Bosch, John Deere e Grunner avançam em projetos para substituir parte ou todo o diesel com etanol em máquinas agrícolas e equipamentos pesados; economia depende do consumo, do preço do etanol e do investimento necessário
O etanol, combustível já produzido em larga escala pelas usinas brasileiras, começa a ganhar espaço em uma nova frente do agronegócio: a movimentação de máquinas pesadas usadas na colheita e no transporte de cana-de-açúcar.
A proposta é substituir parte ou todo o diesel consumido por equipamentos agrícolas, aproveitando um combustível renovável disponível na própria cadeia produtiva. A mudança pode reduzir a dependência do petróleo e as emissões associadas às operações, mas o retorno financeiro depende de uma conta que vai além do preço por litro.
Durante a 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, representantes de Bosch, John Deere e Grunner apresentaram caminhos diferentes para essa transição. Entre eles estão a adaptação de motores existentes para operar com diesel e etanol, o desenvolvimento de motores dedicados ao biocombustível e o lançamento comercial de máquinas para o setor sucroenergético.
Uma das projeções apresentadas no encontro aponta que o gasto com combustível em operações de transbordo poderia cair de R$ 1,95 bilhão para R$ 898 milhões por safra em determinado cenário de adoção das tecnologias. A diferença é de aproximadamente R$ 1,05 bilhão, ou 54%.
O número, porém, deve ser interpretado como uma estimativa apresentada pela Grunner, e não como economia já comprovada para todo o setor. A comparação também envolve mudanças na frota e na logística, além da troca de combustível.
Como o etanol pode ser usado em motores diesel?
Não basta abastecer uma máquina convencional com etanol. O motor precisa ser projetado ou adaptado para trabalhar com as características do biocombustível e garantir funcionamento adequado, desempenho e durabilidade.
Uma das alternativas é o sistema dual fuel, no qual diesel e etanol são utilizados no mesmo motor. Nesse caso, a participação de cada combustível varia conforme a tecnologia e as condições de operação. Portanto, usar etanol não significa necessariamente eliminar todo o consumo de diesel.
Outra possibilidade é empregar um motor dedicado ao etanol, desenvolvido ou modificado para funcionar com esse combustível. Há ainda diferenças na forma de ignição e na composição do combustível utilizado, de acordo com o projeto.
A escolha entre adaptar uma máquina existente e adquirir um equipamento novo depende de fatores como idade da frota, horas de trabalho, disponibilidade de combustível, suporte técnico e custo de manutenção.
Bosch aposta na adaptação de máquinas que já estão no campo
A Bosch apresentou no painel uma solução de retrofit dual fuel, voltada à adaptação de equipamentos com motores diesel. A proposta é acrescentar um sistema de injeção de etanol e um controlador ao motor existente.
Segundo Paulo Rocca Vieira, vice-presidente da Bosch Soluções Integradas Brasil para desenvolvimento de novos negócios, a instalação da solução apresentada pode ser feita sem a troca do cabeçote e em menos de um dia. Essa é uma característica informada para o sistema da empresa, e não uma regra para toda conversão de motor.
A estratégia procura atender frotas de longa vida útil, como máquinas de mineração e equipamentos agrícolas. No painel, o executivo citou colhedoras de cana que podem chegar a consumir 140 mil litros de diesel por ano — um volume que ajuda a explicar por que mudanças no custo operacional despertam interesse das usinas.
Para o produtor, porém, a viabilidade precisa ser calculada caso a caso: além do investimento no kit, é necessário verificar a parcela de diesel efetivamente substituída, o consumo de etanol e as condições de garantia e manutenção.
John Deere testa motor de 9 litros a etanol no Brasil
A John Deere segue outra linha de desenvolvimento, com um motor de 9 litros projetado para funcionar com etanol. A empresa apresentou o conceito no Brasil em 2024 e, no ano seguinte, mostrou um trator 8R equipado com o protótipo em testes de campo.
Segundo a fabricante, o projeto tem sido avaliado em operações ligadas à cana-de-açúcar e aos grãos, segmentos nos quais o etanol pode estar disponível próximo às áreas de produção. O equipamento ainda precisa passar pelas etapas de validação antes de uma eventual ampliação comercial.
No painel da DATAGRO, Felipe Dias, gerente global de sistema de produção de cana-de-açúcar da John Deere, afirmou que a meta da companhia é buscar uma redução de 10% a 15% no custo do combustível, mantendo confiabilidade, desempenho e suporte ao cliente.
Trata-se de uma meta de desenvolvimento, não de economia garantida em todas as fazendas. O resultado dependerá das condições de uso e dos preços dos combustíveis quando a tecnologia estiver disponível.
Grunner projeta economia na logística da cana
A Grunner apresentou equipamentos com motorização a etanol e a biometano para atividades como transbordo de cana, aplicação de vinhaça e distribuição de sólidos. O lançamento comercial foi anunciado em setembro de 2026, em Lençóis Paulista, no interior de São Paulo.
O transbordo é a etapa em que a cana colhida é recebida no campo e levada até o ponto de carregamento. Como envolve deslocamentos frequentes durante a safra, a operação exige planejamento de frota, combustível e manutenção.
