Projeto europeu de cinco anos encontrou microplásticos em todos os campos agrícolas avaliados; partículas podem interagir com defensivos, nutrientes, microrganismos e até influenciar a resposta das plantas ao estresse hídrico
Uma contaminação praticamente invisível está chamando a atenção da ciência agrícola. Depois de cinco anos de pesquisa, cientistas do projeto europeu MINAGRIS identificaram microplásticos em todos os 227 campos agrícolas analisados em 11 países da Europa.
O resultado ganha importância porque os fragmentos não parecem permanecer simplesmente inertes no solo. Estudos ligados ao projeto indicam possíveis interações com defensivos, medicamentos veterinários, nutrientes, microrganismos e plantas.
Para o Brasil, porém, existe uma ressalva fundamental: os resultados europeus não permitem afirmar que lavouras brasileiras tenham a mesma frequência ou concentração de microplásticos. O alerta está nos mecanismos identificados e na necessidade de compreender melhor o problema em solos tropicais.
Como o plástico chega ao solo agrícola?
A agricultura utiliza diferentes materiais plásticos: filmes de cobertura, mangueiras de irrigação, embalagens, lonas, telas, bandejas de mudas e estruturas usadas na silagem, entre outros.
Quando resíduos permanecem no campo, sol, temperatura, tempo e operações mecânicas podem favorecer sua fragmentação.
Experimentos do MINAGRIS mostraram que a combinação de radiação ultravioleta e abrasão mecânica pode acelerar esse processo. Até materiais biodegradáveis produziram microfragmentos durante a degradação.
Isso significa que retirar resíduos maiores rapidamente é importante: quanto menor a partícula, mais difícil sua remoção do solo.
Microplásticos podem interagir com defensivos
Um dos estudos avaliou três pesticidas — clorpirifós, pendimetalina e piraclostrobina — em contato com diferentes microplásticos.
A eficiência de adsorção dos pesticidas nas partículas variou entre 65% e 88%. Além disso, determinados materiais biodegradáveis apresentaram coeficientes de distribuição três a oito vezes maiores que os registrados no polietileno de baixa densidade.
Isso não significa automaticamente maior contaminação dos alimentos. O resultado mostra que o plástico pode adicionar uma nova variável ao comportamento ambiental dos defensivos utilizados na lavoura.
O tipo de solo também fez diferença, reforçando por que os números obtidos na Europa não podem ser simplesmente transferidos para as condições brasileiras.
Soja e milho também foram avaliados
Outro estudo publicado em 2026 analisou microplásticos em um sistema de rotação soja-milho.
Os pesquisadores observaram alterações na dinâmica do nitrogênio e na atividade de enzimas da rizosfera. Alguns tratamentos também indicaram potencial aumento do risco de perdas de nutrientes por lixiviação.
A ressalva é importante: o experimento identifica mecanismos e riscos potenciais, mas não demonstra que lavouras comerciais brasileiras estejam perdendo produtividade por causa dos microplásticos.
Estudos encontram alterações em N, P e K
Uma meta-análise reuniu 206 estudos e 2.853 observações sobre nitrogênio, fósforo e potássio disponíveis no solo.
Os resultados mostraram que os efeitos dependem principalmente do pH, concentração e tipo de microplástico.
Em solos ácidos analisados, por exemplo, o nitrogênio disponível apresentou redução média de 31,7% nos tratamentos com microplásticos. Em solos alcalinos, o comportamento foi diferente.
Há, entretanto, uma limitação relevante: apenas cerca de 1% dos dados analisados vieram de experimentos de campo. A maior parte foi obtida em vasos ou incubação.
Microplástico e seca podem formar uma combinação ruim
Experimentos também indicaram que determinadas concentrações de microplásticos podem afetar área foliar, clorofila, eficiência fotossintética e biomassa.
Quando o déficit hídrico foi acrescentado, alguns tratamentos apresentaram efeitos mais intensos.
Esse ponto interessa diretamente à agricultura porque, no campo, as plantas normalmente enfrentam vários estresses simultaneamente — como calor, seca, compactação, doenças e alterações químicas do solo.
Existe até uma “plastisfera”
As partículas plásticas também podem ser colonizadas por comunidades de microrganismos, formando o que pesquisadores chamam de plastisfera.
Essas superfícies podem se tornar pontos de interação entre plástico, microrganismos e compostos químicos presentes no ambiente.
Isso reforça uma das conclusões mais importantes das pesquisas: o microplástico não deve ser observado apenas como um resíduo físico dentro do solo.
O que o produtor pode fazer?
Ainda não existem no Brasil níveis críticos consolidados de microplásticos no solo que permitam uma recomendação de manejo semelhante às análises de pH, fósforo ou potássio.
Por enquanto, a principal medida é prevenção.
Filmes agrícolas, tubos, mangueiras, embalagens, telas, fitilhos e lonas deterioradas devem ser recolhidos corretamente, evitando que permaneçam no campo e continuem se fragmentando.
O que a pesquisa ainda não prova
Encontrar microplásticos em todos os campos analisados não significa que todas as áreas apresentavam níveis capazes de reduzir a produtividade.
Também não significa que os alimentos produzidos nesses locais estejam contaminados ou impróprios para consumo.
E, principalmente, não revela qual é a situação atual das lavouras brasileiras.
O que cinco anos de pesquisa mostram é que essas partículas podem participar de interações químicas e biológicas importantes dentro do solo.
A descoberta dos microplásticos nos 227 campos avaliados deixa, portanto, uma mensagem relevante para a agricultura: o plástico que desaparece da superfície não necessariamente desapareceu da lavoura.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.