Fungos podem ser a chave para cultivar alimentos em Marte

Microrganismos capazes de ampliar a absorção de nutrientes e ajudar plantas a enfrentar ambientes extremos entram no radar da agricultura espacial; pesquisa com participação brasileira mostra por que transformar o “solo” marciano pode ser tão importante quanto escolher o que plantar.

Cultivar alimentos em Marte talvez dependa menos de encontrar uma planta extraordinariamente resistente e mais de reconstruir uma relação que sustenta a agricultura há milhões de anos na Terra. Pesquisadores estão voltando a atenção para fungos benéficos capazes de se associar às raízes e ampliar a capacidade das plantas de explorar nutrientes, abrindo uma possibilidade até pouco tempo restrita a experimentos terrestres: transformar parte do material mineral marciano em um ambiente biologicamente mais favorável ao cultivo.

Uma revisão publicada em 2026 na revista Frontiers in Astronomy and Space Sciences, com participação de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, aponta os fungos micorrízicos arbusculares como candidatos promissores para futuras estratégias agrícolas na Lua e em Marte. Esses organismos vivem associados às raízes das plantas e funcionam, na prática, como uma extensão do sistema radicular, ajudando na obtenção de nutrientes e aumentando a tolerância a diferentes formas de estresse ambiental.

A proposta está longe de significar que astronautas poderão simplesmente despejar sementes sobre a superfície marciana.

O desafio é justamente o contrário.

Marte não possui um solo agrícola como conhecemos na Terra.

O material que cobre sua superfície é chamado de regolito: uma mistura mineral formada pela fragmentação de rochas, praticamente sem matéria orgânica e sem a complexa comunidade biológica que transforma o solo terrestre em um ambiente capaz de sustentar lavouras.

É nesse vazio biológico que os fungos podem ganhar importância.

O problema não é apenas plantar — é construir um solo

Na agricultura terrestre, uma lavoura depende de muito mais do que água, luz e fertilizantes.

Um hectare de solo produtivo contém uma complexa rede formada por fungos, bactérias, raízes, matéria orgânica e minerais. Parte significativa da nutrição vegetal depende justamente das interações entre esses componentes.

Em Marte, esse sistema simplesmente não existe.

Os pesquisadores descrevem o regolito extraterrestre como um substrato mineral sem microbiota, no qual elementos importantes para as plantas podem existir, mas nem sempre estão disponíveis em formas facilmente absorvíveis.

Os fungos micorrízicos entram nessa equação porque estabelecem uma simbiose com as plantas.

A planta fornece compostos ricos em carbono ao fungo. Em troca, as estruturas microscópicas do organismo avançam pelo substrato muito além do alcance das raízes, explorando minerais e aumentando a superfície efetiva de absorção.

Na Terra, essa relação está associada principalmente à melhora na aquisição de nutrientes, como fósforo, além de ajudar determinadas plantas a lidar melhor com condições de seca, salinidade, deficiência nutricional e presença de alguns metais.

Em um ambiente extremo, essa eficiência pode deixar de ser apenas uma vantagem agronômica e passar a ser condição para a sobrevivência da cultura.

Experimentos já mostram que a associação é possível

A hipótese não está baseada apenas em modelos teóricos.

Em um estudo publicado em 2026, pesquisadores cultivaram tomates durante 45 dias utilizando um material análogo ao regolito marciano.

O experimento envolveu 240 plantas e avaliou, entre outros fatores, a presença de fungos micorrízicos arbusculares e bactérias promotoras de crescimento vegetal.

Um dos resultados mais relevantes foi a capacidade dos fungos de colonizar as raízes mesmo em um substrato com características minerais próximas às esperadas em Marte.

Nos tratamentos avaliados, houve colonização micorrízica de aproximadamente 25% em algumas plantas, mostrando que a presença de elementos como ferro e alumínio não impediu a formação da associação entre fungos e raízes.

Mas o trabalho também mostrou os limites da estratégia.

A inoculação dos fungos, sozinha, não gerou aumento estatisticamente significativo do crescimento dos tomates.

Os melhores resultados apareceram quando as plantas receberam solução nutritiva. Nesses tratamentos, o comprimento da parte aérea chegou a crescer cerca de 100% em relação a alguns grupos de comparação.

Isso muda bastante a interpretação da pesquisa.

Os fungos podem fazer parte da solução — mas não substituem a necessidade de administrar nutrientes, água, ambiente e características químicas do substrato.

