Cavalos de corrida ficam 90 dias sem ferradura e resultado chama atenção de pesquisadores

Estudo com Puro-Sangue Inglês mantidos em treinamento ativo identificou melhora significativa no ângulo dos talões e reacende discussão sobre manejo dos cascos, ferrageamento e prevenção de lesões em animais atletas.

Retirar as ferraduras de cavalos de corrida durante três meses pode parecer uma decisão incompatível com a rotina de animais submetidos a treinamento de alta intensidade. Um novo estudo, porém, mostra que 90 dias sem ferraduras foram suficientes para provocar mudanças mensuráveis e potencialmente favoráveis na conformação dos cascos de Puro-Sangue Inglês mantidos em atividade.

A pesquisa, publicada em outubro de 2026 na revista científica Frontiers in Veterinary Science, acompanhou 36 cavalos de corrida, dos quais 23 permaneceram sem ferraduras durante o período experimental e 13 continuaram ferrados. O resultado mais expressivo apareceu na região dos talões: entre os animais descalços, o ângulo médio do talão passou de 29,97° para 34,62° ao longo de 90 dias.

Mais do que uma curiosidade sobre cavalos “descalços”, o trabalho toca em um dos pontos mais importantes da medicina esportiva equina: a relação entre formato do casco, distribuição das forças, claudicação, lesões musculoesqueléticas e longevidade esportiva.

O que os pesquisadores fizeram

Os pesquisadores dividiram os 36 animais em dois grupos. Vinte e três tiveram as ferraduras retiradas, enquanto os outros 13 permaneceram ferrados com ferraduras de aço durante os ciclos de casqueamento.

Todos continuaram em treinamento utilizando diferentes superfícies, incluindo pista de grama e piso sintético, além de caminhadores e esteiras.

Existe, entretanto, uma distinção importante: os cavalos não participaram de corridas durante o período do estudo. Portanto, o trabalho não demonstra que competir descalço seja melhor ou mais seguro. O que ele avaliou foi o comportamento morfológico dos cascos de cavalos de corrida enquanto eles continuavam sua preparação física.

A cada ciclo de manejo, aproximadamente a cada 30 dias, os cascos eram fotografados antes e depois do casqueamento. As imagens foram analisadas por fotogrametria, permitindo acompanhar alterações no ângulo da parede dorsal, nos talões e em outras medidas da estrutura do casco.

O número que mais chamou atenção

No início do experimento, o grupo sem ferraduras apresentava ângulo médio dos talões de 29,97°. Ao final dos 90 dias, esse valor havia subido para 34,62°.

Na comparação individual entre o início e o fim do estudo, os cavalos descalços tiveram aumento médio de 4,64° no ângulo do talão, enquanto os animais ferrados apresentaram alteração de apenas 0,15°.

A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa.

Ao mesmo tempo, o ângulo da parede dorsal do casco permaneceu praticamente estável nos animais sem ferraduras, passando de 51,22° para 51,31°.

Outro indicador importante foi a diferença entre o ângulo da parede dorsal e o ângulo dos talões. Essa distância caiu de aproximadamente 21,25° para 16,69° entre os cavalos que permaneceram sem ferraduras.

Na prática, isso significa que a parte posterior do casco apresentou uma mudança de conformação sem que fosse necessário alterar de maneira relevante o ângulo frontal.

Por que o talão importa tanto

Para quem observa um cavalo parado, alguns graus de diferença podem parecer pouco. Biomecanicamente, entretanto, alterações na região posterior do casco podem modificar a forma como o membro recebe e dissipa as forças produzidas durante a locomoção.

Os próprios autores destacam que talões baixos ou deslocados para frente — conhecidos como underrun heels — e desequilíbrios entre a parede dorsal e a região posterior do casco vêm sendo associados a problemas musculoesqueléticos em cavalos de corrida.

O casco não é uma estrutura rígida e imóvel. Ele responde continuamente à carga, ao crescimento, ao desgaste, ao casqueamento, à ferradura e ao contato com diferentes superfícies.

