PF mira fazenda no Pantanal após fogo atingir 4 mil hectares; dano é estimado em R$ 140 milhões

Operação Pecus Exploratio apura incêndio, possível grilagem de terras da União e falsidade documental; Justiça também determinou restrições sobre o rebanho e cerca de R$ 6 milhões em contas dos investigados

Uma fazenda no Pantanal sul-mato-grossense entrou no centro de uma investigação da Polícia Federal depois que uma perícia constatou que mais de 4 mil hectares da propriedade foram atingidos pelo fogo. A Operação Pecus Exploratio, deflagrada nesta quinta-feira, 24 de setembro, apura possíveis crimes relacionados a incêndio, grilagem de terras pertencentes à União e falsidade de documentos públicos. O dano ambiental calculado no âmbito da investigação é de aproximadamente R$ 140 milhões.

A ofensiva alcançou Mato Grosso do Sul e o Rio de Janeiro e veio acompanhada de medidas patrimoniais determinadas pela Justiça Federal em Corumbá. Além das buscas, houve sequestro de recursos financeiros dos investigados e restrição sobre o gado mantido na propriedade. Até agora, porém, a PF não tornou públicos detalhes que permitam atribuir individualmente as condutas investigadas aos alvos da operação. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Operação no Pantanal cumpriu cinco mandados em três cidades

A Polícia Federal cumpriu cinco mandados de busca e apreensão. Dois foram executados em Corumbá, outros dois em Campo Grande e um no Rio de Janeiro. Durante as diligências, foram recolhidos documentos e aparelhos celulares.

Esse material ainda será submetido a análise. Segundo a corporação, uma das finalidades é esclarecer a relação entre as pessoas investigadas e verificar se existem outros possíveis envolvidos.

A operação nasceu de diligências relacionadas à propagação de queimadas no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Foi no decorrer dessa apuração que a perícia delimitou uma área superior a 4 mil hectares atingida pelas chamas dentro da fazenda alvo.

Em dimensão territorial, isso representa mais de 40 quilômetros quadrados. A conversão ajuda a demonstrar a escala da área apontada pela perícia, mas não permite, isoladamente, concluir qual foi a intensidade do fogo em cada trecho nem quais tipos de vegetação foram afetados.

Incêndio em fazenda no Pantanal tem dano estimado em R$ 140 milhões

O número de maior impacto econômico divulgado nesta quinta-feira é a estimativa de R$ 140 milhões em dano ambiental. O valor é atribuído pela Polícia Federal à perícia realizada durante a investigação.

A divulgação oficial, entretanto, não apresenta o laudo completo nem detalha a composição do cálculo. Por isso, não é possível afirmar, neste momento, quanto do valor corresponde a danos à vegetação, ao solo, à fauna ou a outros componentes ambientais.

Essa distinção é relevante. Uma estimativa de dano ambiental não corresponde necessariamente ao valor comercial da terra, à perda de pastagem ou ao prejuízo produtivo de uma fazenda. Trata-se de uma avaliação ligada aos impactos ambientais identificados pelos peritos, cujos critérios específicos ainda não foram divulgados neste caso.

O Pantanal já registrou episódios de grandes perdas ambientais e econômicas provocadas pelo fogo. Em 2024, levantamento divulgado pelo Governo de Mato Grosso do Sul indicou prejuízos superiores a R$ 17 milhões para a agropecuária pantaneira em meio à forte temporada de queimadas daquele ano, assunto abordado pelo Compre Rural em Queimadas no Pantanal: prejuízos no agro superam R$ 17 milhões.

Justiça torna gado indisponível e sequestra cerca de R$ 6 milhões

A investigação ganhou um componente diretamente ligado à atividade pecuária. A Justiça Federal em Corumbá determinou a indisponibilidade do gado existente na fazenda investigada, além do sequestro de aproximadamente R$ 6 milhões depositados em contas bancárias dos investigados.

A PF não informou quantos animais estão submetidos à decisão nem estimou o valor do rebanho. Também não divulgou o inteiro teor da ordem judicial.

Os R$ 6 milhões não devem ser confundidos com os R$ 140 milhões de dano ambiental estimado. São informações de naturezas diferentes: um valor corresponde à avaliação ambiental divulgada pela investigação; o outro, aos recursos atingidos por uma medida judicial sobre o patrimônio dos investigados.