O obstáculo chamado perclorato

Existe ainda um problema muito maior.

O regolito de Marte contém percloratos, sais que podem ser tóxicos tanto para plantas quanto para seres humanos.

No experimento com tomates, 120 plantas cultivadas no material análogo contaminado com 1% de perclorato morreram em menos de duas semanas. As outras 120 plantas, cultivadas sem essa contaminação, sobreviveram.

Esse dado ajuda a desmontar uma visão simplificada da agricultura marciana.

Antes de transformar áreas de Marte em algum tipo de sistema produtivo, cientistas provavelmente terão de encontrar maneiras de reduzir ou neutralizar compostos tóxicos, além de tornar nutrientes disponíveis às plantas.

A própria NASA financia pesquisas sobre a utilização de microrganismos para reduzir percloratos em simuladores de regolito marciano e, ao mesmo tempo, criar matéria orgânica e melhorar as condições para o desenvolvimento vegetal.

Em outras palavras, a agricultura espacial poderá começar muito antes do plantio.

O primeiro trabalho pode ser microbiológico: transformar um material mineral hostil em algo progressivamente parecido com um solo funcional.

Fungos poderiam trabalhar como “engenheiros” do regolito

É justamente nesse processo que os pesquisadores enxergam uma oportunidade maior.

Determinados fungos conseguem liberar substâncias capazes de alterar minerais, mobilizar elementos presentes nas rochas e modificar gradualmente o substrato ao redor das raízes.

O princípio lembra processos que já ocorrem naturalmente na Terra durante a formação dos solos.

Ao longo do tempo, microrganismos participam do intemperismo das rochas, ajudam a liberar nutrientes e contribuem para o acúmulo de matéria orgânica.

Em Marte, uma versão tecnologicamente controlada desse fenômeno poderia fazer parte do que cientistas chamam de utilização de recursos in situ: usar materiais disponíveis no próprio planeta em vez de transportar todos os insumos a partir da Terra.

Essa diferença é estratégica.

Cada quilo de fertilizante, substrato, alimento ou equipamento levado para uma missão interplanetária representa massa adicional, energia e custo.

Quanto mais uma futura base espacial conseguir produzir com os recursos disponíveis no destino, menor será sua dependência logística do planeta de origem.

Pesquisas na Lua reforçam a possibilidade

Outro experimento publicado em março de 2026 trouxe um resultado particularmente interessante.

Pesquisadores utilizaram grão-de-bico, fungos micorrízicos e vermicomposto em simulador de regolito lunar. Plantas inoculadas com os fungos conseguiram produzir sementes em misturas que continham até 75% de material semelhante ao regolito lunar.

Mesmo quando cultivadas em 100% de simulador de regolito, plantas inoculadas permaneceram vivas, em média, cerca de duas semanas além das plantas não inoculadas.

O resultado não significa que o cultivo comercial no espaço esteja próximo.

Mas mostra que a relação planta-fungo continua funcionando mesmo quando grande parte do substrato apresenta características completamente diferentes de um solo agrícola convencional.

É exatamente essa capacidade de adaptação que interessa aos programas espaciais.

Agricultura marciana provavelmente será um sistema fechado

A imagem de uma lavoura crescendo ao ar livre em Marte continua pertencendo mais à ficção científica do que à agronomia.

A atmosfera marciana é extremamente rarefeita, as temperaturas são baixas, existe intensa radiação e a disponibilidade de água líquida é limitada.

Por isso, os primeiros sistemas agrícolas destinados a alimentar pessoas em Marte provavelmente seriam instalados em ambientes protegidos e pressurizados, com controle de temperatura, iluminação, água e nutrientes.

A NASA já pesquisa há décadas sistemas hidropônicos e câmaras de produção vegetal para missões de longa duração. A agência reconhece que transportar toda a alimentação necessária em missões prolongadas pode se tornar logisticamente inviável, aumentando a importância de sistemas que produzam parte dos alimentos no próprio destino.

Em setembro de 2026, o tema voltou ao centro da agenda da agência.

A NASA anunciou os vencedores do Deep Space Food Challenge: Mars to Table, competição destinada justamente ao desenvolvimento de sistemas alimentares para missões espaciais. O projeto vencedor propôs uma estrutura modular combinando agricultura em ambiente controlado, fermentação, cultivo de fungos e reciclagem de nutrientes, com o objetivo conceitual de produzir metade dos alimentos necessários longe da Terra.

