Estudo revela melhor momento de colocar gado leiteiro no pasto

Estudo revela melhor momento de colocar gado leiteiro no pasto

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No Brasil, onde concentra-se um dos maiores rebanhos de gado do mundo, encontrar alternativas que possibilitem estabilidade entre as esferas social, ambiental e econômica é tarefa que envolve o setor produtivo e a comunidade científica. Foto: Fábio Torrezan / Acom / Esalq

Experimentos conseguiram aumentar a produtividade do gado leiteiro e ao mesmo tempo minimizar as emissões de gases causadores do efeito estufa.

Encontrar o equilíbrio entre uma produção rentável e sustentável. Nessa tênue divisa caminha a produção agropecuária que tem em seu escopo auxiliar no desafio de alimentar uma população crescente, preservando as reservas ambientais. E a ciência pode contribuir. Uma pesquisa nesta linha foi o pós-doutorado de Marília Barbosa Chiavegato na Escola Superior de Agricultura de Luiz de Queiroz (Esalq) da USP. Ela analisou a qualidade da forragem, o desempenho animal e emissões de gases de efeito estufa em capim-elefante (Cameroon) submetido a estratégias de pastejo rotativo. “Foram testadas maneiras de manejar os animais nas pastagens buscando minimizar as emissões de gases de efeito estufa – metano entérico CH4 – e aumentar a produtividade de leite”. A partir dos resultados dos experimentos, concluiu-se, entre outros pontos, que um melhor resultado é obtido ao se colocar os animais nos pastos de capim-elefante (Cameroon) quando eles atingem altura de 100 cm (correspondente à interceptação de 95% da luz incidente).

Segundo a Marília Chiavegato, o capim-elefante é bastante utilizado no setor, mas usualmente o foco do produtor está no período fixo de descanso antes de colocar o animal no pasto. “Nosso objetivo foi determinar o momento certo de disponibilizar o pasto para os animais para que as emissões fossem diminuídas e a produtividade de leite aumentada”.

E estudo foi supervisionado pelo professor Sila Carneiro da Silva, Departamento de Zootecnia da Esalq.

Experimento com rebanhos

A engenheira agrônoma conduziu na Esalq experimento com vacas leiteiras e alterou o foco para altura do capim, desconsiderando o período de descanso fixo. “Ocorre que seguindo um período fixado em dias de descanso, o produtor pode não ter a melhor forragem dependendo de condições de clima e solo. O pasto vai crescendo e pode passar do ponto. Por exemplo, pode ficar fibroso e o animal ter problemas na digestão, o que interfere na produção de leite e nas emissões de gases do efeito estufa, especificamente do metano entérico, que é o mais produzido pelos animais ruminantes”, detalha Marília.

O Departamento de Zootecnia da Esalq traz em sua essência estudos que sempre ocuparam a vanguarda desse ramo da ciência, com destacadas linhas de pesquisas que vão da nutrição ao melhoramento genético animal, da reprodução à conservação de forragens e pastagens. Na imagem, o capim elefante – Foto: Segundo Urquiaga / Embrapa

Assim, buscando ajustar a dieta, os pesquisadores conduziram um experimento com dois rebanhos, monitorando 24 vacas leiteiras. “Foi um projeto bem grande, realizado em parceria com a Embrapa Pecuária Sudeste e Embrapa Meio Ambiente. E concluímos que é possível obter um equilíbrio entre produção de leite e emissão de gases”.

De acordo com a pesquisadora, colocar os animais nos pastos de capim-elefante (Cameroon) quando eles atingem altura de 100 cm “resultou em forragem de melhor qualidade, e o resultado foi um aumento de 30% no número de animais por unidade de área, ganho de três quilogramas por dia de leite por animal e diminuição em 20% das emissões de CH4 entérico por quilograma de leite produzido”. Desse trabalho resultaram ainda duas teses. Uma delas conduzida por Camila Delveaux Araujo Batalha, com orientação do professor Flavio Augusto Portela Santos, e outra de autoria de Guilhermo Francklin de Souza Congio que, assim como Marília, foi orientado pelo professor Sila.

