Combinação de El Niño forte, encarecimento dos insumos e turbulência no Oriente Médio aumenta o risco para a produção de alimentos; Brasil ganha importância como fornecedor global, mas também enfrenta custos maiores e ameaças climáticas.
O alerta aparece em diferentes análises recentes do Banco Mundial. Em sua atualização sobre segurança alimentar, a instituição afirma que a situação global está se tornando mais frágil à medida que choques geopolíticos, riscos climáticos e aumento dos custos de produção passam a atuar simultaneamente.
Um dos números ajuda a dimensionar o problema: os preços dos fertilizantes devem subir 38% em 2026, segundo projeção do Banco Mundial. Para as commodities alimentares, a estimativa é de aumento ao redor de 3%.
O cenário não significa que uma escassez mundial de alimentos esteja inevitavelmente contratada. Há estoques relevantes de grãos e uma agricultura global muito mais produtiva e tecnologicamente preparada do que em episódios anteriores de El Niño. O risco está justamente na sobreposição dos choques: produzir ficou mais caro ao mesmo tempo em que o clima ameaça reduzir a produtividade em regiões importantes.
E, nesse tabuleiro, o Brasil ocupa uma posição estratégica — como grande produtor e exportador, mas também como um dos países mais dependentes da importação de fertilizantes.
O problema começa antes de o alimento chegar ao mercado
A pressão atual não nasceu apenas do El Niño.
As interrupções no Estreito de Ormuz afetaram mercados de energia e fertilizantes, especialmente produtos como ureia e fosfatados. O gás natural também ocupa posição fundamental nessa equação porque é matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes nitrogenados.
O Banco Mundial informou que, somente nos primeiros cinco meses de 2026, os preços dos fertilizantes ficaram 35% acima do registrado no mesmo período do ano anterior. Mesmo com alguma acomodação posterior, o mercado ainda não havia retornado à normalidade.
Esse movimento cria um efeito que demora a aparecer na mesa do consumidor.
Quando o adubo fica caro ou escasso, o agricultor pode reduzir a dose aplicada, substituir produtos, alterar o pacote tecnológico ou até modificar sua decisão de plantio. A consequência potencial aparece meses depois, na produtividade e na quantidade efetivamente colhida.
O próprio Banco Mundial já havia destacado que fertilizantes mais caros podem levar à redução das aplicações e, consequentemente, diminuir rendimentos agrícolas e ampliar a pressão sobre a segurança alimentar em determinadas regiões.
Então entra o El Niño
Se a questão estivesse limitada aos fertilizantes, o mercado internacional teria mais instrumentos para se ajustar.
O problema é que 2026 também registra o avanço de um El Niño que ganhou força e pode continuar se intensificando.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou em agosto que as condições de El Niño estão presentes no Pacífico tropical e devem se fortalecer nos próximos meses. A entidade também registrou temperaturas excepcionalmente elevadas na superfície do oceano nessa região.
O El Niño não significa simplesmente “menos chuva” no planeta. Ele reorganiza padrões de circulação atmosférica e pode produzir consequências completamente diferentes entre regiões: seca em algumas áreas, excesso de precipitação em outras, temperaturas anormais e alterações no calendário das chuvas.
Para a agricultura, isso significa aumento da incerteza justamente no momento em que os custos de produção já estão pressionados.
Por que os alimentos podem ficar mais caros?
Existe um precedente econômico importante.
Em estudo sobre os efeitos de um El Niño forte, o Banco Central Europeu estimou que as commodities alimentares globais poderiam registrar elevação de até 9%, com o pico do impacto aproximadamente 16 meses depois do início do fenômeno.
Isso não significa que os alimentos necessariamente subirão 9% agora. O estudo analisou relações históricas e apresentou um cenário de impacto potencial. Mas ajuda a demonstrar como um fenômeno climático no Pacífico consegue atravessar lavouras, mercados futuros, indústrias e supermercados ao redor do planeta.
O mecanismo passa por várias etapas.
Uma quebra de produtividade reduz a oferta. Estoques podem amortecer o impacto inicialmente, mas, se diferentes regiões produtoras enfrentarem problemas simultaneamente, compradores começam a disputar volumes disponíveis. Países importadores procuram antecipar compras e governos podem adotar restrições comerciais para proteger seus mercados internos.
É justamente nessa sequência que um problema agrícola regional pode se transformar em inflação alimentar internacional.
Ainda há uma proteção importante: os estoques
Apesar dos riscos, o cenário mundial de 2026 tem uma diferença importante em relação a algumas crises alimentares anteriores.
Décadas de aumento da produtividade agrícola, expansão da produção em novos países exportadores e estoques elevados de determinados produtos aumentaram a capacidade do sistema mundial de absorver choques.
Análise recente publicada pela Reuters destaca que os estoques mundiais de grãos estão próximos de níveis recordes e que países como Brasil ganharam enorme importância no abastecimento internacional. A Índia, apesar da vulnerabilidade às irregularidades das chuvas, também mantém estoques expressivos de arroz.
