Variedade plantada antes pode mudar em quase 1 tonelada a produtividade da cultura seguinte

Experimento com 309 genótipos mostrou que a mesma variedade de trigo produziu de 2,52 a 3,49 t/ha dependendo exclusivamente do feijão-mungo cultivado anteriormente; descoberta pode mudar a forma de pensar o melhoramento e a rotação de culturas

A escolha de uma cultivar normalmente considera produtividade, ciclo, resistência a doenças, estabilidade e adaptação regional. Uma nova pesquisa, porém, acrescenta uma pergunta pouco explorada: quanto essa genética pode influenciar a produtividade da cultura plantada depois dela?

Pesquisadores ligados à University of Queensland, na Austrália, encontraram um efeito expressivo. Após cultivarem 309 genótipos diferentes de feijão-mungo, os cientistas semearam exatamente a mesma variedade de trigo nas parcelas. A produtividade posterior variou de 2,52 a 3,49 toneladas por hectare — diferença de quase 1 tonelada por hectare associada ao material genético que ocupou o solo anteriormente.

A “herança” deixada pela cultivar

O fenômeno é chamado pelos pesquisadores de efeito genético de legado.

Toda cultura interfere no ambiente onde cresce: utiliza e disponibiliza nutrientes, desenvolve diferentes sistemas radiculares, interage com microrganismos e deixa resíduos após a colheita. A novidade é a indicação de que essa herança também pode variar entre genótipos da mesma espécie.

Ou seja, duas variedades de uma mesma cultura podem preparar ambientes diferentes para a lavoura seguinte.

No estudo, alguns materiais de feijão-mungo favoreceram o rendimento posterior do trigo em até 45%, enquanto outros tiveram efeitos menos favoráveis.

Genética pode permitir selecionar plantas pensando na próxima safra

Os pesquisadores encontraram herdabilidade moderada nos efeitos de legado e identificaram regiões do genoma do feijão-mungo associadas ao rendimento posterior do trigo.

Isso abre uma possibilidade relevante para o melhoramento vegetal: selecionar uma cultivar não apenas pela produtividade que entrega, mas também pelo benefício que deixa para a cultura seguinte.

Uma simulação realizada pela equipe dividiu igualmente o peso da seleção entre a produtividade do feijão-mungo e a do trigo subsequente. O modelo estimou ganhos simultâneos de 19,5% no feijão-mungo e 7,6% no trigo.

É importante destacar que se trata de simulação genética, e não de ganhos comerciais já comprovados no campo.

A cultivar que mais produz pode não ser a melhor para o sistema

Um dos resultados mais interessantes foi justamente um possível conflito entre safras.

Algumas regiões genéticas relacionadas ao bom desempenho do feijão-mungo também estavam associadas a efeitos menos favoráveis sobre o trigo seguinte.

Na prática, isso levanta uma questão importante: a cultivar que maximiza a primeira safra nem sempre será aquela que proporciona a maior produtividade total do sistema agrícola.

Em áreas com duas ou três culturas por ano, portanto, pode ser mais interessante avaliar quanto o hectare produz durante todo o ciclo produtivo, e não apenas o rendimento isolado de uma cultura.

O que isso pode representar para o Brasil?

A descoberta chama atenção especialmente em sistemas intensivos como os brasileiros, onde uma mesma área pode produzir soja e milho dentro do mesmo ano agrícola.

Atualmente, a escolha de cultivares já considera fatores que interferem na sucessão, como ciclo, janela de plantio, consumo de água, palhada, fertilidade, nematoides e doenças. A pesquisa australiana acrescenta outra possibilidade: a própria genética da cultivar antecessora pode influenciar o desempenho da sucessora.

Isso ainda não foi demonstrado especificamente para soja e milho no Brasil e, portanto, não deve ser interpretado como recomendação agronômica.

O estudo foi realizado em um único local e uma única temporada, e os resultados precisam ser reproduzidos em diferentes solos, ambientes e anos.

Mesmo assim, a descoberta abre uma nova frente para a pesquisa agrícola.

No futuro, programas de melhoramento poderão avaliar não apenas “quanto esta cultivar produz?”, mas também “quanto ela ajuda a cultura seguinte a produzir?”.

Em um país onde duas safras no mesmo hectare são parte central da agricultura, essa mudança de perspectiva pode ser importante: a melhor genética talvez não seja apenas aquela que entrega a maior safra, mas a que permite ao produtor extrair maior produtividade do sistema ao longo de todo o ano.

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