Município de pouco mais de 32 mil habitantes, no oeste de Mato Grosso, superou gigantes tradicionais da agricultura nacional; algodão responde por quase 60% do valor produzido e ajuda a explicar como uma jovem cidade do Cerrado chegou ao topo do ranking do IBGE
Pouco mais de três décadas separam a criação oficial de Sapezal, no oeste de Mato Grosso, de uma posição que poucos municípios brasileiros poderiam imaginar alcançar: a liderança nacional em valor da produção agrícola. Em 2025, suas lavouras movimentaram R$ 8,59 bilhões, colocando a cidade à frente de potências como São Desidério (BA), Sorriso (MT), Campo Novo do Parecis (MT) e Rio Verde (GO).
O número impressiona ainda mais quando colocado diante do tamanho da cidade. Sapezal tinha população estimada em apenas 32.514 habitantes em 2025 e ocupa uma área territorial de aproximadamente 13,6 mil km². Isso significa que um município com população comparável à de pequenas cidades brasileiras passou a comandar um ranking que mede bilhões de reais produzidos dentro das lavouras.
Mas a ascensão não aconteceu de repente. A história de Sapezal se confunde com a abertura da fronteira agrícola da Chapada dos Parecis, com a chegada de produtores do Sul do país, a transformação tecnológica dos solos do Cerrado e uma longa busca por alternativas logísticas capazes de conectar uma região distante dos portos ao mercado internacional.
E há uma particularidade importante: não foi apenas a soja que colocou Sapezal no topo. Foi, principalmente, o algodão.
De fronteira agrícola a município
A ocupação mais intensa da região começou nas décadas de 1970 e 1980, acompanhando o avanço da agricultura empresarial sobre novas áreas de Mato Grosso. Entre os pioneiros estavam principalmente produtores vindos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, atraídos pela disponibilidade de terras e pelo potencial agrícola da região.
Naquele momento, produzir era apenas parte do desafio.
As propriedades ficavam separadas por dezenas de quilômetros e muitas das primeiras estradas eram essencialmente caminhos abertos no Cerrado pelos próprios colonizadores. Distâncias entre fazendas podiam chegar a 40, 80 ou até 100 quilômetros, dificultando a consolidação de um núcleo urbano.
Foi nesse contexto que surgiu o projeto que daria origem à cidade.
Segundo o histórico registrado pelo IBGE, a formação do núcleo urbano esteve ligada a uma iniciativa de colonização do Grupo Maggi, liderada por André Antônio Maggi. O nome Sapezal veio do rio de mesmo nome, referência ao sapé, gramínea encontrada na região.
A abertura da MT-235 e do loteamento Cidezal Agrícola, em meados de 1987, ajudou a acelerar a formação urbana. Finalmente, em 19 de setembro de 1994, Sapezal tornou-se município pela Lei Estadual nº 6.534, desmembrando-se de Campo Novo do Parecis. A instalação administrativa ocorreu posteriormente.
Ou seja: a atual líder brasileira em valor da produção agrícola tem pouco mais de 30 anos de emancipação.
O problema que poderia ter impedido o crescimento
Transformar o Cerrado em lavouras produtivas era apenas uma parte da equação. Havia outro obstáculo decisivo: a distância.
Sapezal nasceu em uma região distante dos tradicionais corredores de exportação do Sul e Sudeste. Na década de 1990, transportar soja da Chapada dos Parecis até Paranaguá significava percorrer aproximadamente 2.500 quilômetros, segundo registros da época no Senado Federal.
A resposta foi procurar uma saída pelo Norte.
A combinação de rodovias com a Hidrovia Madeira-Amazonas, conectando a produção de Mato Grosso a Porto Velho e posteriormente ao sistema hidroviário amazônico, tornou-se uma peça relevante dessa estratégia.
O DNIT classifica atualmente a Hidrovia do Madeira como uma das principais vias do chamado Corredor Logístico Norte, utilizada inclusive para o escoamento de soja e milho provenientes de Mato Grosso.
Essa dimensão logística ajuda a entender Sapezal. A cidade não cresceu apenas porque tinha terra disponível. O avanço agrícola exigiu tecnologia produtiva, capital, estradas, armazenagem e construção de corredores capazes de levar volumes cada vez maiores para fora da região.
Algodão muda a escala econômica de Sapezal
Décadas depois, a diversificação das grandes lavouras ajudaria Sapezal a alcançar um patamar ainda maior.
Segundo os dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, o valor da produção agrícola do município avançou 46,6% em 2025, chegando aos R$ 8,59 bilhões.
O grande protagonista foi o algodão.
A cultura gerou aproximadamente R$ 5,13 bilhões, perto de 60% de todo o valor produzido pelas lavouras do município, com produção próxima de 1,2 milhão de toneladas.
A soja acrescentou aproximadamente R$ 2,8 bilhões, enquanto o milho respondeu por outros R$ 656,9 milhões. O valor da soja avançou 51,4% no ano e o do milho, 58,1%.
A composição ajuda a diferenciar Sapezal de várias outras potências agrícolas brasileiras.
Enquanto a soja é o principal produto de grande parte dos municípios que aparecem nas primeiras posições do ranking nacional, Sapezal tem no algodão sua principal fonte de valor agrícola. Entre os dez maiores municípios, São Desidério, Sorriso, Campo Novo do Parecis, Formosa do Rio Preto, Diamantino, Rio Verde, Cristalina, Nova Mutum e Jataí têm a soja como principal produto; Sapezal aparece com o algodão.
