História: Entenda a evolução dos bovinos ao longo dos séculos

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Entenda a evolução dos bovinos ao longo dos séculos
Montagem Compre Rural

Conheça um poucos mais sobre os ancestrais do bovino moderno e como eles se comportaram ao longo dos últimos séculos; projeto quer ressuscitar um deles

Por Edino Camoleze – Tudo começou há aproximadamente 10 000 anos, quando os egípcios iniciaram a domesticação e utilização do Auroque (Bos primigenius) para o fornecimento de carne, leite, couro e utilização como força de tração na agricultura. O Auroque, também denominado Uruz, um dos maiores bovídeos selvagens terrestre, habitava primitivamente as pradarias e savanas da Ásia e norte da África.

Gravuras e pinturas rupestres, interpretadas e estudadas atualmente por zootecnistas e historiadores da vida selvagem, mostram que o Auroque, semelhante ao Bizão europeu (Bisão bonasus), tinha um porte avantajado com uma altura na cernelha de 1.80 m, tamanho de 3.0 m, e peso de até 1 500kg. Essa biometria corporal variava de acordo com o continente; Ásia, África ou Europa do Auroque de origem, sendo os maiores exemplares os que habitavam a Europa. Também, era significante o dimorfismo sexual, sendo os machos maiores que as fêmeas. (Wikipedia, 2019).

A questão intrigante que sempre desafiou os pesquisadores era a origem da diferenciação zootécnica entre os bovinos europeus, (Bos taurus) e os indianos, (Bos indicus). Pesquisas recentes da cientista geneticista portuguesa Marta Pereira Verdugo: “Uma viagem genética pela origem das vacas domésticas” publicada na revista Science, em 2019, parece elucidar esse mistério. A pesquisa, graças aos avanços modernos da biotecnologia, engenharia genética e biologia molecular, possibilitou que a geneticista pudesse regredir aos anos 9 000 e 900 a.C, no Neolítico, pesquisando os genomas de bovinos selvagens, em ossos fósseis do crânio desses animais que habitaram o Oriente Próximo, Ásia Central e a Península Bulcânica. A imersão nessa pesquisa inédita usando o DNA mitocondrial, possibilitou as seguintes conclusões:

  • As duas subespécies de gado bovino – o gado taurino e o gado zebuíno (ou zebu) – têm dois centros de domesticação diferentes. Enquanto o gado taurino terá sido domesticado no Crescente Fértil há 10 000 anos, o gado zebuíno terá sido no vale do Indo (na Ásia Meridional) há 8 000 anos;
  • Os primeiros exemplares de gado taurino não tinham qualquer tipo de ancestralidade do gado zebuíno;
  • Os taurinos emergiram no Oriente Próximo (Crescente Fértil ) e os zebuínos no Vale do rio Indo (hoje Paquistão) com difusão pela Índia, e mais recentemente (3 000 anos), com introdução de machos no norte da África;
  • O gado zebu do norte da África originou-se do cruzamento de linhagens primitivas locais de taurinos utilizando a introgressão com machos zebuínos;
  • O gado acompanhou a migração humana pela Ásia, África, Europa e Américas, levando a dispersão e cruzamentos entre taurinos e zebuínos;
  • As duas subespécies o Bos taurus e o Bos indicus, iniciaram sua diferenciação zootécnica com cupim, zebus e sem cupim europeu, a cerca de 10 a 20 000 anos.

Os bovinos puros ou cruzados são hoje representados por cerca de 800 raças, numa população mundial de 1, 4 bilhões de animais. Destas, cerca de 480 são taurinos e estão na Europa. No Brasil, existe cerca de 60 raças, o que representa 7.5% do total mundial. Os trabalhos sobre o sequenciamento e análise dos genomas bovinos publicados na Sciense em 2009, realizado em taurinos, zebuínos e seus híbridos, representam o esforço de um Consórcio de três centenas de pesquisadores em 25 países. (CompreRural, 2019).

Projeto Taurus: O Auroque pode ser ressuscitado

Extinto no ano de 1627, último exemplar morto na floresta de Jaktorów na Polônia, o Auroque (Bos primigenius), pode ser ressuscitado. O projeto Taurus, iniciado em 2008, é o responsável por trazer de volta a espécie. Conduzido pelo ecologista Ronald Goderie, presidente da fundação holandesa Stichting Taurus, tem por objetivo resgatar um herbívaro suficientemente resistente a predadores e doenças que possa pastar em áreas selvagens montanhosas europeias, especialmente com grandes predadores ao redor, como lobos. A aclimatação e adaptação do Auroque por mais de 250 000 anos na Europa, o torna o animal preferido para a biodiversidade europeia, causando um grande impacto na vegetação onde vivia. Centenas de espécies de plantas e animais desenvolveram-se em co-evolução com os vastos rebanhos desses mamíferos terrestres, mais pesados da Europa, e outros grandes pastores. (Ronald Goderie, 2008).

