Cientistas decifram o DNA do açaí pela primeira vez na história

Pesquisa da UFPA e da Embrapa cria a primeira referência genética do açaizeiro e abre novas possibilidades para o melhoramento da cultura

Cientistas brasileiros concluíram o primeiro sequenciamento do DNA do açaí, um avanço que permitirá compreender melhor as características biológicas do Euterpe oleracea, espécie responsável pela maior parte da produção nacional do fruto. O estudo cria uma base para pesquisas sobre produtividade, coloração, qualidade e resistência das plantas.

O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Embrapa Amazônia Oriental. Os resultados foram publicados na revista científica Genome, em artigo dedicado à montagem do genoma e à análise da atividade dos genes durante o amadurecimento dos frutos.

DNA do açaí reúne mais de 3 bilhões de pares de bases

O genoma montado pelos pesquisadores possui aproximadamente 3,07 bilhões de pares de bases, unidades que armazenam as instruções necessárias para o desenvolvimento e o funcionamento da planta.

Para chegar a esse resultado, a equipe utilizou a tecnologia de sequenciamento de leituras longas da Oxford Nanopore. Posteriormente, ferramentas de bioinformática foram empregadas para organizar os fragmentos e construir a primeira referência genética completa da espécie.

Esse mapeamento permitirá localizar regiões do genoma relacionadas a características de interesse agronômico. Na prática, os pesquisadores poderão comparar plantas e identificar com maior precisão quais materiais apresentam potencial para programas de melhoramento.

Estudo esclarece a formação da cor dos frutos

Além do sequenciamento, os cientistas analisaram a expressão dos genes em frutos roxos e na variedade verde, popularmente conhecida como açaí branco.

A comparação mostrou que a coloração roxa está relacionada à maior atividade de genes envolvidos na produção de antocianinas, pigmentos naturais que também possuem propriedades antioxidantes.

Entre os mecanismos identificados está a atuação da enzima flavonoide 3’5’-hidroxilase, associada à formação de pigmentos arroxeados entre 70 e 130 dias após a floração. No açaí branco, os genes responsáveis pelas etapas iniciais desse processo apresentaram menor atividade.

A descoberta ajuda a explicar por que frutos da mesma espécie podem apresentar cores diferentes e poderá orientar pesquisas voltadas à obtenção de variedades com perfis específicos de pigmentação.

DNA do açaí pode reduzir o tempo de seleção no campo

Uma das principais aplicações do estudo está no melhoramento genético. Segundo a Embrapa, o uso das informações genômicas poderá tornar as etapas de avaliação e seleção de plantas até três vezes mais rápidas do que os métodos convencionais.

Atualmente, a escolha de materiais superiores depende de vários ciclos de observação em campo. Como o açaizeiro é uma cultura perene, esse processo pode exigir anos até que produtividade, adaptação e qualidade dos frutos sejam confirmadas.

Com marcadores moleculares, será possível selecionar antecipadamente plantas que carreguem genes associados a atributos desejáveis. Os testes agronômicos continuarão necessários, mas poderão ser concentrados nos materiais com maior potencial.

Cultivar BRS Pai d’Égua forneceu material genético

As amostras de DNA utilizadas na pesquisa foram obtidas da cultivar BRS Pai d’Égua, conservada no banco de germoplasma da Embrapa Amazônia Oriental.

Já a análise do amadurecimento envolveu frutos roxos e verdes coletados em diferentes estágios de desenvolvimento. A atividade genética dessas amostras foi examinada por meio da técnica de RNA-Seq, utilizada para verificar quais genes estavam ativos em cada fase.

Os dados produzidos deverão ser disponibilizados em uma base pública, permitindo que outras instituições desenvolvam estudos sobre o açaizeiro e aprofundem a identificação de genes relevantes para a cadeia produtiva.

Pesquisa amplia oportunidades para a bioeconomia

O conhecimento genético também pode favorecer o desenvolvimento de ingredientes naturais para as indústrias de alimentos, cosméticos e biotecnologia.

Genes ligados à produção de pigmentos e antioxidantes poderão ser investigados para a criação de novos processos e produtos. Entre as possibilidades estão corantes naturais e compostos obtidos em ambientes controlados, reduzindo a necessidade de extrair grandes quantidades de matéria-prima diretamente das plantas.

Essas aplicações ainda dependem de novas etapas de pesquisa, validação técnica e análise de viabilidade econômica. Mesmo assim, o primeiro sequenciamento do DNA do açaí estabelece uma referência científica importante para uma das cadeias mais representativas da Amazônia.

O projeto recebeu financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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