Por que o algodão faz tanta diferença?
O algodão ocupa uma posição particular dentro da agricultura comercial.
Além da produtividade da lavoura, seu resultado econômico envolve uma cadeia de alto valor, que vai da produção da pluma ao beneficiamento, exportação e aproveitamento do caroço e de outros coprodutos.
Por isso, uma região capaz de combinar grande escala, produtividade, tecnologia e algodão pode gerar um valor expressivo por hectare.
Em Sapezal, essa característica se soma à soja e ao milho, permitindo que as propriedades trabalhem diferentes culturas e distribuam melhor o uso de máquinas, estruturas e equipes ao longo do calendário agrícola.
É justamente essa combinação que ajuda a explicar por que uma cidade relativamente pequena consegue movimentar bilhões dentro da porteira.
R$ 8,59 bilhões para uma cidade de 32,5 mil habitantes
A dimensão econômica fica mais clara em outra comparação.
Dividindo apenas o valor bruto da produção agrícola de 2025 pela população estimada do município — comparação meramente ilustrativa, já que valor da produção não equivale a renda distribuída à população — chega-se a algo próximo de R$ 264 mil em produção agrícola por habitante.
Além disso, o PIB per capita oficial de Sapezal já alcançava R$ 221.470,66 em 2023, último dado disponibilizado pelo IBGE no perfil municipal consultado.
São indicadores diferentes, mas ambos revelam a intensidade econômica de um território pouco povoado e altamente especializado na produção agropecuária.
Essa riqueza, porém, não fica restrita às lavouras.
Uma agricultura dessa escala movimenta revendas de insumos, máquinas agrícolas, oficinas, transportadoras, armazenagem, construção civil, serviços técnicos, comércio, restaurantes, imóveis e uma extensa rede de fornecedores.
É o chamado efeito multiplicador do agro: o dinheiro nasce principalmente no campo, mas circula por praticamente toda a economia local.
Sapezal supera Sorriso — mas existe uma explicação importante
O resultado de 2025 também marcou uma mudança histórica.
Sorriso havia liderado o ranking nacional por seis anos consecutivos, mas terminou 2025 em terceiro lugar, com R$ 8,16 bilhões. São Desidério, na Bahia, ficou em segundo, com R$ 8,22 bilhões. Sapezal chegou aos R$ 8,59 bilhões.
Isso não significa que a produção de Sorriso tenha simplesmente despencado.
O valor produzido pelo município mato-grossense aumentou 13,8% nominalmente. Parte da mudança do ranking também está relacionada à instalação de Boa Esperança do Norte, novo município que incorporou áreas anteriormente contabilizadas em Sorriso e Nova Ubiratã.
Portanto, há dois movimentos acontecendo simultaneamente: uma alteração territorial que afetou a base estatística de Sorriso e um crescimento efetivamente muito forte de Sapezal.
É este segundo movimento que merece atenção.
Sapezal saiu da terceira posição em 2024 para o primeiro lugar em 2025, com expansão nominal de 46,6% no valor produzido.
O município líder está dentro do estado líder
Sapezal também é expressão de um fenômeno maior.
Mato Grosso encerrou 2025 com R$ 165,6 bilhões em valor da produção agrícola, crescimento de 37,1%, concentrando 17,9% de todo o valor produzido pelas culturas pesquisadas no Brasil.
Dos dez municípios brasileiros com maior valor agrícola, cinco são mato-grossenses: Sapezal, Sorriso, Campo Novo do Parecis, Diamantino e Nova Mutum.
No país inteiro, a produção agrícola atingiu o recorde de R$ 927,2 bilhões em 2025, avanço nominal de 18,4%. A safra brasileira de grãos chegou a 345,4 milhões de toneladas, favorecida pela recuperação de produtividade em importantes culturas.
Sapezal, portanto, não cresceu isoladamente. Sua liderança aparece dentro de um ciclo de forte desempenho da agricultura brasileira e, principalmente, de Mato Grosso.
Uma cidade construída ao redor da produção
Há algo simbólico no novo ranking.
Sapezal praticamente nasceu junto com a transformação agrícola da Chapada dos Parecis. O município foi estruturado enquanto produtores aprendiam a manejar solos do Cerrado, novas cultivares eram incorporadas, a mecanização avançava e corredores logísticos eram construídos para reduzir a distância entre o interior de Mato Grosso e os compradores internacionais.
Hoje, soja, milho e principalmente algodão transformaram aquela antiga fronteira agrícola em um dos territórios rurais economicamente mais intensivos do país.
O resultado de R$ 8,59 bilhões não representa faturamento líquido dos produtores nem todo o PIB municipal — o indicador do IBGE mede o valor da produção agrícola, calculado a partir das quantidades produzidas e dos preços médios recebidos. Essa distinção é importante para não transformar o ranking em algo que ele não é.
Ainda assim, a liderança mostra a dimensão alcançada pelo município.
Em pouco mais de três décadas, Sapezal deixou de ser uma jovem cidade formada na fronteira agrícola para ocupar o primeiro lugar entre os municípios brasileiros em valor da produção das lavouras.
E o mais interessante talvez seja justamente isso: enquanto durante anos a imagem das maiores cidades agrícolas brasileiras esteve diretamente associada à soja, a nova líder do agro chegou ao topo tendo o algodão como sua grande força econômica.entrada em uma faixa do Brasil onde escala, tecnologia, soja, milho e algodão transformaram municípios do interior em economias agrícolas bilionárias.
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