O agro dos bilhões: apenas 10 municípios concentram quase R$ 66 bilhões; veja quais

Levantamento do IBGE revela onde estão as lavouras mais valiosas do país, com Mato Grosso, Goiás e Bahia dominando o topo e uma nova cidade assumindo a liderança nacional.

A força do agronegócio brasileiro costuma ser medida em milhões de toneladas, recordes de exportação e tamanho das safras. Mas existe outra maneira de enxergar essa potência: olhar para os municípios onde uma parcela expressiva dessa riqueza efetivamente nasce. E os dados mais recentes mostram uma concentração impressionante em poucos pontos do mapa.

Os dez municípios brasileiros com maior valor da produção agrícola movimentaram aproximadamente R$ 65,9 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de 7,1% dos R$ 927,2 bilhões gerados pelas culturas agrícolas pesquisadas no país. Mais significativo ainda é onde esse dinheiro está concentrado: todos os integrantes do Top 10 estão em apenas três estados — Mato Grosso, Goiás e Bahia.

O retrato aparece na Pesquisa da Produção Agrícola Municipal (PAM) 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento revela não apenas quais cidades estão no topo, mas também uma transformação silenciosa na geografia econômica do campo brasileiro.

Depois de seis anos de liderança de Sorriso (MT), Sapezal (MT) assumiu a primeira posição nacional, alcançando R$ 8,59 bilhões. São Desidério (BA) aparece praticamente empatado, com R$ 8,22 bilhões, enquanto Sorriso ocupa agora a terceira posição, com R$ 8,16 bilhões.

Os 10 municípios que concentram bilhões nas lavouras brasileiras

O ranking do IBGE para 2025 ficou assim:

PosiçãoMunicípioValor da produçãoPrincipal produto
Sapezal (MT)R$ 8,59 bilhõesAlgodão
São Desidério (BA)R$ 8,22 bilhõesSoja
Sorriso (MT)R$ 8,16 bilhõesSoja
Campo Novo do Parecis (MT)R$ 7,87 bilhõesSoja
Formosa do Rio Preto (BA)R$ 5,89 bilhõesSoja
Diamantino (MT)R$ 5,82 bilhõesSoja
Rio Verde (GO)R$ 5,69 bilhõesSoja
Cristalina (GO)R$ 5,45 bilhõesSoja
Nova Mutum (MT)R$ 5,39 bilhõesSoja
10ºJataí (GO)R$ 4,84 bilhõesSoja

Os números mostram uma concentração geográfica bastante definida. Mato Grosso possui cinco representantes, Goiás aparece com três e a Bahia completa a relação com dois municípios.

Há também uma concentração produtiva: embora o algodão seja responsável por levar Sapezal ao topo, a soja é a principal cultura em nove dos dez municípios da lista, evidenciando o peso econômico da oleaginosa na formação da riqueza agrícola do interior brasileiro.

Sapezal: algodão coloca município de 32 mil habitantes no topo do Brasil

O caso de Sapezal ajuda a dimensionar o que esses municípios representam.

Com população estimada em aproximadamente 32,5 mil habitantes, a cidade mato-grossense registrou R$ 8,59 bilhões em valor da produção agrícola, crescimento nominal de 46,6% sobre 2024.

O motor dessa expansão foi o algodão.

Somente a cultura respondeu por aproximadamente R$ 5,13 bilhões, perto de 60% de toda a produção agrícola municipal. A produção alcançou cerca de 1,2 milhão de toneladas.

A soja acrescentou aproximadamente R$ 2,8 bilhões, enquanto o milho respondeu por outros R$ 656,9 milhões.

É justamente essa combinação que ajuda a explicar a posição de Sapezal. O município não é apenas grande produtor de grãos: está inserido em uma região capaz de combinar soja, milho e uma cultura de elevado valor por hectare, como o algodão.

O resultado é uma agricultura altamente capitalizada, dependente de tecnologia, máquinas, armazenagem, transporte, crédito e uma extensa rede de fornecedores.

Ou seja, o valor registrado dentro da porteira tende a produzir efeitos econômicos muito além da lavoura.

Sorriso perdeu a liderança — mas não porque sua agricultura encolheu

A queda de Sorriso para a terceira posição merece uma leitura cuidadosa.

O município passou de aproximadamente R$ 7,2 bilhões em 2024 para R$ 8,16 bilhões em 2025, crescimento nominal de 13,8%. Portanto, Sorriso produziu mais riqueza agrícola em reais e, ainda assim, perdeu duas posições.

Parte da explicação está no avanço mais acelerado de Sapezal e São Desidério. Mas existe um fator incomum: o próprio mapa de Mato Grosso mudou.

Boa Esperança do Norte foi oficialmente instalada em 1º de janeiro de 2025, formada por áreas anteriormente pertencentes a Sorriso e Nova Ubiratã.

Como consequência, a área plantada contabilizada dentro dos limites de Sorriso diminuiu 9,3%. Parte da produção que anteriormente aparecia nas estatísticas do município passou a pertencer ao novo território.

Isso produz uma situação interessante: a mudança do ranking não representa simplesmente uma perda de força agrícola da região.

Boa Esperança do Norte já estreou nas estatísticas com cerca de R$ 3 bilhões em produção agrícola, ocupando a 25ª posição nacional.

Na prática, parte da riqueza apenas passou a aparecer em outro endereço estatístico.

Goiás transforma produção em polos agroindustriais

Outro movimento importante ocorre em Goiás.

O estado colocou três municípios entre os dez maiores do Brasil: Rio Verde, Cristalina e Jataí.

