Fertilizantes aponta que parte das reservas brasileiras apresenta perspectivas de exploração de minérios de menor teor e maior custo, enquanto novos empreendimentos minerais podem levar entre seis e dez anos até começar efetivamente a produzir.
Portanto, descobrir uma reserva não significa automaticamente colocar adubo barato no mercado.
O gás natural ajuda a explicar a dependência da ureia
Nos fertilizantes nitrogenados, a lógica muda.
Aqui, um dos principais gargalos está no gás natural, matéria-prima fundamental para a produção de amônia e, posteriormente, de produtos como a ureia.
Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostrou que o preço do gás no Brasil pode representar um desafio à viabilidade econômica de novos empreendimentos de fertilizantes nitrogenados. Nas simulações realizadas pela instituição, uma nova planta precisaria trabalhar com gás dentro de determinada faixa competitiva para conseguir viabilidade econômica frente aos fornecedores internacionais.
Isso ajuda a explicar uma aparente contradição: mesmo sendo produtor de petróleo e gás, o Brasil pode encontrar ureia estrangeira chegando aos portos em condições competitivas em relação à fabricação doméstica.
Não basta, portanto, construir uma fábrica. Ela precisa produzir durante décadas a um custo capaz de competir com gigantes internacionais instalados próximos a matérias-primas mais baratas.
A geopolítica entra diretamente no custo da lavoura
Essa dependência seria apenas uma questão comercial se o mercado de fertilizantes fosse previsível. Não é.
Guerras, sanções econômicas, problemas em rotas marítimas, preço internacional do gás, câmbio e decisões de grandes países exportadores podem alterar rapidamente o custo dos nutrientes.
É justamente aí que o fertilizante deixa de ser apenas um insumo agrícola e passa a ser uma questão estratégica.
A CNA observou que os fertilizantes continuaram pressionando os custos da safra 2026/27, mesmo sem falta generalizada do produto no mercado brasileiro. Segundo a entidade, câmbio, geopolítica e custos logísticos continuam influenciando os preços, enquanto a relação de troca piorou para culturas como soja e milho.
Para o produtor, isso aparece de forma bastante prática: é preciso entregar mais sacas de grãos para comprar a mesma tonelada de fertilizante quando a relação de troca se deteriora.
Ou seja, uma crise ocorrida a milhares de quilômetros da fazenda pode entrar diretamente na planilha de custo de uma lavoura em Mato Grosso, Goiás, Paraná ou Bahia.
O problema não é simplesmente parar de importar
Apesar da vulnerabilidade, eliminar as importações não seria necessariamente a estratégia mais racional.
O comércio internacional permite ao Brasil comprar fertilizantes de regiões extremamente competitivas e diversificar fornecedores. O objetivo estratégico discutido pelo país é diferente: reduzir uma dependência excessiva, aumentar a produção doméstica e criar alternativas capazes de proteger parte do abastecimento.
Essa diferença é fundamental.
Uma indústria nacional construída a qualquer custo poderia resultar em fertilizantes mais caros e reduzir a competitividade do próprio produtor. O desafio é produzir mais no Brasil sem transformar segurança de abastecimento em aumento permanente do custo agrícola.
É uma equação industrial, mineral, energética e logística.
Uma nova tentativa para mudar essa história
O tema ganhou um novo capítulo em setembro de 2026.
Foi sancionada a Lei nº 15.496/2026, que instituiu o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes, o Profert. Entre os objetivos definidos na legislação estão reduzir a dependência externa, ampliar a segurança do abastecimento e diminuir custos da cadeia agropecuária.
A legislação estabelece ainda uma mudança inédita: fertilizantes comercializados no Brasil deverão incorporar gradualmente uma parcela de produtos nacionais sintéticos ou minerais.
A mistura obrigatória começa em 2% a partir de 1º de julho de 2027 e deverá chegar a 10% até janeiro de 2037. A legislação também prevê mecanismos de financiamento para modernização, reativação e ampliação de fábricas, pesquisa, inovação e infraestrutura relacionada à cadeia.
A iniciativa se soma ao Plano Nacional de Fertilizantes, que estabeleceu como horizonte de longo prazo diminuir substancialmente a dependência brasileira das importações.
O resultado, porém, não aparecerá de uma safra para outra. Minas precisam ser desenvolvidas, plantas industriais demandam bilhões em investimentos e infraestrutura precisa acompanhar a expansão.
A saída brasileira pode não estar apenas no NPK tradicional
Existe ainda outro caminho sendo construído dentro das próprias fazendas e centros de pesquisa.
Bioinsumos, fixação biológica de nitrogênio, remineralizadores, fertilizantes organominerais, aproveitamento de resíduos e tecnologias capazes de aumentar a eficiência de absorção dos nutrientes podem reduzir a quantidade de fertilizante convencional necessária para produzir cada tonelada de alimento.
A Embrapa aponta justamente a eficiência de uso dos nutrientes e o desenvolvimento de fontes adaptadas às condições tropicais como frentes importantes para diminuir a vulnerabilidade brasileira.
Isso significa que a solução provavelmente não virá de uma única mina ou fábrica.
Ela tende a combinar produção nacional maior + fornecedores internacionais diversificados + novas fontes de nutrientes + tecnologia para utilizar melhor cada quilo de fertilizante aplicado.
A força e a vulnerabilidade do agro estão na mesma lavoura
O Brasil construiu uma agricultura altamente eficiente justamente porque aprendeu a corrigir e fertilizar solos que naturalmente apresentavam limitações para sistemas intensivos de produção.
Esse avanço ajudou a transformar o Cerrado e outras regiões em grandes polos agrícolas. Mas criou uma consequência: uma agricultura gigantesca exige igualmente uma gigantesca cadeia de nutrientes.
É por isso que a pergunta “por que o Brasil importa tanto adubo?” não tem uma resposta simples.
Não é porque o país não tenha recursos minerais. Não é apenas porque faltam fábricas. E tampouco basta abrir novas minas. A dependência atual resulta de décadas de decisões industriais, disponibilidade mineral, competitividade energética, logística, investimentos e de um crescimento agrícola muito mais rápido do que o avanço da indústria nacional de fertilizantes.
O Brasil já provou que consegue produzir alimento em escala mundial. O próximo desafio é fazer com que uma parcela maior dos nutrientes que sustentam essa produção também seja produzida dentro de casa — sem tornar o adubo mais caro para quem está no campo.
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