Cânhamo pode virar nova cultura bilionária no Brasil, mas regulação ainda trava pesquisas

Cultura conecta agricultura, indústria têxtil, construção civil, alimentos e bioeconomia, mas o avanço comercial depende de pesquisas, cultivares adaptadas e regras mais amplas

O cânhamo no Brasil começa a ganhar espaço nas discussões sobre diversificação agrícola e bioeconomia. A planta pode fornecer matéria-prima para diferentes segmentos industriais e movimentar bilhões de reais, mas o avanço da cultura ainda depende de pesquisas agronômicas, segurança jurídica e regras específicas para atividades que vão além do mercado medicinal.

Representantes da Embrapa, de órgãos públicos, de universidades e da iniciativa privada vêm avaliando como o país poderia desenvolver uma cadeia produtiva baseada em variedades de Cannabis sativa L. com baixo teor de tetrahidrocanabinol, o THC.

O principal cuidado, neste momento, é não confundir o avanço do debate regulatório com uma liberação geral. O produtor rural ainda não pode iniciar o cultivo comercial de cânhamo para fibras, alimentos ou materiais de construção sem autorização específica.

Cânhamo no Brasil pode movimentar bilhões

Estudo do Instituto Escolhas, citado durante debates técnicos realizados pela Embrapa, estima que a cadeia brasileira do cânhamo poderia movimentar R$ 5,76 bilhões até 2030, caso o país estabeleça uma regulamentação capaz de viabilizar a atividade.

A projeção considera a possibilidade de implantação de aproximadamente 64,1 mil hectares, além da criação de mais de 14 mil postos de trabalho ligados ao plantio, processamento, pesquisa e fabricação de produtos derivados.

Os valores representam um cenário de desenvolvimento, e não uma receita já garantida. A concretização desse potencial dependerá da formação de um mercado consumidor, da disponibilidade de sementes adequadas e da instalação de unidades industriais capazes de beneficiar a matéria-prima.

No exterior, o setor também está em expansão. Estimativas reunidas em estudos técnicos da Embrapa indicam que o mercado mundial movimentou entre US$ 5 bilhões e US$ 7 bilhões em 2023. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento já apontou que a atividade poderia alcançar US$ 18,6 bilhões em 2027.

Planta abastece diferentes setores industriais

Um dos principais diferenciais econômicos do cânhamo está no aproveitamento de praticamente toda a planta.

As fibras retiradas do caule podem ser utilizadas na fabricação de tecidos, papel, embalagens, cordas, componentes automotivos e materiais isolantes. A parte lenhosa encontrada no interior do caule pode servir de base para substratos agrícolas, camas para animais e produtos empregados na construção civil.

Entre esses produtos está o chamado hempcrete, mistura formada por partículas de cânhamo e ligantes minerais. O material vem sendo estudado como alternativa para paredes e sistemas de isolamento térmico.

As sementes também possuem valor comercial. Elas podem originar óleo, farinha, proteína vegetal e ingredientes destinados às indústrias alimentícia e cosmética.

Já determinadas partes da planta concentram compostos utilizados em pesquisas farmacêuticas. Resíduos agrícolas ainda podem ser destinados à produção de biomassa, biocarvão e materiais biodegradáveis.

Essa variedade de aplicações conecta o campo a cadeias industriais que normalmente operam de forma separada, criando possibilidades de agregação de valor além da venda da matéria-prima bruta.

Cultivo comercial amplo ainda não está liberado

A regulamentação brasileira avançou principalmente nas áreas medicinal, farmacêutica e científica.

Em decisão tomada em 2024, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a possibilidade jurídica do cultivo de variedades com concentração inferior a 0,3% de THC para finalidades relacionadas à saúde. O entendimento, porém, não estabeleceu uma autorização irrestrita para qualquer aplicação industrial.

Posteriormente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou normas voltadas à produção medicinal e à realização de pesquisas. As regras exigem autorização prévia, rastreabilidade, controle de acesso, inspeções e medidas de segurança.

