Cooperativa lança programa que pode pagar bônus de até 25% ao pecuarista

Com inteligência artificial, novo sistema avalia rendimento de desossa, marmoreio, acabamento, peso e idade dos animais para remunerar com mais precisão a qualidade entregue ao frigorífico

A qualidade da carne bovina passou a valer ainda mais dinheiro no bolso do pecuarista. A Cotripal lançou um novo programa de tipificação de carcaças que prevê bonificações de até 25% sobre o preço de mercado para os animais que alcançarem os melhores resultados nos critérios estabelecidos pelo Frigorífico Cotripal.

Desenvolvido em parceria com a Brazil Beef Quality e inspirado em sistemas consolidados internacionalmente, como o Yield Grade e o Quality Grade dos Estados Unidos, o programa utiliza conhecimento técnico, análise de dados e inteligência artificial para avaliar individualmente as carcaças.

Entre os critérios considerados estão rendimento na desossa, marmoreio, acabamento de gordura, peso e idade dos animais. A proposta é remunerar cada bovino de acordo com o valor que efetivamente entrega à indústria, reconhecendo os produtores que investem em genética, nutrição, manejo e terminação.

Segundo a Cotripal, a inteligência artificial ajudará a tornar as avaliações mais precisas, padronizadas e confiáveis. Com isso, o pecuarista poderá receber informações mais objetivas sobre o desempenho do lote abatido e identificar quais pontos do sistema de produção precisam ser aprimorados.

Carne Angus realiza abate na Bahia pela primeira vez
Crédito da foto: Mateus Chaveiro

Pecuária de precisão chega ao frigorífico

O novo modelo representa uma mudança importante na relação entre pecuarista e indústria. Em vez de considerar apenas peso, sexo, idade ou acabamento visual, a tipificação procura identificar quanto cada carcaça rende durante a desossa e qual é o seu potencial de qualidade para o consumidor.

Na prática, animais mais jovens, pesados na medida adequada, bem acabados, com maior rendimento de cortes comerciais e melhores níveis de marmoreio poderão alcançar as faixas superiores de bonificação.

A tecnologia também possibilita formar uma base de dados sobre os animais abatidos. Essas informações podem retornar à fazenda e ajudar o produtor a tomar decisões sobre cruzamentos, seleção de reprodutores, suplementação, duração da terminação e momento ideal de abate.

É o conceito de pecuária de precisão avançando para além da porteira: os dados obtidos na indústria passam a orientar o melhoramento do rebanho dentro da propriedade.

modelo de abate de bovinos da cotripal
Foto: Cotripal

O paralelo com os Estados Unidos

O programa da Cotripal foi inspirado em princípios utilizados há décadas no mercado norte-americano, mas possui metodologia própria e critérios adaptados à realidade do frigorífico e de seus fornecedores.

Nos Estados Unidos, o sistema oficial administrado pelo Departamento de Agricultura, o USDA, separa a avaliação da carcaça em duas grandes dimensões.

O Quality Grade procura estimar a qualidade da experiência de consumo da carne, considerando principalmente marmoreio e maturidade fisiológica. É dessa classificação que surgem categorias conhecidas mundialmente, como Prime, Choice e Select. Em linhas gerais, carcaças jovens e com maior marmoreio tendem a ocupar as categorias superiores.

Já o Yield Grade estima a proporção de cortes comerciais desossados e aparados que poderá ser obtida da carcaça. A classificação vai de 1 a 5: o grau 1 indica maior rendimento estimado de cortes e o grau 5, menor rendimento, geralmente associado ao excesso de gordura e à menor relação entre musculatura e peso da carcaça.

O sistema considera elementos como espessura de gordura, área de olho de lombo, peso da carcaça e gordura interna. Dessa maneira, uma carcaça pode apresentar alta qualidade sensorial, devido ao marmoreio, mas não necessariamente ter o melhor rendimento industrial. Também pode ocorrer o contrário: alto rendimento de carne aproveitável, porém menor marmoreio.

