Formulação experimental desenvolvida por pesquisadores ligados ao USDA usa ácidos graxos presentes no coco e conseguiu reduzir o ataque de moscas hematófagas em bovinos mantidos a pasto
Uma formulação produzida com ácidos graxos derivados do óleo de coco conseguiu proteger bovinos contra moscas hematófagas por até 96 horas, ou quatro dias, em testes conduzidos nos Estados Unidos. A tecnologia foi novamente destacada pelo Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA-ARS, em uma publicação divulgada em 28 de outubro de 2026.
A descoberta chama atenção porque as moscas que se alimentam de sangue provocam irritação, estresse e perdas produtivas nos rebanhos. O interesse dos pesquisadores está justamente em desenvolver formas de prolongar a proteção sem depender apenas de aplicações frequentes de produtos convencionais. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Formulação não é o mesmo que aplicar óleo de coco no gado
Apesar da origem vegetal dos compostos, o experimento não consistiu em espalhar óleo de coco comercial sobre os animais.
Os pesquisadores trabalharam principalmente com ácidos graxos de cadeia média presentes no coco, especialmente os de oito, dez e doze átomos de carbono. Entre eles estão os ácidos caprílico, cáprico e láurico, que apresentaram os maiores níveis de repelência nos testes.
Como esses compostos têm baixa solubilidade em água, a equipe desenvolveu uma formulação capaz de mantê-los dispersos em uma matriz de amido. No ensaio com bovinos, o produto continha aproximadamente 6,6% de ácidos graxos do coco.
Essa diferença é fundamental. Nos testes laboratoriais, o óleo de coco integral praticamente não apresentou repelência contra a mosca-dos-estábulos. A atividade foi observada depois que os ácidos graxos foram disponibilizados em sua forma livre.
Teste foi feito com 12 novilhas nos Estados Unidos
A etapa de campo foi realizada no verão de 2017, no West Central Research and Extension Center da Universidade de Nebraska, em North Platte.
Foram utilizadas 12 novilhas, divididas aleatoriamente em dois grupos de seis animais. Aproximadamente 500 mililitros da formulação foram aplicados na superfície corporal dos animais tratados, incluindo pernas e região ventral. Depois disso, o número de moscas pousando sobre os bovinos foi acompanhado durante quatro dias.
O ensaio ocorreu sob temperaturas elevadas, entre aproximadamente 33 °C e 37 °C. Mesmo nessas condições, os animais que receberam a formulação apresentaram número significativamente menor de moscas em comparação com o grupo de controle durante o período de até 96 horas.
A espécie utilizada como principal referência nessa etapa foi a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans), inseto hematófago que pode causar forte incômodo aos bovinos.
O controle desse tipo de parasita também tem estimulado outras abordagens experimentais. Uma delas avaliou padrões semelhantes às listras de zebras para reduzir o pouso de moscas nos bovinos, mostrando como diferentes linhas de pesquisa buscam diminuir a pressão dos insetos sobre o rebanho.
Efeito também apareceu contra carrapatos, mosquitos e percevejos
Os resultados de quatro dias no gado não devem ser confundidos com os demais experimentos realizados pela equipe.
Em laboratório, os ácidos graxos derivados do coco apresentaram atividade contra diferentes artrópodes hematófagos. Nos testes publicados em 2018, a repelência contra moscas e percevejos persistiu por até duas semanas, enquanto determinadas espécies de carrapatos foram repelidas por cerca de uma semana.
Com mosquitos Aedes aegypti, formulações em concentrações mais altas também alcançaram repelência superior a 90% nas condições experimentais.
Isso não significa, porém, que todos esses períodos de proteção possam ser reproduzidos automaticamente em bovinos no campo. Os testes envolveram espécies, concentrações e métodos diferentes, e parte importante dos resultados foi obtida em laboratório.
Pesquisas posteriores continuaram avaliando derivados do coco contra outros parasitas. Um estudo publicado em 2021, com participação de pesquisadores brasileiros, investigou a atividade repelente e acaricida desses compostos contra o carrapato Amblyomma sculptum.
No Brasil, a busca por novas ferramentas também envolve bioinsumos destinados ao controle do carrapato bovino, especialmente diante do avanço da resistência a princípios ativos utilizados tradicionalmente.
Por que o amido faz diferença na tecnologia
A matriz de amido não serve apenas como um ingrediente secundário.
Ela permite incorporar os ácidos graxos a uma formulação à base de água e contribui para a liberação dos compostos depois da aplicação. O USDA relata que pesquisadores desenvolveram sistemas de encapsulamento justamente para facilitar armazenamento, aplicação e liberação gradual dessas substâncias.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que os derivados do coco podem permanecer ativos por mais tempo do que vários repelentes naturais muito voláteis.
A publicação divulgada pelo USDA em outubro de 2026 destaca que os compostos podem ser incorporados a diferentes formatos, incluindo pós, sprays e loções.
Pesquisa continua avançando
A tecnologia não ficou restrita ao trabalho publicado em 2018.
Relatórios mais recentes do USDA descrevem novas formulações contendo ácidos graxos derivados do coco e outros compostos naturais. Em trabalhos posteriores, pesquisadores desenvolveram sistemas à base de amido com liberação controlada para repelir moscas que atacam bovinos.
O órgão também mantém projetos iniciados em 2026 voltados ao desenvolvimento de misturas botânicas de maior duração para proteger pessoas e animais contra moscas hematófagas. Outra linha de pesquisa utiliza formulações contendo ácidos graxos do coco em estratégias contra a mosca-da-bicheira nos Estados Unidos.
Isso mostra que o achado voltou ao noticiário em 2026 não porque o teste de 96 horas seja novo, mas porque os derivados do coco continuam sendo explorados como plataforma para o desenvolvimento de repelentes.
Resultado é promissor, mas ainda não é receita para a fazenda
Para o produtor, a principal conclusão é que a pesquisa demonstra potencial para ampliar o tempo de proteção contra moscas utilizando compostos de origem vegetal.
Isso não autoriza, entretanto, o uso de óleo de coco doméstico sobre os animais nem permite reproduzir a formulação experimental de maneira improvisada.
Concentração dos ingredientes, sistema de encapsulamento, forma de aplicação, segurança, estabilidade e eficácia em diferentes condições ambientais precisam ser considerados antes que uma tecnologia desenvolvida em laboratório seja incorporada ao manejo rotineiro.
Além disso, repelir as moscas é apenas uma parte do controle. Medidas sanitárias, redução de locais de reprodução dos insetos e manejo integrado continuam sendo fundamentais.
O avanço da pesquisa aponta, portanto, para uma possibilidade relevante: utilizar moléculas encontradas em uma matéria-prima conhecida para desenvolver produtos de maior duração contra ectoparasitas. O desafio agora é transformar os bons resultados experimentais em soluções tecnicamente seguras, economicamente viáveis e adaptadas às condições reais da pecuária.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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