Fundo prepara R$ 750 milhões para comprar terras e dívidas em meio à crise do agro

Gestora vê oportunidades na compra de propriedades rurais e créditos problemáticos enquanto aumento das recuperações judiciais amplia o volume de ativos sob pressão financeira

A crise financeira enfrentada por parte do agronegócio brasileiro abriu espaço para investidores especializados em ativos considerados mais arriscados. A Buri Asset está avançando em duas frentes: aquisição de terras agrícolas e compra de créditos de produtores e empresas que enfrentam dificuldades para cumprir seus compromissos.

As estratégias surgem em um período de maior pressão sobre o caixa no campo. Dados da Serasa Experian mostram que o agro contabilizou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 21,9% frente ao mesmo período de 2025. Mato Grosso liderou o levantamento, com 135 registros.

Terras entram no radar dos fundos

Na área fundiária, a Buri procura propriedades que possam ser adquiridas em condições consideradas atrativas e posteriormente valorizadas. Parte da estratégia envolve áreas de pastagem degradada que podem receber investimentos para conversão em lavoura.

Em agosto, o veículo reunia R$ 180 milhões entre propriedades aportadas e recursos de investidores. Mais de 80 fazendas, totalizando aproximadamente 95 mil hectares, já haviam sido apresentadas à gestora para análise ou negociação. O foco inicial está em Mato Grosso.

A própria Buri descreve sua tese de terras como uma estratégia de conversão de áreas subutilizadas em propriedades produtivas, associada à valorização fundiária e à gestão ativa dos ativos.

Créditos problemáticos viram oportunidade de investimento

A outra frente está nos chamados NPLs, créditos que apresentam atraso ou dificuldades de pagamento. Nesse mercado, fundos podem comprar a posição de um credor com desconto e assumir a negociação, reestruturação ou cobrança da dívida.

Em março, a Buri informou possuir R$ 90 milhões em uma estrutura de créditos estressados. Outro veículo tinha R$ 50 milhões comprometidos por investidores para novas operações. Segundo a gestora, havia inclusive procura de Fiagros interessados em vender créditos problemáticos e recuperar liquidez.

A estratégia não significa que toda dívida rural resulte na perda de uma fazenda. O resultado depende das garantias, capacidade de pagamento, negociação entre as partes e eventual processo judicial. Para os fundos, o risco também é relevante: comprar um crédito com desconto não garante que o valor será recuperado integralmente.

Crise financeira aumenta oferta de ativos

O interesse de investidores está diretamente relacionado ao avanço das dificuldades financeiras no setor. Em todo o ano de 2025, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio, alta de 56,4% sobre 2024 e maior número da série histórica da Serasa Experian, iniciada em 2021.

Esse ambiente ajuda a explicar por que terras, garantias e créditos que antes permaneceriam nas carteiras dos credores passaram a atrair gestores especializados.

Para o produtor, o movimento reforça a necessidade de acompanhar endividamento, garantias oferecidas e capacidade futura de pagamento. Para o mercado financeiro, representa uma nova etapa na relação entre capital institucional e patrimônio rural, com investidores procurando oportunidades justamente onde a falta de liquidez e o endividamento aumentaram o desconto exigido para fechar negócios.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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