Rio Verde registrou R$ 5,69 bilhões em produção agrícola, Cristalina chegou a R$ 5,45 bilhões e Jataí atingiu R$ 4,84 bilhões. Somados, os três municípios representam aproximadamente R$ 16 bilhões somente no valor das lavouras.

Mas o peso econômico dessas cidades vai além do que aparece na PAM.

Especialmente em polos como Rio Verde e Jataí, a produção de grãos se conecta a cadeias de aves, suínos, bovinos, fabricação de rações, armazenagem, processamento, logística e produção de biocombustíveis.

Essa distinção é importante porque o ranking da PAM mede o valor da produção das culturas agrícolas pesquisadas pelo IBGE — não todo o faturamento do agronegócio existente dentro de cada município.

Portanto, chamar essas cidades simplesmente de “mais ricas do agro” exige cautela: pecuária, agroindústrias, frigoríficos, usinas, serviços, comércio de insumos e outras atividades da cadeia não estão integralmente representados nesse indicador.

O ranking mostra, com precisão, onde estão as lavouras brasileiras de maior valor econômico.

Oeste da Bahia consolida outro eixo bilionário

A presença de São Desidério e Formosa do Rio Preto entre os cinco primeiros mostra que a riqueza agrícola de grande escala já não pode ser analisada apenas pelo Centro-Oeste.

São Desidério chegou a R$ 8,22 bilhões, ficando apenas R$ 370 milhões abaixo de Sapezal. Formosa do Rio Preto atingiu R$ 5,89 bilhões.

Juntas, as duas cidades do oeste baiano geraram mais de R$ 14 bilhões em valor da produção agrícola.

A região integra o Matopiba, fronteira agrícola formada por áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia que ganhou importância nas últimas décadas com a expansão principalmente de soja, milho e algodão.

A presença baiana no topo evidencia que a expansão do agro brasileiro não acontece apenas pelo aumento físico das áreas cultivadas. Infraestrutura, correção e manejo dos solos do Cerrado, genética, agricultura de precisão, irrigação em determinadas áreas e profissionalização da gestão transformaram regiões antes consideradas marginais em alguns dos territórios agrícolas mais valiosos do país.

Um país agrícola de R$ 927,2 bilhões

O pano de fundo desse ranking é igualmente relevante.

O valor da produção das culturas agrícolas brasileiras atingiu o recorde de R$ 927,2 bilhões em 2025, crescimento nominal de 18,4% sobre 2024. A safra de cereais, leguminosas e oleaginosas alcançou 345,4 milhões de toneladas, avanço de 18,2%.

Soja e milho tiveram papel decisivo.

A soja alcançou 165,3 milhões de toneladas e permaneceu como a cultura de maior valor econômico do país, chegando a aproximadamente R$ 315,2 bilhões — praticamente um terço de todo o valor agrícola brasileiro.

Já o milho atingiu 141,2 milhões de toneladas, crescimento de 23,1%, enquanto sua segunda safra chegou ao recorde de 115,4 milhões de toneladas.

O algodão herbáceo, fundamental para entender a liderança de Sapezal, alcançou 9,92 milhões de toneladas e registrou avanço de 29,5% no valor da produção.

Mato Grosso sozinho movimentou R$ 165,6 bilhões

A concentração municipal acompanha uma concentração estadual.

Mato Grosso gerou R$ 165,6 bilhões em produção agrícola em 2025, crescimento nominal de 37,1%, respondendo sozinho por 17,9% do valor nacional.

O Centro-Oeste chegou a aproximadamente R$ 288 bilhões, consolidando-se como principal região brasileira pelo indicador.

Mais do que apontar quais cidades produzem mais, esses números ajudam a explicar por que determinados municípios do interior passaram a receber investimentos pesados em armazéns, concessionárias de máquinas, revendas de insumos, transportadoras, tradings, indústrias de processamento e serviços especializados.

Onde a lavoura movimenta R$ 5 bilhões, R$ 6 bilhões ou R$ 8 bilhões por ano, surge ao redor dela uma economia que dificilmente aparece por completo no valor da produção agrícola.

Bilhões produzidos longe das grandes capitais

Talvez esse seja o aspecto mais revelador do levantamento.

Uma parcela importante da riqueza agrícola brasileira está sendo produzida longe das maiores regiões metropolitanas do país, em municípios cuja influência econômica é muito maior do que o tamanho de suas populações poderia sugerir.

Sapezal é o exemplo mais evidente, mas não o único.

São Desidério, Campo Novo do Parecis, Formosa do Rio Preto, Diamantino, Nova Mutum e outras cidades se tornaram centros de decisão econômica porque estão no coração de algumas das áreas agrícolas mais produtivas e tecnificadas do mundo.

Ao mesmo tempo, o ranking não é estático.

Preços internacionais, produtividade, câmbio, clima, abertura de novas áreas, infraestrutura e até mudanças territoriais — como mostrou o caso de Sorriso — são capazes de reorganizar rapidamente as primeiras posições.

A fotografia de 2025, porém, deixa uma mensagem clara: a geografia da riqueza agrícola brasileira está fortemente ancorada no Cerrado e em um pequeno grupo de municípios capazes de movimentar bilhões de reais a cada safra.

E por trás dos números existe algo ainda maior: cada bilhão produzido nas lavouras movimenta uma cadeia que começa antes do plantio e continua muito depois da colheita, espalhando renda, investimentos e negócios por algumas das regiões que mais transformaram a economia do interior brasileiro nas últimas décadas.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM