Em Castro (PR), propriedade combina genética Holandesa, Compost Barn com ventilação cruzada e gestão de dados para sustentar uma produção diária que chama atenção na Rota do Leite do Agroleite 2026
Produzir 52 mil litros de leite por dia coloca a Fazenda Sempre Verde entre as operações de grande escala apresentadas durante o Agroleite 2026, em Castro, no Paraná. Mas o volume é apenas a parte mais visível de um sistema que reúne genética, conforto animal, controle ambiental e gestão de informações para conduzir o rebanho. A propriedade recebe visitantes nesta terça-feira, 4 de agosto, dentro da programação da Rota do Leite.
De propriedade de Douwe Jantinus Groenwold, a fazenda está localizada em Castrolanda e trabalha com animais da raça Holandesa confinados em Compost Barn com cross ventilation, ou ventilação cruzada. Na apresentação oficial da propriedade, a organização do Agroleite destaca ainda o elevado padrão genético do rebanho e a excelência na gestão de dados.
A combinação ajuda a entender como a pecuária leiteira mais tecnificada passou a ser administrada. Em propriedades desse porte, produzir mais não depende apenas do potencial de uma vaca ou da capacidade de um equipamento. Ambiente, sanidade, alimentação, reprodução e informação precisam funcionar como partes do mesmo sistema.
O que existe por trás dos 52 mil litros de leite por dia
O volume divulgado pela Sempre Verde impressiona, mas precisa ser interpretado corretamente. O Agroleite informa a produção total da propriedade em 52 mil litros diários, porém não apresenta publicamente o número de vacas em lactação. Dessa forma, não é possível determinar, a partir dos dados disponíveis, a produtividade média por animal.
O que a ficha técnica permite observar é a estrutura adotada para conduzir a atividade. Os animais Holandeses permanecem confinados em Compost Barn, enquanto a ventilação cruzada atua sobre as condições ambientais do galpão. Paralelamente, a fazenda mantém forte atenção à genética e ao acompanhamento de dados do rebanho.
São componentes diferentes, mas conectados. Uma vaca geneticamente preparada para alta produção precisa encontrar condições adequadas para expressar esse potencial. Quando conforto, alimentação ou sanidade falham, o desempenho pode ser comprometido.
Compost Barn vai muito além de colocar vacas sob um galpão
O Compost Barn é um sistema de alojamento no qual os animais dispõem de uma área coletiva de descanso coberta por material orgânico. A cama recebe fezes e urina e precisa ser revolvida e aerada para que as condições necessárias ao processo de compostagem sejam mantidas.
A Embrapa Gado de Leite descreve o sistema como uma alternativa voltada ao conforto dos animais e à manutenção de uma superfície seca para descanso, além do aproveitamento dos resíduos orgânicos produzidos pelo próprio rebanho.
É justamente no manejo dessa cama que está uma das diferenças entre simplesmente possuir a estrutura e fazê-la funcionar corretamente.
Pesquisa da Embrapa publicada em 2025 reforça que temperatura, umidade e aeração do substrato precisam ser controladas, pois essas variáveis interferem tanto no processo de compostagem quanto na qualidade microbiológica da cama.
Isso impede uma interpretação simplista do sistema. O Compost Barn pode favorecer conforto e desempenho, mas exige acompanhamento constante. Estudos recentes da Embrapa também alertam que a intensificação traz novos desafios sanitários, especialmente quando o ambiente não é manejado adequadamente.
Ventilação ajuda a proteger o desempenho do rebanho
Na Sempre Verde, o galpão utiliza cross ventilation, característica destacada na descrição oficial da Rota do Leite. A estratégia busca promover circulação controlada de ar no interior das instalações, aspecto especialmente relevante para animais de elevada produção.
O motivo está na própria fisiologia das vacas leiteiras. Condições de calor excessivo podem alterar comportamento, consumo de alimento e metabolismo e, consequentemente, afetar a produção.
Estudo da Embrapa sobre estresse térmico mostra que períodos de maior desconforto climático podem provocar redução do consumo alimentar e queda na produção de leite, com potencial de gerar perdas econômicas aos sistemas produtivos.
A instituição possui, inclusive, uma estrutura experimental de Compost Barn com conceito semelhante de movimentação forçada do ar. Nesse sistema, conhecido como “túnel de vento”, exaustores e resfriamento evaporativo são utilizados para controlar o ambiente interno.
Em acompanhamento realizado pela Embrapa, a temperatura máxima dentro desse galpão chegou a ficar 8,3°C abaixo da registrada no ambiente externo em uma das situações analisadas. No primeiro ano de funcionamento da estrutura experimental, a produtividade média do grupo acompanhado passou de 26,5 para 34,3 litros por vaca/dia.
