Pesquisa publicada na PNAS calcula o impacto global de uma agricultura sem os ganhos da irrigação e chega a um resultado climático equivalente a 363 anos das emissões anuais do próprio sistema.
A irrigação agrícola costuma aparecer no debate ambiental associada ao consumo de água e à energia necessária para bombear milhões de metros cúbicos até as lavouras. Uma nova pesquisa, porém, acrescentou à equação algo que normalmente fica de fora: quanta terra adicional precisaria ser cultivada se a produtividade proporcionada pela irrigação desaparecesse?
O resultado chama atenção. Pesquisadores da Colorado State University estimaram que a maior produtividade proporcionada pela agricultura irrigada dos Estados Unidos evita 6,86 gigatoneladas de CO₂ equivalente em emissões associadas à conversão de áreas naturais. O montante corresponde a aproximadamente 363 anos das atuais emissões diretas anuais da própria irrigação americana, estimadas pelo trabalho em 0,019 gigatonelada de CO₂ equivalente.
Publicado na PNAS, o estudo mostra ainda que, dependendo da cultura, a irrigação aumenta a produção agrícola americana entre 3% e 39%, além de proporcionar pelo menos US$ 31,9 bilhões em receita adicional.
A descoberta tem implicações importantes para grandes países agrícolas, como o Brasil, mas exige uma leitura cuidadosa. O estudo não afirma que toda irrigação seja automaticamente sustentável. O que demonstra é que considerar apenas água e energia pode deixar de fora um efeito relevante: a quantidade de terra poupada pelo aumento da produtividade.
O que aconteceria com a agricultura sem irrigação?
A lógica utilizada pelos pesquisadores parte de uma pergunta: o que aconteceria se as lavouras irrigadas dos Estados Unidos passassem a depender apenas da chuva?
A produção cairia. Para manter a oferta mundial de alimentos, fibras e matérias-primas, essa perda precisaria ser compensada por ganhos de produtividade, alterações no comércio e no consumo ou pela incorporação de novas áreas à agricultura.
É justamente nesse último ponto que aparece a questão climática. Transformar florestas, vegetação nativa ou outras áreas naturais em lavouras pode liberar carbono armazenado na vegetação e no solo.
Para calcular esse efeito, os pesquisadores combinaram dados de produtividade de áreas irrigadas e de sequeiro com um modelo econômico global espacialmente explícito, simulando mudanças na produção, consumo, comércio e uso da terra.
Produção pode aumentar até 39%
Os resultados mostram diferenças significativas conforme a cultura e as condições locais. Nas culturas analisadas, a irrigação elevou a produção americana entre 3% e 39%.
Em regiões com chuvas regulares, a diferença entre áreas irrigadas e de sequeiro pode ser menor. Em ambientes secos ou sujeitos a déficits hídricos importantes, porém, a disponibilidade de água pode ter peso muito maior sobre a produtividade.
Economicamente, os ganhos associados à irrigação representam pelo menos US$ 31,9 bilhões em receita agrícola adicional.
Mas o resultado mais expressivo surgiu quando os pesquisadores simularam o que aconteceria com o uso global da terra caso essa produção deixasse de existir.
32 milhões de hectares de florestas entram na conta
Segundo a modelagem, os ganhos de produtividade proporcionados pela irrigação americana evitariam, em termos líquidos, a conversão global de aproximadamente 32 milhões de hectares de florestas e 7 milhões de hectares de outras vegetações naturais.
O modelo também projeta alterações em cerca de 35 milhões de hectares de pastagens e 4 milhões de hectares de áreas agrícolas para compensar a produção perdida.
Isso não significa que existam atualmente 32 milhões de hectares específicos de floresta literalmente “salvos” pela irrigação dos Estados Unidos.
Trata-se de um cenário contrafactual: uma estimativa de como o sistema mundial de produção e uso da terra poderia se reorganizar caso desaparecessem os ganhos produtivos proporcionados pelas áreas irrigadas americanas.
A partir dessas mudanças, os pesquisadores calcularam as emissões relacionadas à conversão de terras.
A conta chega a 6,86 gigatoneladas
O resultado foi de 6,86 gigatoneladas de CO₂ equivalente em emissões evitadas pelo chamado efeito de “poupar terra” proporcionado pela produtividade das áreas irrigadas.
Para dimensionar o número, os autores observam que ele supera as 5,91 gigatoneladas de emissões totais dos Estados Unidos em 2024.
Mas há uma distinção importante: isso não significa que a irrigação americana retire 6,86 gigatoneladas de CO₂ da atmosfera todos os anos.
O número representa um estoque de emissões associado à conversão de terras que, segundo o cenário modelado, seria evitado graças à maior produtividade.
Afinal, de onde vêm os “363 anos”?
A própria irrigação também possui uma pegada de carbono. Bombear água demanda energia, enquanto existem outras emissões relacionadas aos sistemas produtivos.
O estudo estima aproximadamente 0,019 gigatonelada de CO₂ equivalente por ano em emissões diretas relacionadas à irrigação americana.
Quando esse fluxo anual é comparado às 6,86 gigatoneladas de emissões potencialmente evitadas pela menor conversão de terras, surge a equivalência de aproximadamente 363 anos.
