Diesel pode subir 50% na Petrobras? Goldman Sachs alerta para risco e impacto no agro

Banco estima que uma alta nas refinarias poderia levar o preço nos postos a subir cerca de 20%; reajuste não foi anunciado e não faz parte do cenário principal dos analistas

O preço do diesel voltou ao centro das preocupações do agronegócio brasileiro após uma análise do banco Goldman Sachs apontar a possibilidade de um reajuste de aproximadamente 50% no valor cobrado pela Petrobras às distribuidoras em um cenário de mudança nos subsídios ao combustível.

A estimativa não significa que o diesel subirá 50% nos postos, tampouco que a Petrobras tenha anunciado um aumento nessa proporção. Na avaliação do banco, um reajuste desse tamanho na venda às distribuidoras poderia resultar em uma alta próxima de 20% no preço final ao consumidor.

Há outra ressalva: o próprio Goldman Sachs trabalha, em seu cenário principal, com a manutenção dos preços da Petrobras até o fim de 2026. O cálculo de uma alta de 50% mostra a dimensão de um possível ajuste em determinadas condições, especialmente diante da diferença entre os preços internos e as referências internacionais.

Para o produtor rural, a discussão vai além do abastecimento de tratores e colheitadeiras. O diesel também pesa no transporte de fertilizantes, rações, animais e grãos, podendo pressionar despesas em diferentes etapas da produção.

Por que o Goldman Sachs fala em alta de 50%?

Segundo a análise do banco, divulgada em 22 de outubro, havia uma diferença entre o valor obtido pela Petrobras com a venda do diesel, incluindo o subsídio, e o preço de referência do produto importado.

“Dada a nossa visibilidade limitada sobre se esse incentivo adicional para importadores de diesel expirará ou será renovado pelo governo, assumimos que a Petrobras manterá os preços do diesel inalterados até o final do ano e reconhecemos que um aumento de preço poderia trazer riscos de alta para nossas margens de refino no 4º trimestre”, avalia.

Nos cálculos apresentados pelos analistas:

  • O diesel da Petrobras, considerando o subsídio, equivalia a R$ 5,43 por litro;
  • A referência de paridade de importação estava próxima de R$ 6,89 por litro;
  • A diferença era de aproximadamente 21% em relação à referência internacional.

Para eliminar essa diferença no cenário analisado, o banco estimou que seria necessário um aumento de cerca de R$ 1,50 por litro, ou aproximadamente 50% no preço cobrado pela Petrobras às distribuidoras.

Essa é uma estimativa para alcançar uma referência calculada pelo banco. Não é uma obrigação de reajuste nem uma previsão de que a empresa adotará esse valor. A análise também foi realizada antes do segundo turno das eleições e retrata as condições de mercado consideradas naquele momento.

Diesel pode subir 50% nos postos?

Não é isso que o relatório estima. O percentual de 50% se refere ao preço da Petrobras na venda para distribuidoras, uma etapa anterior à chegada do combustível ao consumidor.

Entre a refinaria e a bomba há outros componentes, como mistura de biodiesel, custos de distribuição e revenda, tributos e logística. Por isso, um reajuste na origem não se transforma automaticamente no mesmo percentual no preço final.

No cenário calculado pelo Goldman Sachs, uma alta de aproximadamente 50% na venda às distribuidoras poderia resultar em aumento próximo de 20% nos postos. O repasse efetivo dependeria das condições do mercado e poderia variar entre regiões.

O banco também avaliou um cenário mais extremo, com a retirada de todos os subsídios ao diesel. Nesse caso, estimou que o preço nas bombas poderia subir cerca de R$ 1,80 por litro, chegando à faixa de R$ 9 a R$ 10. Trata-se de uma simulação, não de um preço anunciado.

Qual é o papel do subsídio ao diesel?

O governo federal adotou subvenções para reduzir o impacto da alta internacional do petróleo e preservar o abastecimento de diesel no país.

Além do apoio concedido a produtores e importadores, o governo anunciou, em outubro, uma subvenção adicional de R$ 1,40 por litro para o diesel rodoviário importado, inicialmente por 30 dias. A medida busca estimular a entrada do combustível no país em um momento de pressão sobre os preços internacionais.