Esses números pertencem ao experimento da Embrapa e não devem ser transferidos diretamente para a realidade da Sempre Verde. Eles servem para demonstrar por que o controle térmico se tornou uma ferramenta relevante em sistemas de leite intensivos.
52 mil litros de leite por dia com decisões orientadas por dados
Se o galpão representa a parte mais visível da tecnologia, outra característica mencionada pelo Agroleite acontece de forma menos perceptível: a gestão de dados.
A Sempre Verde é apresentada pela organização como uma propriedade que se destaca nesse quesito.
Em uma fazenda leiteira de grande escala, acompanhar o rebanho apenas pela observação já não é suficiente. Produção individual, histórico reprodutivo, qualidade do leite, ocorrências sanitárias e diferentes indicadores zootécnicos podem formar uma base capaz de orientar decisões antes que um problema adquira grandes proporções.
É aí que os dados deixam de ser apenas registros administrativos.
Quando bem utilizados, eles permitem comparar lotes, perceber mudanças de comportamento produtivo, acompanhar a evolução dos animais e direcionar a atenção da equipe para os pontos que realmente exigem intervenção.
Quanto maior o rebanho, maior tende a ser o custo de decisões tomadas tarde demais. Por isso, gestão e tecnologia caminham cada vez mais próximas dentro da pecuária leiteira intensiva.
A fazenda está no coração da produção leiteira brasileira
A presença de uma operação desse porte em Castro não ocorre por acaso.
Dados mais recentes disponíveis da Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, referentes a 2024, mostram que o Brasil produziu 35,7 bilhões de litros de leite naquele ano. Somente o Paraná respondeu por aproximadamente 4,6 bilhões de litros, equivalentes a 12,9% do total nacional.
Castro liderou o ranking municipal brasileiro com 484,4 milhões de litros, correspondentes a cerca de 1,4% da produção nacional. Logo depois apareceu Carambeí, também no Paraná, com 293,1 milhões de litros.
O resultado coloca a Sempre Verde dentro de um território onde a atividade alcançou alto grau de especialização. Além das propriedades, a cadeia regional reúne cooperativismo, assistência técnica, genética, nutrição, equipamentos e diferentes soluções direcionadas à produção leiteira.
Rota mostra fazendas de 6 mil a 64 mil litros por dia
A Sempre Verde é uma das dez propriedades selecionadas para a Rota do Leite do Agroleite 2026, realizada entre 4 e 7 de agosto. Segundo a organização, os sistemas visitados apresentam escalas diferentes e produções que variam de 6 mil a 64 mil litros de leite por dia.
Ainda nesta terça-feira, a Agropecuária Conde, de Marco Noordegraaf, integra a programação. A propriedade mantém animais Holandeses em Free Stall, utiliza ordenha em carrossel e registra produção diária informada de 24 mil litros.
Nos dias seguintes, o circuito passa por propriedades que utilizam ordenha convencional, carrossel, robôs e diferentes modelos de confinamento.
Um dos maiores volumes será apresentado na quinta-feira, 6 de agosto, na Agropecuária ARKAFLA, em Socavão. A fazenda trabalha com vacas Holandesas em Free Stall, ordenha em carrossel e tem produção declarada de 64 mil litros diários, a maior entre as propriedades listadas na edição de 2026 da rota.
A diversidade dos sistemas revela uma característica importante: não existe uma única estrutura capaz de definir uma fazenda eficiente.
Há propriedades usando Compost Barn, outras em Free Stall e unidades com sistemas semiconfinados. Da mesma maneira, a ordenha pode passar por estruturas convencionais, carrosséis ou robôs.
O desempenho nasce da maneira como cada tecnologia é incorporada ao conjunto da operação.
O que a fazenda de 52 mil litros de leite por dia ensina
Ao observar a Sempre Verde, talvez o principal aprendizado não esteja no número estampado na produção diária.
Os 52 mil litros de leite por dia ganham relevância porque estão associados a uma estrutura na qual diferentes áreas precisam trabalhar em equilíbrio. A genética amplia o potencial produtivo; o alojamento busca oferecer condições adequadas aos animais; a ventilação atua sobre o ambiente; e os dados ajudam a transformar aquilo que acontece diariamente no rebanho em informação para a gestão.
É justamente essa integração que vem redefinindo o significado de alta performance dentro da pecuária leiteira.
Em vez de procurar uma tecnologia milagrosa capaz de elevar sozinha os resultados da fazenda, os sistemas mais especializados mostram uma lógica diferente: produtividade consistente depende de uma sequência de decisões bem executadas, todos os dias.
E é esse modelo que os visitantes encontram nesta terça-feira na Sempre Verde, durante o Agroleite 2026, evento realizado de 3 a 7 de agosto, em Castro (PR), pela Cooperativa Castrolanda.
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.