Outras teses

A tese da Camila apontou que o manejo baseado com interceptação luminosa (IL) de 95% permitiu que as vacas acessassem pastos com maior relação folha/colmo, resultando em uma forragem com melhor composição química.

“Os animais pastejando forragem colhida aos 95% IL, ou altura de entrada nos piquetes de 100 cm, tiveram maior consumo de matéria seca e energia, com maior produção de leite por vaca e taxa de lotação, resultando em maior produção de leite por unidade de área. Além disso, a estratégia permite a diminuição das emissões de metano por consumo de energia líquida quando comparado à entrada dos animais nos piquetes com máxima IL, ou altura de entrada de 135 cm”, descreve a pesquisadora, que ainda avaliou os efeitos do período de início pastejo (manhã ou tarde) na produção de leite, variáveis ruminais e eficiência de uso de nitrogênio (N) de vacas leiteiras no terço médio da lactação.

Associação da meta pré-pastejo com altura de 100 cm e a alocação do rebanho para um novo piquete à tarde poderia trazer benefícios econômicos, produtivos e ambientais para a intensificação sustentável de sistemas baseados em pastagens tropicais – Foto: Sebastião José de Araújo

Segundo Camila, o maior teor de carboidratos não fibrosos da forragem ao final do dia possibilitou o aumento da síntese de proteína microbiana, redução do nitrogênio uréico no leite e apresentou tendência para aumento da produção de proteína e caseína do leite em comparação às vacas que iniciaram o pastejo no período da manhã.

“Ao longo dos estudos desta tese houve uma melhora no valor nutritivo da forragem adotando o critério de entrada nos piquetes com 95%IL (ou 100 cm de altura) e a troca de piquetes no período da tarde. Assim, o pastejo no período da tarde deve ser adotado juntamente com a altura de 100 cm para entrada dos animais nos piquetes como ajuste fino em sistemas intensivos de produção de leite à base de capim-elefante (Cameroon)”, aponta.

Os trabalhos de Guilhermo Congio corroboram os resultados obtidos por Marília e Camila. “O manejo do pastejo com base na meta de 95%IL é uma prática ambientalmente segura que melhora a eficiência de uso dos recursos alocados por meio da otimização de processos envolvendo plantas, ruminantes e sua interface, e aumenta a eficiência da produção de leite”.

De acordo com o professor Sila, o uso do critério de IL para manejar pastos permite que uma série de processos fisiológicos importantes e determinantes das respostas de plantas e animais em pastagens sejam integrados em uma simples e única variável de campo, a altura em que os pastos são mantidos e ou manejados. “Dessa forma, é possível transferir conhecimento e tecnologia ao produtor de forma simples, transformando ciência em prática. O bom manejo do pastejo aumenta a produção e a produtividade animal e reduz a intensidade de emissão de gases causadores do efeito estufa, contribuindo para uma pecuária cada vez mais produtiva, eficiente e sustentável”, considera o docente.

Congio teve ainda como objetivo descrever e medir a influência de dois horários de alocação de novos piquetes aos animais sobre a composição química da forragem, consumo de matéria seca (CMS), produção e composição do leite, e emissões de metano (CH4) entérico de vacas HPB × Jersey. “Os resultados indicaram que a alocação de novos piquetes à tarde pode ser uma estratégia de manejo simples e útil que resulta em maior partição de nitrogênio (N) para produção de proteína e menor excreção de nitrogênio ureico no leite. A associação da meta pré-pastejo de 95% IL (ou altura de 100 cm) e a alocação do rebanho para um novo piquete à tarde poderia trazer benefícios econômicos, produtivos e ambientais para a intensificação sustentável de sistemas baseados em pastagens tropicais”.

Seguindo na linha para continuar obtendo melhores índices de produtividade de leite, com baixo impacto ambiental, Marília Chiavegato antecipa futuras pesquisas. “Os próximos estudos envolverão outras pastagens, a questão da dieta, e também iremos olhar para as pastagens degradadas, que é um grave empecilho na produção. Testaremos uma estratégia de recuperação de pastagens degradadas também buscando aumentar a produtividade e diminuindo o impacto ambiental”, finaliza.

Reprodução do Jornal da USP

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