Portanto, El Niño forte não é sinônimo automático de falta generalizada de comida.
O risco aumenta se problemas climáticos importantes ocorrerem simultaneamente em grandes regiões produtoras e coincidirem com fertilizantes caros, energia elevada e restrições logísticas.
É essa sobreposição que merece atenção.
Economia mundial também perde força
O choque agrícola acontece ainda em um ambiente de crescimento econômico mais fraco.
O Banco Mundial reduziu suas perspectivas e projeta que a economia mundial crescerá 2,5% em 2026, abaixo dos 2,9% registrados em 2025.
Segundo a instituição, seria o ritmo de expansão mais baixo desde o período da pandemia de Covid-19. As previsões para aproximadamente dois terços das economias foram reduzidas em relação às projeções feitas anteriormente.
Esse detalhe é especialmente importante para a segurança alimentar.
Em países ricos, inflação de alimentos significa principalmente perda de poder de compra. Em economias pobres, onde uma parcela muito maior da renda familiar é destinada à alimentação, a mesma alta pode significar redução efetiva do consumo de alimentos.
É por isso que uma elevação relativamente pequena nos índices internacionais pode produzir consequências sociais muito diferentes entre países.
E onde o Brasil entra nessa história?
Para o agronegócio brasileiro, o cenário tem duas faces.
Por um lado, problemas de produção em outros países podem aumentar a procura internacional por soja, milho, carnes, açúcar e outras commodities produzidas pelo Brasil, valorizando determinados produtos e ampliando oportunidades para exportadores.
A importância brasileira como fornecedor mundial cresceu justamente nas últimas décadas, tornando o país uma peça ainda mais relevante para a segurança alimentar internacional.
Mas interpretar uma eventual crise externa simplesmente como uma oportunidade para o Brasil seria uma leitura incompleta.
O produtor brasileiro também compra fertilizantes em um mercado internacional pressionado. Portanto, a valorização da commodity não necessariamente significa aumento proporcional da margem dentro da fazenda.
Se o custo do adubo, combustível, frete e outros insumos cresce rapidamente, parte da valorização recebida na venda desaparece antes de chegar ao resultado operacional.
Há ainda o próprio risco climático.
Historicamente, episódios de El Niño podem favorecer maior frequência de chuvas no Sul do Brasil enquanto aumentam a possibilidade de irregularidade das precipitações em partes do Norte e Nordeste. A intensidade e localização desses efeitos, porém, variam de episódio para episódio e precisam ser acompanhadas ao longo da safra.
Isso significa que o mesmo fenômeno capaz de elevar preços internacionais pode provocar ganhadores e perdedores dentro do próprio agronegócio brasileiro.
Fertilizante pode ser o ponto mais sensível para o produtor
Entre todos os fatores em jogo, a trajetória dos fertilizantes merece atenção especial no Brasil.
Não apenas porque representam parcela relevante do custo de produção das grandes culturas, mas porque o país depende fortemente do mercado externo para abastecer sua agricultura.
Uma interrupção internacional, portanto, pode chegar à propriedade rural por dois caminhos: disponibilidade e preço.
E existe um terceiro efeito menos evidente.
Quando fertilizantes caros levam produtores de outros países a reduzir aplicações, a produtividade global pode diminuir posteriormente. Ou seja, o impacto de uma crise de insumos não termina quando os preços começam a recuar — ele pode permanecer dentro da lavoura até a colheita.
Essa defasagem ajuda a explicar por que organismos internacionais acompanham 2026 com atenção.
Não existe crise inevitável, mas o risco aumentou
Os números disponíveis não permitem afirmar que o planeta esteja condenado a enfrentar uma escassez generalizada de alimentos em 2026.
Permitem afirmar algo diferente — e talvez mais relevante para quem produz.
O sistema alimentar mundial está enfrentando simultaneamente riscos climáticos, energéticos, geopolíticos e econômicos, enquanto um El Niño em fortalecimento aumenta a possibilidade de problemas de produtividade em importantes regiões agrícolas.
Ao mesmo tempo, estoques relativamente elevados, avanço tecnológico, agricultura de precisão, cultivares mais resistentes, irrigação e o crescimento de grandes fornecedores como o Brasil ampliaram a capacidade de reação do mercado mundial.
É justamente esse equilíbrio que deverá determinar o comportamento dos alimentos nos próximos meses.
Para o produtor brasileiro, portanto, a discussão vai muito além de saber se haverá ou não uma “crise alimentar”. A questão prática é acompanhar o custo dos fertilizantes, o comportamento climático, os estoques mundiais e os preços das commodities simultaneamente.
Porque, em 2026, esses quatro fatores deixaram de caminhar separadamente.
E o Brasil, como uma das principais potências agrícolas do planeta, não está apenas exposto a essa transformação: está no centro dela.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.