Em um cavalo de corrida, essa interação torna-se ainda mais relevante porque o animal enfrenta forças muito superiores às observadas durante uma simples caminhada ou trote recreativo.

É justamente nesse ponto que os pesquisadores levantam uma hipótese importante.

Contato do casco com o solo pode ter papel maior do que se imaginava

Segundo a interpretação apresentada no estudo, o aumento do contato da região posterior do casco com o solo pode estimular estruturas como ranilha e coxim digital, contribuindo para a remodelação da região.

Sem a ferradura, essas estruturas passam a participar de maneira diferente da interação entre o casco e a superfície.

Os pesquisadores consideram que esse estímulo mecânico pode explicar, pelo menos parcialmente, a melhora encontrada nos talões.

Isso não significa que a ferradura seja prejudicial por definição.

O resultado sugere algo mais complexo: o casco responde ao ambiente mecânico ao qual é submetido, e períodos estrategicamente planejados sem ferradura podem se transformar em mais uma ferramenta dentro do manejo de determinados cavalos.

Casqueamento também produziu efeito imediato

Outro resultado relevante apareceu independentemente da utilização ou não das ferraduras.

O casqueamento realizado durante o experimento foi capaz de modificar imediatamente alguns dos ângulos avaliados nos dois grupos.

Entretanto, existe uma diferença importante.

Enquanto os cavalos descalços mantiveram melhoria do ângulo dos talões ao longo dos 90 dias, o grupo ferrado não apresentou a mesma evolução longitudinal.

Para os autores, isso pode indicar que parte da correção realizada durante o casqueamento vai sendo perdida ao longo do intervalo seguinte de ferrageamento.

A pesquisa levanta, assim, outra discussão prática: ciclos menores de casqueamento ou ferrageamento podem ser necessários em determinados cavalos de corrida para evitar deterioração progressiva do equilíbrio do casco.

Essa interpretação pode ser particularmente relevante em centros de treinamento onde calendários tradicionais são seguidos de maneira quase automática, independentemente da velocidade de crescimento ou das características individuais do casco.

Estudo brasileiro ajuda a dimensionar o problema

Os resultados ganham importância adicional quando comparados com outra pesquisa publicada em 2026, desta vez envolvendo cavalos no Brasil.

Pesquisadores ligados à Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade de São Paulo e ao setor equino avaliaram 59 Puro-Sangue Inglês de 3 a 4 anos mantidos no Jockey Club de São Paulo.

O diagnóstico radiográfico encontrou números expressivos.

Talões baixos foram identificados em 85% dos animais e underrun heels em 97%. Além disso, 87% apresentavam baixo ângulo palmar e 56% ângulo palmar negativo.

Pelas avaliações radiográficas utilizadas pelos pesquisadores, 100% dos cavalos apresentavam alteração do eixo casco-quartela para trás, enquanto a avaliação apenas por fotografias identificava o problema em parcela consideravelmente menor dos animais.

Os autores brasileiros classificaram a prevalência dessas alterações como preocupante e defenderam aprimoramento das práticas de casqueamento e ferrageamento voltadas à prevenção de lesões e à longevidade esportiva.

A proximidade entre as duas pesquisas é interessante: uma identifica alta frequência de alterações na região posterior dos cascos de cavalos de corrida brasileiros, enquanto a outra demonstra que modificar a interação casco-solo durante 90 dias foi capaz de mudar justamente essa região em animais em treinamento.

Isso não permite concluir que retirar ferraduras resolveria os problemas encontrados no Brasil, mas cria uma linha de investigação particularmente relevante para veterinários, ferradores, treinadores e proprietários.

Ferradura não virou vilã

Uma interpretação simplista dos resultados seria concluir que cavalos deveriam abandonar as ferraduras.

O próprio trabalho científico não sustenta essa afirmação.

Os autores deixam claro que o manejo sem ferraduras não é adequado para todos os animais.