Na projeção apresentada por André Luiz Torquetti, gerente nacional de vendas e marketing da Grunner, um cenário de processamento de 673,2 milhões de toneladas de cana demandaria 10 mil transbordos tratorizados e 5 mil colhedoras na logística tradicional. Com a tecnologia proposta pela empresa, a necessidade de equipamentos para o transporte cairia para 8.500 unidades.
A estimativa de queda do gasto com combustível para R$ 898 milhões, ante R$ 1,95 bilhão, deve ser lida nesse contexto: ela combina a mudança energética com uma configuração diferente de frota. O material apresentado não detalha todas as premissas de preços, consumo e investimento necessárias para reproduzir o cálculo.
A empresa também projetou evitar mais de 920 mil toneladas de CO₂, mas não foram informados no material os limites e a metodologia usados nessa estimativa. Por isso, o resultado não deve ser tratado como redução verificada de emissões do setor.
Etanol mais barato por litro nem sempre significa operação mais barata
O principal cuidado na análise econômica é comparar o custo para realizar o mesmo trabalho: por hora de operação, por hectare colhido ou por tonelada de cana transportada.
O etanol contém menos energia por litro que o diesel. Assim, dependendo do motor e da atividade, a máquina pode precisar de um volume maior de combustível para executar a mesma tarefa.
Em testes de dinamômetro apresentados no lançamento da Grunner, foi informada uma relação média de 2,2 litros de etanol para cada litro de diesel, considerando os motores avaliados pela empresa. Esse índice não deve ser aplicado automaticamente a outras marcas ou operações.
Para entender a conta, suponha que uma máquina tenha essa mesma relação de consumo e que o diesel custe R$ 6 por litro. Nesse exemplo, o etanol precisaria custar menos de aproximadamente R$ 2,73 por litro para que o gasto direto com combustível fosse menor.
O cálculo é ilustrativo e considera somente os combustíveis. Na decisão real, também entram o diesel eventualmente utilizado em sistemas dual fuel, o valor da adaptação ou da máquina nova, manutenção, armazenamento, abastecimento e tempo de retorno do investimento.
Para uma usina que produz etanol, há ainda um ponto relevante: consumir o combustível na própria frota significa abrir mão da receita que poderia ser obtida com sua venda. Esse custo de oportunidade também precisa entrar na comparação.
Brasil amplia oferta de etanol de cana e de milho
A expansão da produção brasileira ajuda a explicar o interesse da indústria de máquinas. Em agosto, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou que o país poderia produzir 41,88 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27, considerando o combustível de cana e de milho.
Desse total, a projeção para o etanol de milho era de 11,91 bilhões de litros, alta estimada de 17% em relação à temporada anterior. Os números são previsões e podem ser revistos ao longo da safra.
O avanço do etanol de milho amplia as possibilidades para regiões produtoras de grãos, especialmente no Centro-Oeste. Ainda assim, a disponibilidade próxima à fazenda, a infraestrutura de abastecimento e o preço de aquisição serão decisivos para a adoção em cada região.
A expansão também atrai investimentos para novas áreas produtoras. É o caso do projeto de uma usina de etanol de milho no Matopiba financiada pelo BNDES.
O que acontece no exterior?
O uso de etanol em veículos pesados não começou agora. Na Suécia, por exemplo, a Scania informou em 2019 a entrada em operação de um caminhão com motor de 13 litros abastecido com ED95, combustível composto principalmente por etanol e por aditivos que permitem seu uso em motores de ignição por compressão.
O veículo passou a ser utilizado no transporte de etanol para clientes no centro do país. Trata-se de uma aplicação diferente das máquinas agrícolas apresentadas no Brasil, mas que demonstra a possibilidade de uso do biocombustível em transporte pesado com tecnologia apropriada.
A experiência internacional também reforça que a expansão depende de abastecimento, disponibilidade do combustível adequado, manutenção especializada e viabilidade econômica para o operador.
Nos Estados Unidos, o biocombustível também tem importância na matriz energética. O Compre Rural acompanha os dados da produção de etanol norte-americana, que é baseada principalmente no processamento de milho.
Etanol reduz emissões, mas não torna a operação livre de carbono
O uso de combustível renovável pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa quando comparado ao diesel fóssil, mas etanol não significa emissão zero. Sua queima libera CO₂, e a avaliação ambiental precisa considerar também a produção da matéria-prima, a fabricação do combustível e o transporte.
O resultado varia conforme a origem do etanol, o processo produtivo e a quantidade de diesel substituída. Em sistemas dual fuel, a parcela de diesel que continua sendo consumida também precisa ser incluída na conta.
Para o agronegócio brasileiro, o potencial está em aproximar a produção de energia do consumo nas próprias operações. A próxima etapa será demonstrar, em condições reais de trabalho, quanto cada solução economiza por tonelada transportada ou por hora de máquina — e em quanto tempo o investimento retorna ao produtor.
Leia também: Gigante do etanol, Inpasa transforma milho em combustível, ração e alcança R$ 23 bilhões em receita.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.