Essas normas também não eliminam outras obrigações. Projetos podem depender de autorizações agrícolas, ambientais e municipais, além de procedimentos envolvendo importação ou utilização de sementes.

Na prática, a existência de regras para pesquisa não significa que agricultores estejam autorizados a plantar cânhamo comercialmente por iniciativa própria.

Para que a cultura seja explorada de forma mais ampla, o país ainda precisa definir critérios destinados à produção de fibras, grãos, alimentos, cosméticos, biomateriais e outros derivados.

Canva Pro

Limite de THC desafia pesquisas com cânhamo no Brasil

O limite de 0,3% de THC é um dos principais pontos do debate regulatório.

Essa concentração é utilizada para diferenciar variedades industriais de plantas com maior potencial psicoativo. No entanto, pesquisadores alertam que o teor encontrado na lavoura não depende somente da genética.

Temperatura, luminosidade, disponibilidade de água, solo, época de plantio e duração do ciclo podem interferir na composição química da planta. Uma cultivar que permanece dentro do limite em determinada região pode apresentar comportamento diferente quando submetida a outro ambiente.

Essa variação representa um risco para programas de melhoramento genético. Caso uma área experimental ultrapasse o índice permitido, mesmo sem intenção de produzir plantas psicoativas, o material pode ficar sujeito a restrições ou descarte.

Por isso, especialistas defendem a criação de protocolos claros para coleta de amostras, análise laboratorial e tratamento de cultivos que apresentem variações ocasionais.

Também será necessário definir quais partes da planta devem ser analisadas e em qual estágio de desenvolvimento o teste deve ser realizado. Sem padronização, produtores, empresas e pesquisadores podem receber resultados diferentes para uma mesma lavoura.

Pesquisa precisa adaptar a cultura ao campo brasileiro

O Brasil ainda não possui um pacote agronômico consolidado para o cânhamo.

Antes de recomendar a cultura aos agricultores, pesquisadores precisam avaliar quais variedades suportam as condições de cada região, qual é a melhor época de semeadura e como fatores climáticos afetam a produtividade.

Também devem ser estudados o espaçamento entre plantas, a necessidade de irrigação, o controle de pragas, o manejo de plantas daninhas e os métodos de colheita.

Cada finalidade exige características específicas. Cultivos destinados à produção de fibras tendem a utilizar maior densidade de plantas, favorecendo a formação de caules longos. Sistemas voltados para sementes ou compostos farmacêuticos demandam outros arranjos de plantio.

A Embrapa estruturou uma agenda de pesquisa envolvendo melhoramento genético, manejo agrícola, pós-colheita e análise de políticas públicas. Parte desses estudos deverá verificar se materiais desenvolvidos em países de clima temperado conseguem manter produtividade e estabilidade química nas condições tropicais.

Outro desafio está depois da porteira. A fibra precisa passar por processos de separação e beneficiamento, enquanto sementes e óleos exigem estruturas específicas de armazenamento e processamento.

Sem compradores próximos ou unidades industriais, o custo de transporte pode inviabilizar a produção, mesmo quando a lavoura apresenta bom desempenho.

Potencial depende de regras e mercado organizado

O cânhamo reúne características capazes de transformá-lo em uma cultura relevante para o agronegócio brasileiro, especialmente pela possibilidade de integração com setores de maior valor agregado.

Entretanto, a implantação da cadeia não depende apenas da autorização para plantar. Será preciso estabelecer regras para sementes, fiscalização, rastreabilidade, transporte, beneficiamento e comercialização.

Também será necessário garantir contratos transparentes e demanda industrial antes da expansão das áreas cultivadas. Sem planejamento, produtores podem investir em uma cultura ainda sem compradores ou infraestrutura suficiente.

O cenário atual, portanto, deve ser entendido como uma fase de construção científica e regulatória. O potencial bilionário existe, mas sua transformação em renda no campo dependerá de pesquisa adaptada, segurança jurídica e organização de toda a cadeia produtiva.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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