Quando o desgaste do casco supera seu crescimento ou quando a retirada da proteção provoca desconforto, perda de desempenho ou comprometimento da locomoção, algum tipo de proteção pode voltar a ser necessário.

Superfície de treinamento, qualidade do estojo córneo, genética, alimentação, umidade, intensidade de exercício, conformação do membro e histórico de lesões também interferem diretamente nessa decisão.

Portanto, o achado mais relevante não está em uma disputa entre “ferrado” e “descalço”.

Está na possibilidade de abandonar protocolos padronizados e passar a trabalhar com manejo individualizado do casco baseado em biomecânica, mensuração objetiva e acompanhamento frequente.

Um período sem ferraduras pode entrar no planejamento?

É exatamente essa possibilidade que o trabalho coloca em discussão.

Para determinados cavalos, os pesquisadores consideram que períodos estratégicos sem ferradura podem representar uma ferramenta não invasiva para melhorar a morfologia dos cascos, especialmente na presença de determinadas alterações dos talões.

Isso poderia ocorrer, por exemplo, em fases específicas do treinamento ou em períodos nos quais o cavalo não esteja próximo de competir.

A hipótese, contudo, ainda precisa ser investigada em populações maiores, diferentes centros de treinamento, diversos tipos de piso e protocolos distintos.

O estudo acompanhou apenas 36 cavalos, com grupo-controle de 13 animais, e os próprios pesquisadores reconhecem que uma amostra maior seria desejável. Além disso, a divisão dos animais estava relacionada às decisões de treinamento da própria estrutura onde a pesquisa foi realizada, e não a uma randomização experimental clássica.

Por isso, os resultados devem ser encarados como uma evidência importante, e não como uma receita universal.

Casco pode continuar mudando até os cinco anos

O trabalho encontrou ainda outro resultado interessante.

Foi observada uma correlação entre idade e redução do ângulo da parede dorsal do casco. Os pesquisadores concluíram que essa modificação pode continuar ocorrendo até pelo menos os cinco anos de idade, período importante da carreira de muitos Puro-Sangue Inglês.

Isso reforça a ideia de que o casco de um jovem atleta não deve ser interpretado como uma estrutura completamente consolidada.

Ele continua respondendo ao crescimento, à carga e ao manejo justamente durante alguns dos anos mais intensos da carreira esportiva.

Para o treinador, proprietário ou veterinário, significa que avaliações periódicas podem ser mais úteis do que simplesmente tentar manter durante anos um determinado padrão visual considerado ideal.

A principal mudança pode ser de conceito

Talvez o aspecto mais importante do estudo não seja provar que um cavalo consegue permanecer 90 dias sem ferradura.

É mostrar que o casco respondeu de forma mensurável quando sua relação com o solo foi modificada.

Historicamente, boa parte das correções realizadas nos cascos está concentrada no que pode ser retirado, aparado ou acrescentado externamente. O novo trabalho direciona atenção também para o funcionamento da região posterior do casco e para os estímulos recebidos durante cada passada.

Em animais cujo desempenho depende de frações de segundo, a discussão vai muito além da estética.

Um casco equilibrado interfere na maneira como forças são transferidas pelo membro. Alterações capazes de contribuir para claudicação ou aposentadoria precoce significam perda esportiva, genética e financeira.

Por isso, os 90 dias sem ferraduras observados pelos pesquisadores não encerram a discussão sobre o ferrageamento dos cavalos de corrida.

Fazem justamente o contrário.

Abrem espaço para uma abordagem em que ferradura, casqueamento, intervalo entre manejos, piso e períodos sem proteção possam ser utilizados como ferramentas diferentes dentro de um mesmo objetivo: preservar a funcionalidade do casco e prolongar a vida esportiva do cavalo.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
RESUMIR COM:
LEIA TAMBÉM
NEWSLETTER COMPRERURAL

Receba as nossas
principais notícias

Conteúdo sobre o agronegócio, direto no seu e-mail.

🔒 Não enviamos spam. Você pode cancelar quando quiser.