É importante interpretar corretamente esse dado.
Não significa que um pivô central compense 363 vezes a energia que consome.
Significa que, no cenário nacional e global modelado pelo estudo, as emissões de mudança de uso da terra evitadas graças à produtividade irrigada equivalem a 363 anos das atuais emissões diretas anuais da irrigação dos Estados Unidos.
Produzir mais na mesma área também pode ter valor ambiental
O estudo reforça um conceito conhecido como land sparing, ou poupança de terra.
A lógica é relativamente simples: se uma determinada área produz mais, parte da demanda adicional por alimentos pode ser atendida sem a necessidade de expandir a superfície cultivada.
Isso significa que produtividade não possui apenas valor econômico. Dependendo das condições, produzir mais dentro da área agrícola existente também pode diminuir a pressão indireta pela abertura de novas áreas.
Esse raciocínio, entretanto, não transforma a irrigação em uma tecnologia sem impactos.
Água é um recurso limitado. Aquíferos podem ser superexplorados, rios precisam manter vazões ecológicas e diferentes usuários disputam o mesmo recurso.
Por isso, os próprios pesquisadores reconhecem que existem trade-offs que vão além da produção de alimentos e das emissões de gases de efeito estufa.
Eficiência energética pode melhorar ainda mais a conta
Outro ponto importante está no bombeamento de água, responsável por parcela significativa das emissões energéticas relacionadas à irrigação.
Trabalhos anteriores do mesmo grupo estimaram 12,6 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2018 somente pelo consumo de energia das bombas de irrigação americanas, com predominância das operações relacionadas à água subterrânea.
Isso abre outra oportunidade: se a irrigação aumenta produtividade e reduz a pressão por novas áreas, diminuir simultaneamente sua pegada energética pode ampliar ainda mais seus benefícios.
Entre as possibilidades apontadas pelos pesquisadores estão a eletrificação de bombas atualmente dependentes de combustíveis fósseis e a redução da intensidade de carbono da rede elétrica.
Em trabalho anterior, o grupo estimou que mudanças na matriz elétrica poderiam reduzir em 46% as emissões relacionadas ao bombeamento até 2050, com potencial adicional proporcionado pela eletrificação.
O que esse estudo significa para o Brasil?
Os números encontrados nos Estados Unidos não podem ser simplesmente transportados para a agricultura brasileira.
Clima, matriz energética, disponibilidade hídrica, culturas, produtividade de sequeiro, infraestrutura e dinâmica de expansão territorial são diferentes. Portanto, os 363 anos não representam uma estimativa para o Brasil.
O princípio investigado, entretanto, interessa diretamente ao país.
O Brasil possui uma das maiores agriculturas de sequeiro do mundo e, ao mesmo tempo, regiões onde a irrigação pode elevar produtividade, reduzir risco climático e permitir até mais de uma safra dentro da mesma área.
Assim, a discussão deixa de considerar somente:
“Quanto de água e energia a irrigação consome?”
E passa a incorporar outra pergunta:
“Quanto de alimento e fibra essa água permite produzir sem necessidade de ampliar a área cultivada?”
Para o produtor, eficiência continua sendo a palavra-chave
Na porteira, a primeira regra econômica continua a mesma: irrigação precisa entregar retorno.
Isso depende de dimensionamento adequado, disponibilidade legal e física de água, custo de energia, escolha correta do sistema e manejo baseado na necessidade real da cultura.
Aplicar água além do necessário não significa produzir mais. Pelo contrário: pode aumentar o gasto energético, favorecer doenças, provocar lixiviação de nutrientes e diminuir a eficiência do sistema.
A irrigação também pode exercer outra função importante diante de um clima mais irregular: reduzir o risco de perdas causadas por calor e déficit hídrico.
Para o produtor, essa estabilidade pode ser tão relevante quanto elevar o teto produtivo. Uma área que produz mais em condições normais tem valor; uma área capaz de evitar uma quebra severa durante um veranico pode ter valor ainda maior.
Uma nova maneira de fazer a conta
Talvez a principal contribuição do estudo não seja apenas o impressionante número de 363 anos, mas a ampliação da maneira como os impactos da irrigação são calculados.
Quando a análise termina dentro da propriedade, entram na conta eletricidade, combustíveis e outros componentes da pegada ambiental.
Quando o sistema alimentar global é considerado, surge outra consequência: produzir menos em determinado lugar pode exigir produzir mais em outro — e esse outro lugar pode precisar de novas terras.
É por isso que os autores defendem que políticas de agricultura de baixo carbono considerem simultaneamente emissões diretas, produtividade e efeitos indiretos sobre o uso da terra.
Para o Brasil, que busca ampliar a produção agropecuária enquanto enfrenta pressão crescente para reduzir a conversão de vegetação nativa e comprovar sustentabilidade, a discussão ganha relevância particular.
O estudo não afirma que toda irrigação seja sustentável. Mas apresenta evidências de algo que muitas vezes fica fora da conta: produzir mais dentro da área agrícola existente pode reduzir a necessidade de incorporar novas terras à produção.
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