A coincidência não é pequena.

Enquanto uma frente científica tenta entender como os fungos podem ajudar as raízes a explorar um substrato extraterrestre, outra analisa como esses mesmos organismos podem participar diretamente da produção e reciclagem de alimentos.

Até resíduos da própria missão podem alimentar fungos

Uma terceira linha de pesquisa amplia ainda mais essa possibilidade.

Cientistas do Centro Aeroespacial Alemão demonstraram recentemente que determinados fungos filamentosos conseguem crescer utilizando meios formulados a partir de resíduos produzidos em ambientes espaciais, além de gerar ácidos orgânicos potencialmente úteis em processos de biotecnologia e mineração de minerais.

Essa abordagem tenta aproximar a agricultura espacial de um sistema circular.

Restos orgânicos poderiam alimentar microrganismos.

Os microrganismos ajudariam a produzir compostos ou processar minerais.

Os minerais poderiam fornecer nutrientes às plantas.

As plantas produziriam alimentos e novos resíduos.

Para uma missão distante milhões de quilômetros da Terra, fechar esse ciclo não é apenas uma questão ambiental. É uma questão logística.

Existe um elo direto com a agricultura terrestre

Apesar do aspecto futurista, boa parte da ciência necessária para cultivar alimentos em Marte nasceu dos mesmos problemas enfrentados todos os dias pela agricultura terrestre.

Produtores já utilizam inoculantes, microrganismos promotores de crescimento, produtos biológicos e fungos micorrízicos para melhorar o aproveitamento de nutrientes e aumentar a eficiência do sistema produtivo.

O avanço da agricultura em ambientes extremos reforça uma tendência que também está em curso no Brasil: a busca por maior eficiência biológica do solo, reduzindo a dependência exclusiva de insumos externos.

A pesquisa espacial leva esse conceito ao limite.

Em Marte, simplesmente importar toneladas de fertilizantes todos os anos provavelmente não seria uma alternativa economicamente viável.

Na Terra, reduzir desperdícios e aumentar a capacidade das plantas de utilizar nutrientes disponíveis já representa uma vantagem econômica.

Por isso, tecnologias estudadas para ambientes extraterrestres podem também gerar conhecimento aplicável a solos pobres, degradados, salinos ou submetidos a estresses severos no próprio planeta.

Os autores da revisão publicada pela Frontiers destacam justamente que estudos com fungos capazes de atuar em regolito podem contribuir também para estratégias agrícolas mais sustentáveis em ambientes terrestres de baixa fertilidade.

O que ainda falta provar

Apesar dos resultados, existe uma limitação importante: praticamente todos esses experimentos foram realizados com simuladores ou materiais análogos ao regolito, produzidos na Terra.

Eles tentam reproduzir determinadas características físicas e químicas do material extraterrestre, mas não são exatamente iguais ao regolito encontrado em Marte ou na Lua.

Os próprios pesquisadores defendem que uma das próximas etapas será avaliar essas relações com materiais extraterrestres reais quando isso se tornar tecnicamente possível.

Também será necessário estudar como fungos, plantas e bactérias se comportam sob condições combinadas de menor gravidade, radiação, atmosfera modificada e ciclos prolongados de produção.

É uma diferença crucial entre mostrar que uma planta consegue crescer por algumas semanas em laboratório e desenvolver um sistema agrícola estável capaz de alimentar seres humanos durante anos.

O futuro pode começar pelas raízes

As primeiras lavouras fora da Terra provavelmente serão muito diferentes das grandes áreas agrícolas conhecidas hoje.

Podem ocupar módulos fechados, utilizar água quase integralmente reciclada e depender de iluminação artificial, sensores, automação e sistemas biológicos cuidadosamente selecionados.

Mas um elemento fundamental poderá ser exatamente o mesmo encontrado sob os pés de qualquer produtor rural.

A relação entre raízes e microrganismos.

Depois de décadas tentando descobrir quais plantas seriam capazes de sobreviver em outros planetas, a ciência começa a olhar com mais atenção para algo que a agricultura terrestre já conhece bem: uma planta dificilmente trabalha sozinha.

Se humanos algum dia conseguirem produzir parte relevante de seus alimentos em Marte, talvez as primeiras grandes aliadas dessa agricultura não sejam máquinas futuristas.

Podem ser organismos microscópicos que já ajudam lavouras a crescer aqui na Terra há milhões de anos.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM