Arroba do boi gordo pode bater R$ 400? O que dizem Scot, Safras e Agrifatto

Mesmo após a pressão registrada no fim de julho, consultorias do setor avaliam que os fundamentos seguem favoráveis para a pecuária de corte e projetam valorização da arroba nos próximos meses; há quem veja espaço até para o mercado testar os R$ 400

Depois de um fim de julho marcado por pressão sobre os preços do boi gordo, as principais consultorias do mercado voltaram a reforçar uma mensagem que interessa diretamente ao pecuarista: o segundo semestre de 2026 ainda deve ser de recuperação para a arroba. Embora existam diferenças nas projeções sobre até onde os preços podem chegar, o consenso é que a combinação entre oferta mais restrita, exportações aquecidas e melhora gradual do consumo interno tende a favorecer novas altas ao longo dos próximos meses.

A pressão observada no mercado físico nas últimas semanas decorre de fatores conjunturais. O principal deles é o esgotamento praticamente total da cota chinesa de importação de carne bovina brasileira para 2026, o que reduziu temporariamente o ritmo das compras do maior destino da proteína nacional e deixou os frigoríficos mais cautelosos nas negociações.

Ao mesmo tempo, o período de seca compromete a qualidade das pastagens em diversas regiões produtoras, enquanto parte dos confinamentos precisa manter o giro dos animais, levando muitos pecuaristas a anteciparem vendas mesmo diante de preços considerados pouco atrativos. Esse cenário aumenta a pressão sobre o mercado físico justamente em uma época em que muitos produtores prefeririam segurar a oferta.

Apesar desse movimento, o mercado futuro continua transmitindo uma sinalização bastante diferente. Os contratos negociados na B3 seguem operando com ágio em relação ao mercado disponível, indicando que investidores e agentes da cadeia produtiva continuam apostando em uma valorização da arroba no restante do ano.

Esse comportamento reforça a percepção de que a pressão atual pode ser passageira e que os fundamentos estruturais permanecem favoráveis para quem conseguir administrar o momento de venda do rebanho.

O que dizem as principais consultorias

Entre os analistas, a avaliação predominante é de que a segunda metade do ano deverá ser marcada por menor oferta de animais terminados e demanda mais aquecida, especialmente no último trimestre.

O cenário mais otimista é defendido por Felipe Fabbri, coordenador da equipe de Inteligência de Mercado da Scot Consultoria. Segundo o especialista, a combinação entre oferta restrita, retomada das compras chinesas já voltadas para a nova cota de exportação de 2027, forte demanda dos Estados Unidos e maior circulação de renda na economia brasileira pode fazer a arroba superar a máxima registrada neste ano e, em um cenário bastante favorável, caminhar em direção aos R$ 400.

Na avaliação do analista, caso a indústria consiga manter margens para remunerar melhor o produtor sem comprometer o consumo e as exportações continuem aquecidas, esse patamar deixa de ser apenas uma hipótese distante.

Outro fator considerado positivo é o calendário econômico do segundo semestre. Historicamente, o último trimestre concentra maior geração de empregos temporários, pagamento do 13º salário e aumento do consumo de proteínas durante as festas de fim de ano. Em 2026, soma-se ainda a expectativa de maior consumo internacional impulsionado pela realização da Copa do Mundo na América do Norte, que pode elevar a demanda por carne bovina.

arroba do boi gordo - confinamento - gado nelore confinado
Foto: Fazenda Dona Amélia

Nem todos acreditam nos R$ 400

Embora reconheça um cenário construtivo para a arroba, Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, considera que a marca dos R$ 400 representa uma projeção bastante otimista.

Segundo ele, esse nível de preços dependeria de fatores adicionais, como uma desvalorização mais intensa do real frente ao dólar e um mercado interno ainda mais aquecido do que o observado atualmente. Além disso, o especialista ressalta que eventuais mudanças nas políticas de importação da China continuam sendo um dos principais riscos para o mercado brasileiro.

Mesmo assim, Iglesias mantém expectativa positiva para o segundo semestre, sustentada principalmente pela redução da oferta de animais prontos para abate e pela continuidade das exportações em níveis elevados.

A Agrifatto também compartilha dessa visão. A consultoria observa que o mercado vive um momento de disputa entre pecuaristas e frigoríficos: enquanto os produtores resistem em vender grandes volumes e fracionam a comercialização dos lotes, a indústria tenta aproveitar a demanda doméstica ainda enfraquecida para pressionar as cotações.

Apesar desse ambiente de negociação mais difícil no curto prazo, a empresa destaca que os contratos futuros seguem precificando valorização da arroba, reforçando a confiança dos agentes do mercado na recuperação dos preços ao longo do semestre.

O que esperar daqui para frente?

Embora existam divergências sobre o teto que a arroba poderá alcançar até o fim do ano, as principais consultorias convergem em um ponto: a pressão observada no encerramento de julho tende a ser temporária.

A expectativa é de que a menor disponibilidade de animais terminados, aliada ao bom desempenho das exportações e ao aumento sazonal do consumo no último trimestre, ofereça sustentação para novas altas no mercado físico.

Para o pecuarista, a recomendação é acompanhar atentamente a evolução dos contratos futuros e avaliar estratégias de comercialização que permitam capturar uma eventual recuperação dos preços, seja por meio da retenção dos animais, quando possível, ou da utilização de instrumentos de proteção na B3.

Se o cenário projetado pelas consultorias se confirmar, o segundo semestre poderá marcar uma nova fase de valorização da arroba do boi gordo, beneficiando produtores que conseguirem administrar a oferta em um momento de fundamentos considerados mais favoráveis do que aqueles observados nas últimas semanas.

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