Autorização permite que a Vivo avance nos testes de conexão direta entre celulares e satélites da Starlink, sem antena externa; novidade pode ter impacto especialmente relevante em fazendas, estradas rurais e regiões onde o sinal móvel ainda é limitado
Uma mudança regulatória pode abrir uma nova fronteira para a conectividade no campo brasileiro. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) prorrogou até 22 de abril de 2029 a autorização experimental da Telefônica Brasil, dona da Vivo, para operar uma tecnologia capaz de conectar celulares diretamente aos satélites, sem necessidade da tradicional antena da Starlink instalada na propriedade. A Starlink, da SpaceX, é atualmente a parceira escolhida pela operadora para os testes.
Para o agronegócio, o avanço merece atenção porque ataca justamente um dos gargalos históricos da digitalização rural: há internet em um número crescente de domicílios rurais, mas a cobertura da rede móvel ainda é muito inferior à encontrada nas cidades. Em 2025, segundo o IBGE, apenas 68% dos domicílios rurais estavam em áreas onde a rede móvel celular funcionava para internet ou telefonia, contra 96,1% no meio urbano.
Na prática, a possibilidade de um telefone comum recorrer ao satélite quando estiver fora do alcance das torres terrestres pode criar uma espécie de rede complementar para quem trabalha longe dos centros urbanos.
Celular passa a conversar diretamente com o satélite
A tecnologia é conhecida como Direct-to-Device (D2D). Em vez de depender exclusivamente de uma torre de telefonia próxima, o aparelho pode estabelecer comunicação com satélites de baixa órbita quando não houver uma rede móvel terrestre disponível.
Isso não significa, pelo menos neste estágio, substituir o 4G ou o 5G convencional.
A proposta é funcionar como extensão da cobertura móvel, especialmente em regiões remotas ou onde construir infraestrutura terrestre é difícil. Inicialmente, os serviços devem se concentrar em aplicações de menor tráfego, como mensagens, comunicações de emergência e conexões básicas de dados, conforme detalha o material que embasou esta reportagem.
E é justamente nesse ponto que a novidade encontra o agro.
O que isso pode representar dentro de uma fazenda?
Imagine um produtor, funcionário ou técnico trabalhando a quilômetros da sede da propriedade, em uma região onde o celular normalmente fica sem sinal.
Se o D2D avançar comercialmente, o próprio aparelho poderá recorrer à rede de satélites quando perder a cobertura terrestre, dependendo da disponibilidade do serviço, do aparelho e das condições técnicas estabelecidas pelas operadoras.
No campo, isso abre possibilidades importantes para comunicação entre equipes, mensagens de emergência, localização e troca básica de informações em áreas remotas.
Há ainda uma diferença importante em relação à internet rural tradicional via Starlink: a proposta não exige que o usuário esteja próximo de uma antena instalada na fazenda para realizar a conexão D2D.
Isso torna a tecnologia particularmente interessante para uma atividade caracterizada pela mobilidade. Pecuaristas percorrem grandes áreas de pastagem; equipes trabalham em máquinas agrícolas a quilômetros da sede; veterinários e técnicos circulam entre propriedades; caminhões trafegam por estradas vicinais e trabalhadores frequentemente chegam a pontos sem cobertura convencional.
Conectividade virou infraestrutura produtiva no agro
O Ministério da Agricultura classifica a conectividade rural como infraestrutura essencial para a agricultura digital, associando sua expansão ao acesso a tecnologias capazes de elevar produtividade, reduzir custos e otimizar o tempo das operações.
Não é difícil entender o motivo.
Máquinas conectadas, agricultura de precisão, telemetria, estações meteorológicas, gestão de rebanhos, aplicativos de manejo, rastreabilidade e comunicação entre equipes dependem, em diferentes níveis, de infraestrutura digital.
O Brasil avançou rapidamente nesse processo. O IBGE mostra que 88% dos domicílios rurais utilizavam internet em 2025, reduzindo consideravelmente a distância em relação aos 95,8% registrados nas cidades. O problema aparece quando se observa especificamente a disponibilidade da rede celular: apenas 68% dos domicílios rurais tinham serviço móvel funcionando para internet ou telefonia.
Ou seja: ter algum tipo de internet na residência rural não significa necessariamente possuir sinal móvel espalhado pela propriedade ou pelas estradas da região.
É justamente essa lacuna que tecnologias de comunicação direta por satélite tentam reduzir.
Não significa internet rápida da Starlink em qualquer celular
Existe, entretanto, uma diferença fundamental.
A autorização não significa que qualquer brasileiro já possa retirar a antena da Starlink e navegar no celular com a mesma velocidade de uma conexão residencial via satélite.
O projeto permanece dentro de um sandbox regulatório, ambiente experimental criado pela Anatel para testar novas tecnologias antes de estabelecer regras permanentes. A Vivo poderá prestar serviços baseados em D2D durante o período experimental desde que cumpra as condições determinadas pela agência.
A autorização é válida nacionalmente e, segundo o documento-base, os testes utilizam frequências do espectro da própria Vivo. A operadora também não fica obrigada a trabalhar exclusivamente com a Starlink durante todo o período: poderá adicionar ou substituir o provedor de satélites, desde que comunique a alteração à Anatel e respeite as condições do projeto.
Portanto, ainda existem etapas técnicas, comerciais e regulatórias antes de uma eventual adoção em grande escala.
Do curral à lavoura, o celular pode ganhar outra função
O potencial para o agronegócio está menos em substituir as atuais redes rurais e mais em preencher os espaços onde elas não chegam.
Uma fazenda continuará podendo utilizar fibra óptica, rádio, 4G, 5G ou internet convencional via satélite na sede e nas estruturas produtivas. O D2D acrescentaria outra camada: conectividade móvel para pessoas que estejam fora dessas áreas cobertas.
Isso pode ser especialmente relevante para propriedades extensas de pecuária, fazendas em regiões isoladas, equipes de colheita, assistência técnica, transporte de animais e grãos e trabalhadores que percorrem longas distâncias dentro das propriedades.
É uma evolução que acompanha uma transformação maior do setor. Quanto mais digital se torna a produção agropecuária, mais a disponibilidade de sinal deixa de ser apenas uma comodidade e passa a integrar a própria infraestrutura produtiva.
A autorização até 2029 não significa que todos esses usos estarão disponíveis imediatamente. Mas permite que uma tecnologia até pouco tempo restrita a projetos experimentais avance no Brasil — e o campo está entre os ambientes onde uma conexão capaz de alcançar o celular fora das redes terrestres pode fazer maior diferença.
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