Na análise do Goldman Sachs, o incentivo extra torna o diesel importado mais competitivo e influencia o espaço que a Petrobras teria para reajustar seus preços. A continuidade ou não das medidas é uma das variáveis que o mercado acompanha, assim como o preço do petróleo, o câmbio e a oferta de combustível.

O prazo da subvenção geral de R$ 2,12 por litro também entrou no radar do setor. A norma previa um período de 30 dias a partir de 27 de setembro, com possibilidade de prorrogação. Até a elaboração desta matéria, não foi possível confirmar em fonte oficial uma decisão posterior sobre sua renovação.

O Compre Rural já mostrou como o vencimento desse benefício colocou os custos do campo em atenção: subsídio de R$ 2,12 ao diesel vence e coloca custos do agro em alerta.

O que uma alta do diesel representa para o produtor rural?

Na fazenda, o combustível está presente em operações como preparo de solo, plantio, pulverização, colheita e transporte interno. Uma eventual alta, portanto, pode elevar o custo operacional em momentos decisivos da safra.

O impacto varia conforme o consumo de cada propriedade. Para visualizar a diferença, considere uma simulação, sem tratar os valores como previsão de preço:

Consumo de dieselAcréscimo de R$ 0,50 por litroAcréscimo de R$ 1 por litro
1 mil litrosR$ 500R$ 1.000
5 mil litrosR$ 2.500R$ 5.000
10 mil litrosR$ 5.000R$ 10.000

Em uma propriedade que consome 5 mil litros, por exemplo, cada R$ 1 de aumento no preço pago pelo combustível acrescentaria R$ 5 mil à despesa, considerando o mesmo volume de consumo.

A conta não inclui possíveis alterações no frete ou no preço de insumos. Esses custos indiretos podem ampliar a pressão sobre a margem, embora o repasse dependa dos contratos e das condições de cada mercado.

Frete e alimentação animal também entram na conta

Na agricultura, o diesel influencia o transporte de fertilizantes e defensivos até as propriedades e o escoamento da produção para armazéns, indústrias e portos. Em regiões afastadas dos centros consumidores, a logística pode representar uma parcela relevante da formação do preço recebido pelo produtor.

Na pecuária, o combustível participa da movimentação de bovinos, leite, rações e outros insumos. Uma elevação do frete pode aumentar o custo de aquisição de alimentos para o rebanho ou reduzir a receita líquida obtida na venda dos animais, conforme a negociação entre as partes.

A preocupação se soma ao cenário de pressão sobre outros itens da produção. O Compre Rural detalhou como a crise do diesel e dos fertilizantes ameaça os custos da safra 2026/27.

Reajuste também poderia pressionar a inflação

O Goldman Sachs calculou que, no cenário de alta de 50% do diesel vendido pela Petrobras às distribuidoras, o efeito direto sobre o IPCA poderia ficar entre 0,05 e 0,06 ponto percentual.

Ao considerar também os efeitos indiretos, principalmente pelo transporte de cargas e pela circulação de mercadorias, o impacto estimado pelo banco chegaria a 0,21 a 0,24 ponto percentual.

Esses números são projeções, sujeitas ao tamanho do reajuste, ao repasse ao consumidor e à reação dos demais preços da economia.

O que o produtor deve acompanhar?

O principal ponto, neste momento, é acompanhar as decisões oficiais sobre as subvenções e eventuais comunicados da Petrobras. Também entram na conta a cotação internacional do petróleo, o dólar, a oferta de diesel importado e os preços praticados nas distribuidoras e nos postos.

Para o planejamento da propriedade, vale revisar o consumo previsto para as próximas operações, conferir as condições dos contratos de frete e calcular como diferentes preços do litro afetam o custo por hectare ou por atividade.

Por enquanto, o alerta do Goldman Sachs é um cenário de risco, não um reajuste confirmado. A própria projeção principal do banco ainda considera os preços da Petrobras estáveis até o fim do ano, embora reconheça a possibilidade de mudanças diante das incertezas sobre os subsídios.

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