Para a pecuária, a situação mostra como investigações ambientais e fundiárias podem ultrapassar a discussão sobre a área física de uma propriedade e alcançar animais e ativos financeiros, dependendo das medidas autorizadas pela Justiça.

Grilagem de terras da União também está sob investigação

A Pecus Exploratio não se limita à origem e aos efeitos das queimadas. A Polícia Federal também apura grilagem de terras pertencentes à União e falsidade de documentos públicos.

Neste ponto, é necessário separar suspeita de conclusão. A nota oficial não detalha quais documentos são questionados, que extensão da propriedade estaria relacionada a terras públicas nem qual teria sido a atuação de cada investigado.

Corumbá já apareceu recentemente em outra investigação federal envolvendo questões fundiárias e ambientais. Em 19 de agosto de 2026, a PF deflagrou a Operação Estação Final para apurar desmatamento aparentemente não autorizado em área da União e o suposto emprego de documentação falsa. A corporação não estabeleceu publicamente relação entre essa investigação e a Pecus Exploratio.

O histórico regional inclui ainda casos de maior dimensão. Em 2024, a Operação Prometeu investigou exploração irregular de terras públicas e incêndios em uma área superior a 6,4 mil hectares de Corumbá. O caso posteriormente deu origem a uma ação em que a Advocacia-Geral da União passou a cobrar R$ 725 milhões por danos ambientais, situação já acompanhada pelo Compre Rural em Governo cobra R$ 725 milhões de produtores por danos ambientais no Pantanal.

Não há informação oficial de que os investigados, propriedades ou fatos daquele processo sejam os mesmos da operação deflagrada nesta quinta-feira.

Pantanal entrou em 2026 com alerta para risco de incêndios

O caso aparece em um ano no qual órgãos de Mato Grosso do Sul já vinham reforçando a atenção sobre o fogo no bioma. Em janeiro, o Corpo de Bombeiros Militar do Estado informou que a combinação entre vegetação recuperada após os incêndios de 2024 e períodos prolongados de pouca chuva aumentava a preocupação para 2026.

Isso não significa que essas condições expliquem o incêndio investigado pela Pecus Exploratio. A PF ainda não tornou pública a causa das chamas na fazenda nem informou se trabalha com uma hipótese específica de origem do fogo.

O histórico recente ajuda, contudo, a dimensionar a vulnerabilidade da região. Em outro caso registrado em Corumbá, proprietários foram autuados pelo Ibama após um incêndio iniciado em uma propriedade alcançar extensa área do Pantanal. O episódio foi relatado pelo Compre Rural na matéria Ibama aplica multa de R$ 100 milhões a fazendeiros por incêndios no Pantanal.

Caso reforça atenção sobre documentação e gestão da propriedade

Para quem produz no campo, a Pecus Exploratio chama atenção não apenas pelo tamanho da área atingida, mas pela combinação de questões ambientais, fundiárias, documentais e patrimoniais dentro de uma mesma investigação.

A regularidade da documentação da propriedade, a origem e a situação jurídica das áreas exploradas e o cumprimento das normas ambientais podem se tornar elementos decisivos quando há fiscalização ou investigação envolvendo terras públicas.

No caso específico desta quinta-feira, ainda não há base pública suficiente para afirmar que os investigados cometeram os crimes mencionados pela PF. Os mandados de busca servem justamente para aprofundar a coleta de provas, e os materiais apreendidos ainda serão examinados.

Documentos e celulares podem definir os próximos passos da apuração

A análise de celulares e documentos recolhidos durante as buscas passa agora a ser uma das frentes centrais da investigação. A PF informou que pretende utilizar esse material para esclarecer os vínculos entre os investigados e identificar possíveis outros envolvidos.

Permanecem abertas questões relevantes: quem são os investigados, qual é a fazenda atingida, quando ocorreu o incêndio, como o fogo começou, qual a quantidade de gado indisponibilizada e quais critérios técnicos compõem os R$ 140 milhões atribuídos ao dano ambiental.

Enquanto essas informações não forem tornadas públicas, a Operação Pecus Exploratio deve ser tratada como uma investigação em andamento, sem antecipação de culpa. Os próximos resultados periciais e eventuais decisões judiciais deverão indicar até onde chegam as responsabilidades apuradas no caso.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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