Crescimento das exportações brasileiras, reservas globais de alimentos e novas tecnologias agrícolas aumentam a capacidade de reação do mercado diante de um possível El Niño severo
O Agro do Brasil pode assumir papel ainda mais estratégico no abastecimento mundial caso o El Niño provoque perdas relevantes nas principais regiões produtoras nos próximos meses. Diferentemente de grandes eventos climáticos registrados no passado, o mercado agrícola chega ao atual cenário com reservas maiores, produção geograficamente mais distribuída e recursos tecnológicos capazes de reduzir parte dos impactos sobre as lavouras.
Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), citados em análise da Reuters, indicam que a produção mundial de alimentos avança em ritmo superior ao crescimento do consumo e da população desde a década de 1980.
O aumento da produtividade foi sustentado pela evolução genética das culturas, melhorias no manejo, irrigação mais eficiente, fertilização e maior capacidade de proteção das plantações.
Esse avanço não elimina os riscos de uma quebra agrícola. Porém, torna o sistema alimentar internacional menos dependente das condições de uma única região.
El Niño ameaça importantes áreas produtoras
Os primeiros sinais de preocupação estão concentrados principalmente na Ásia e na Oceania.
A Índia acompanha uma temporada de monções irregular, enquanto Indonésia e Tailândia enfrentam riscos associados à menor disponibilidade de umidade. Na Austrália, o clima seco preocupa produtores de trigo.
As projeções apresentadas por especialistas consultados pela Reuters indicam que o fenômeno pode se intensificar durante o último trimestre de 2026 e permanecer relevante no começo de 2027.
O El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial e altera os padrões de chuva e temperatura em diversas partes do planeta.
Eventos intensos ocorridos em 1997-1998 e 2015-2016 provocaram perdas agrícolas e contribuíram para pressões sobre os preços dos alimentos.
Hoje, porém, a estrutura da produção mundial é diferente.
Agro do Brasil ganhou espaço entre os principais fornecedores mundiais
Uma das maiores mudanças ocorreu na participação brasileira no comércio internacional.
O Agro do Brasil ampliou fortemente sua presença desde o grande El Niño do fim da década de 1990. O país consolidou-se como principal fornecedor mundial de soja e, segundo os dados reunidos pela Reuters, as exportações brasileiras da oleaginosa cresceram mais de 13 vezes em relação ao período de 1997 e 1998.
Esse crescimento tornou a oferta internacional menos concentrada.
Outros países também ganharam relevância. A Rússia, por exemplo, passou de aproximadamente 1 milhão de toneladas de trigo exportadas no período de 1997-1998 para 48 milhões de toneladas em 2025.
A entrada de novos grandes fornecedores cria alternativas comerciais quando uma região enfrenta problemas climáticos.
Caso a produção australiana de trigo ou as lavouras asiáticas apresentem perdas importantes, por exemplo, o mercado dispõe atualmente de mais origens capazes de atender parte da demanda internacional.
Reservas de alimentos oferecem margem de segurança
Os estoques existentes também ajudam a diferenciar o cenário atual daquele observado há três décadas.
A Índia possui grandes reservas de arroz. Conforme informações citadas pela Reuters, o volume armazenado no país supera o equivalente a um ano das exportações mundiais do cereal.
A China, por sua vez, concentra quase metade dos estoques globais de trigo.
Essas reservas permitem que grandes consumidores reduzam temporariamente sua necessidade de comprar alimentos no exterior caso suas próprias safras ou fornecedores tradicionais sejam prejudicados.
Outro mercado relativamente abastecido é o de óleo de palma. Os estoques permanecem próximos de níveis historicamente elevados, enquanto o produto representa cerca de 60% das exportações internacionais de óleos comestíveis.
Essa disponibilidade funciona como uma proteção temporária diante de eventuais perdas agrícolas, embora não impeça oscilações de preços caso o problema climático se espalhe por diversas regiões ao mesmo tempo.
Tecnologia mudou a capacidade de reação ao clima
A agricultura de 2026 possui ferramentas que ainda tinham participação limitada durante os grandes El Niños das décadas anteriores.
Sementes mais tolerantes ao estresse hídrico passaram a ser utilizadas em diferentes continentes. Híbridos de milho resistentes à seca avançaram em áreas produtoras da África e das Américas, enquanto variedades de trigo adaptadas ao calor ganharam espaço na Índia e na Austrália.
No cultivo de arroz, materiais de ciclo mais curto permitem ajustar a produção a janelas menores de chuva.
A modernização também chegou ao monitoramento das propriedades.
Imagens de satélite, mapas de umidade do solo, previsões meteorológicas, equipamentos guiados por GPS e agricultura de precisão oferecem informações que permitem tomar decisões antes que um problema climático comprometa toda a lavoura.
Produtores conseguem ajustar a irrigação, identificar áreas com maior déficit hídrico e melhorar a aplicação de fertilizantes.
Governos e empresas também passaram a acompanhar a evolução das safras praticamente em tempo real, facilitando decisões relacionadas a estoques, importação e abastecimento.
Inteligência artificial amplia ferramentas disponíveis no campo
A inteligência artificial começa a adicionar uma nova camada de análise à agricultura.
Plataformas agrícolas já conseguem cruzar informações meteorológicas, características do solo, histórico produtivo e dados coletados nas propriedades para apoiar decisões de manejo.
Entre as aplicações estão recomendações sobre época de plantio, necessidade de irrigação, fertilização e controle de pragas.
O benefício está na capacidade de interpretar grandes quantidades de informação rapidamente e apontar mudanças antes que sejam percebidas apenas pela observação tradicional da lavoura.
Em anos de forte instabilidade climática, antecipar uma decisão por alguns dias pode influenciar diretamente o rendimento de uma cultura.
Conflitos e energia podem ampliar os efeitos do El Niño
O clima, entretanto, não é o único elemento capaz de pressionar a produção mundial.
Conflitos no Oriente Médio e na região do Mar Negro criam riscos adicionais para cadeias de energia, fertilizantes e transporte.
O Estreito de Ormuz é um dos pontos sensíveis desse cenário por concentrar uma parcela relevante do comércio internacional de petróleo e gás natural liquefeito.
Qualquer interrupção prolongada nessa rota pode repercutir sobre o custo do diesel, dos fretes e de determinados fertilizantes.
Para o produtor rural, esses impactos aparecem diretamente no custo operacional da safra.
Por isso, mesmo um mundo com maiores reservas agrícolas pode enfrentar inflação de alimentos caso uma redução de produtividade coincida com aumento expressivo do preço dos insumos.
Agro do Brasil pode ganhar ainda mais importância no comércio internacional
O comportamento das próximas safras determinará até que ponto o sistema alimentar mundial conseguirá absorver um El Niño de grande intensidade.
Nesse cenário, o Agro do Brasil aparece como uma das principais peças do mercado.
O volume produzido pelo país, especialmente em culturas como soja e milho, pode ajudar a preencher espaços deixados por fornecedores que enfrentem problemas climáticos.
Isso não significa que as lavouras brasileiras estejam protegidas. O próprio El Niño altera o regime de chuvas no território nacional e pode beneficiar algumas regiões enquanto prejudica outras.
A diferença é que o mercado internacional conta atualmente com uma estrutura mais ampla de produção, armazenamento e monitoramento.
O eventual “super El Niño” será, portanto, um teste importante para essa nova configuração do agronegócio mundial. Se grandes produtores conseguirem manter suas safras e os conflitos não provocarem novos choques nos custos, o impacto sobre o abastecimento tende a ser mais administrável do que em episódios severos registrados no passado.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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