É justamente a combinação dessas duas informações — qualidade e produtividade industrial — que ajuda a estabelecer pagamentos diferenciados em mercados de referência. Os critérios oficiais norte-americanos podem ser consultados nos padrões de classificação de carcaças do USDA.

No caso da Cotripal, o paralelo está no princípio de medir separadamente aquilo que interessa à indústria e ao consumidor: quanto a carcaça rende e qual carne ela entrega. Isso não significa, entretanto, que o programa reproduza integralmente a classificação do USDA.

Roberto Barcellos Cotripal
Foto: Roberto Barcellos

Incentivo para melhorar a carne e a produtividade

Para o especialista em carnes e churrasco Roberto Barcellos, a remuneração baseada em rendimento e qualidade cria um estímulo direto para a evolução da pecuária.

“Vejam o que acontece na prática quando um frigorífico implementa um programa de remuneração por Yield Grade e Quality Grade, que visa uma melhoria nos rendimentos de desossa e nos níveis de marmoreio, entregando ao pecuarista melhores rendimentos de carcaça e prêmios que incentivam a busca e a evolução de qualidade e produtividade”, afirmou.

Barcellos também classificou a iniciativa como um marco para a pecuária do Rio Grande do Sul e destacou a evolução observada nas diferentes etapas do frigorífico.

“Parabéns ao Frigorífico Cotripal pela iniciativa, que será um marco na pecuária do Rio Grande do Sul. Parabéns também a toda a equipe do frigorífico pela grande evolução, desde o embarque, pré-abate, abate e esfola até a desossa”, declarou.

A presença do especialista reforçou a importância de sistemas de bonificação sustentados por dados objetivos. Quanto mais claras forem as regras e mais confiável for a avaliação, maior será a capacidade do produtor de planejar investimentos e calcular o retorno das melhorias realizadas na fazenda.

touros da raca angus e nelore fotao
Imagem gerada por IA

Nelore, Angus e outras raças podem entregar qualidade

O pecuarista Rodrigo Berrisch também comemorou o lançamento e ressaltou que o potencial para produzir carcaças valorizadas não está restrito a uma única raça.

“Que maravilha! Hoje em dia, o desenvolvimento da genética, do manejo e da nutrição chega a esse resultado; basta ter o incentivo certo. Nelore, Angus e demais raças, todas têm esse potencial, desde que manejadas corretamente”, afirmou.

Berrisch relatou produzir tanto bovinos Angus quanto vacas Nelore terminadas a pasto, com resultados de maciez e marmoreio.

“Produzo tanto Angus quanto vaca Nelore com terminação a pasto, com maciez e marmoreio. Quem diz que Nelore não presta não deveria estar falando essas bobagens na internet”, acrescentou.

A declaração toca em um ponto central do novo programa: a remuneração será orientada pelo resultado efetivamente encontrado na carcaça. Desse modo, raça, sistema produtivo e estratégia de terminação deixam de ser analisados isoladamente. O que determinará a valorização será a capacidade de entregar rendimento, acabamento e qualidade dentro dos critérios definidos.

Mais transparência entre fazenda e indústria

Programas de bonificação podem influenciar toda a cadeia produtiva. Ao indicar exatamente quais características são valorizadas, o frigorífico envia um sinal econômico para o produtor e ajuda a direcionar os investimentos na propriedade.

Para que o modelo alcance seu potencial, porém, será fundamental garantir transparência na divulgação dos critérios, acesso aos resultados individuais, padronização das avaliações e clareza no cálculo das bonificações.

Com esses elementos, o pecuarista consegue comparar lotes, avaliar diferentes estratégias produtivas e descobrir se os investimentos em genética, nutrição e terminação estão realmente gerando retorno financeiro.

A iniciativa da Cotripal aproxima a pecuária gaúcha de sistemas internacionais nos quais a qualidade deixa de ser apenas uma característica elogiada e passa a ser mensurada e remunerada. Para o produtor que já investe na melhoria do rebanho, a bonificação de até 25% representa a possibilidade de transformar desempenho zootécnico em receita adicional.

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