Cavalos livres surpreendem cientistas em estudo sobre saúde intestinal

Pesquisa com 176 animais encontrou menor diversidade bacteriana nos cavalos ferais do que nos domésticos; pasto, idade e convivência também apareceram associados à composição da microbiota

A vida livre costuma ser associada a uma alimentação mais variada e a um intestino mais diverso. Uma pesquisa com cavalos encontrou um resultado diferente: os animais ferais avaliados tinham menor diversidade de bactérias intestinais do que os domésticos. A descoberta ajuda a entender como o ambiente e o manejo se relacionam com a microbiota equina, mas não indica que um dos grupos seja mais saudável.

Publicado em 25 de setembro na revista Scientific Reports, o estudo analisou amostras fecais de 62 cavalos ferais do Theodore Roosevelt National Park, nos Estados Unidos, e de 114 cavalos domésticos mantidos em propriedades de 12 estados americanos. Ao todo, foram comparados 176 animais em condições distintas de alimentação e convivência.

A diversidade trouxe a surpresa

Os pesquisadores identificaram diferenças na composição das comunidades bacterianas dos dois grupos. Embora apresentassem menor diversidade, os cavalos ferais compartilhavam um núcleo de 17 grupos bacterianos, entre eles microrganismos associados à degradação da celulose e à fermentação das fibras.

Esse resultado não permite concluir que o intestino dos domésticos funcione melhor. O trabalho comparou comunidades microbianas; não testou qual grupo tinha melhor saúde digestiva, desempenho ou menor risco de cólica. Também não demonstrou que uma bactéria encontrada em maior quantidade seja, isoladamente, benéfica ou prejudicial.

Pasto e convivência apareceram nos resultados

Entre os cavalos domésticos, propriedade de origem, acesso à pastagem, raça e idade estiveram associados a diferenças na microbiota. Os efeitos identificados foram modestos. Assim, o estudo aponta fatores relevantes para novas pesquisas, mas não estabelece uma quantidade ideal de horas no pasto nem uma dieta capaz de produzir determinada comunidade bacteriana.

Nos cavalos ferais, os indivíduos de um mesmo grupo social apresentaram microbiotas mais semelhantes. Os pesquisadores não encontraram correlação entre essa semelhança e o grau de parentesco genético na população estudada. O ambiente compartilhado e a convivência surgem como possíveis explicações, sem que a pesquisa determine o peso de cada fator. Os jovens também apresentaram microbiotas diferentes das observadas nos adultos.

O que isso muda para o criador

O cavalo depende da fermentação de fibras no intestino grosso para aproveitar parte da energia dos alimentos. Por isso, alimentação e ambiente merecem atenção no manejo diário. A pesquisa amplia o conhecimento sobre essa relação, mas não avaliou uma ração, um suplemento ou um probiótico e não oferece uma receita para reproduzir nos domésticos a microbiota dos ferais.

Há ainda um limite para aplicar os resultados diretamente ao Brasil: os animais estudados viviam nos Estados Unidos, sob condições de clima, pastagens e manejo que podem diferir das encontradas nos criatórios brasileiros. O achado mais útil, por enquanto, é reconhecer que não existe uma única microbiota intestinal igual para todos os cavalos.

Os autores informaram vínculos com empresas do setor de microbioma e nutrição animal. Segundo o artigo, a pesquisa foi financiada integralmente pela Animal Microbiome Analytics e pela StableFeed.

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