O programa Tauros identificou os mais promissores descendentes Auroques para um programa de melhoramento. A criação é feita em ampla base científica com uma equipe multidisciplinar. A equipe inclui especialistas em genética, ecologia, biologia molecular, arqueologia, arqueozoologia, história, bem como auroques especialistas em reprodução. A genética desempenha um papel importante no programa. Recentemente, partes do código genético dos Auroques foram desvendadas. Isso abre a porta para a comparação dos resultados de reprodução também em nível genético. A comparação genética é uma das principais linhas de pesquisa do programa.

Desde 2008, a Fundação Taurus está na liderança. Em 2011, cooperamos com a fundação Ark para povoar uma área no sul da Holanda com um grupo de tauroses. Em novembro de 2012, a fundação Taurus e a Rewilding Europe assinaram um acordo de parceria estratégica. O objetivo desta cooperação é repovoar grandes áreas rewilded européias com bovinos selvagens novamente. Até o ano de 2020, que rebanhos de tauroses circulem por várias áreas selvagens remotas da Europa.

Gayal o semi-domesticado

Foto: Divulgação

Conhecido vulgarmente na Índia como Gayal ou Mithun, e cientificamente como (Bos frontalis), praticamente semi-domesticado, esse grande bovídeo que impressiona pelo porte e musculatura dos anteriores, vive ainda em grande parte nas florestas de altitude de até 3 000, nas montanhas da Índia e China. É encontrado com maior densidade populacional nas áreas montanhosas do Butão, leste da Índia, leste de Bangladesh, norte de Mianmar e noroeste de Yunnan, na China. Nas florestas úmidas das colinas, o Gayal é um animal de vida livre sem reprodução planejada. Isto às vezes é descrito como animal semi-selvagem ou semi-doméstico. (Scherf 2000)

Dados zootécnicos mostram as seguintes características morfológicas e fenotípicas do Gayal:

  • Rebanho na floresta – Normalmente um touro e várias fêmeas e juvenis;
  • Peso adulto – machos 600 kg a 1000 kg. Fêmeas menores 450 – 650 kg;
  • Pastagem – Pela manhã e à tarde. consomem gramíneas, folhas secas, galhos etc;
  • Coloração – Varia da pelagem baia até a marrom e preta com os membros calçados;
  • Comprimento – 2.40 até 3.30 cm; altura na cernelha 1.80m.
  • Primeiro cio fêmeas – 19 a 21 meses; machos 18 a 20 meses;
  • Gestação – de 9 a 10 meses;
  • Giba – alongada e larga cobrindo a região torácica e dorso;
  • Cabeça – robusta e pesada, curta e de forma triangular;
  • Chifres – grossos na base de inserção ao crânio, curtos e pontiagudos;

A população de B. frontalis está em declínio devido à caça e à alteração e destruição do seu habitat. Estima-se que existam apenas 1 000 indivíduos na natureza (Nowak, 1999). Esta espécie também é muito suscetível à doenças do gado doméstico, como a febre aftosa e a peste bovina. As doenças são disseminadas pelo gado doméstico que é levado para o habitat de B. frontalis para pastar. (Buchholtz 1989).

O esquecido Gauro

Na marcha da domesticação dos animais selvagens, o Gauro (Bos gaurus), maior bovino selvagem do mundo, ficou no esquecimento. Também chamado de bisão indiano, vive em bandos numerosos na Ásia, Mianmar, Bangladesh, Butão, Camboja, Vietnã, Tailândia, Malásia e Nepal. De acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (UICN), o Gauro é uma espécie vulnerável, pois apenas 13.000 a 30.000 indivíduos foram contados globalmente nesses países. A UICN relata que suas populações caíram 70% nas últimas três gerações na Indochina, Malásia, China e Mianmar. Esse declínio sensível deve-se sobretudo à: redução de seu território para plantações agrícolas, caça indiscriminada para obtenção de alimentos e às doenças contagiosas, como a febre aftosa e a peste bovina.

Considerado um dos possíveis padreadores, junto com o Gayal, da formação do Zebu, essa hipótese, além dos estudos genéticos atuais de especiação dos bovinos, parece ser confirmada pela presença da corcova nesses animais, característica zootécnica fundamental de diferenciação morfológica entre o gado zebuíno e europeu. Confira uma matéria especial que fizemos sobre o Gauro:

Genética e ancestralidade

Graças à moderna biotecnologia que inclui a engenharia genética, a biologia molecular, e os estudos do DNA mitocondrial (mtDNA) e do cromossomo Y, está sendo possível revelar a genealogia, ancestralidade e evolução dos bovinos domesticados desde seus primeiros ancestrais selvagens, (Auroque, Gayal e Gauro), até as raças sintéticas atuais. Além disso, dentro do Melhoramento Animal, o estudo dos genomas, mapeamento genético, das raças puras, taurinas e zebuínas e seus híbridos, é possível,, com a “maquiagem genética” selecionar gens para o melhoramento animal quanto à rusticidade, resistência à doenças e parasitas, adaptação ao clima, produtividade, etc… correndo-se o risco, com a seleção artificial, da perda da diversidade genética natural.

Artigo Por Edino Camoleze via CNA

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