Mais da metade dos cavalos consome menos sal que o necessário mesmo com oferta à vontade

Estudo com cavalos adultos encontrou enorme diferença individual no consumo, de apenas 2 a 135 gramas por dia, e indica que simplesmente deixar sal disponível pode não garantir o atendimento das exigências de sódio.

Um bloco de sal permanentemente disponível no cocho costuma transmitir ao criador a sensação de que uma das necessidades minerais mais básicas do cavalo está resolvida. Uma pesquisa publicada em 2026, porém, mostra que essa segurança pode ser enganosa. Nove dos 16 cavalos avaliados não consumiram voluntariamente sal suficiente para atender às exigências nutricionais de sódio, mesmo tendo acesso contínuo ao produto.

O resultado chama atenção menos por colocar em dúvida o bloco de sal — o estudo não faz isso — e mais por revelar o tamanho da diferença de comportamento entre os próprios animais. Durante o experimento, o consumo médio individual oscilou de apenas 2 gramas a 135 gramas de sal por dia. Em outras palavras, dois cavalos submetidos a condições semelhantes e com o mesmo produto disponível podem apresentar ingestões completamente diferentes.

Para criatórios, centros de treinamento, haras e propriedades onde os animais trabalham sob temperaturas elevadas, o achado reforça uma questão prática: oferecer sal e confirmar que o cavalo consome a quantidade necessária são duas coisas diferentes.

Pesquisa comparou sal em bloco e sal solto

O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Departamento de Ciências Animais da Colorado State University, nos Estados Unidos, e publicado no Journal of Equine Veterinary Science. Participaram 16 cavalos adultos em trabalho moderado, acompanhados durante quatro períodos consecutivos de sete dias.

Os animais receberam alternadamente sal branco comum na forma de bloco comprimido e sal solto, permitindo aos pesquisadores avaliar se a apresentação do produto modificaria significativamente o consumo.

Na média, houve uma tendência de maior ingestão quando o sal foi oferecido solto: aproximadamente 41 gramas por animal/dia, diante de 32 gramas/dia no bloco. Estatisticamente, entretanto, a diferença entre as duas formas não foi considerada significativa.

Esse detalhe muda a interpretação do resultado.

A pesquisa não demonstrou que cavalos sejam incapazes de obter sal suficiente a partir de blocos nem que o sal solto necessariamente resolva o problema. O fator que realmente apresentou efeito significativo foi o próprio indivíduo. Cada cavalo mostrou um padrão particular de consumo.

Nove de 16 animais ficaram abaixo da necessidade

Considerando a contribuição da dieta básica, nove dos 16 cavalos ainda não atingiram voluntariamente a quantidade necessária para suprir suas exigências de sódio.

Para um cavalo de aproximadamente 500 quilos, os autores utilizaram como referência cerca de 25 gramas de sal por dia para complementar a dieta e atender às necessidades de sódio e cloreto nas condições avaliadas.

É importante observar que essa quantidade não deve ser transformada em uma recomendação fixa para todos os animais.

A necessidade pode variar conforme peso, dieta, intensidade de exercício, quantidade de suor, temperatura ambiente, condição fisiológica e composição dos demais alimentos fornecidos. Animais submetidos a treinamento intenso ou que transpiram muito exigem atenção ainda maior ao equilíbrio eletrolítico.

O ponto central do trabalho é justamente outro: a ingestão voluntária não é suficientemente uniforme para que o produtor presuma que todos os cavalos atenderão sozinhos às próprias necessidades apenas porque existe sal disponível.

O maior problema pode estar no cavalo que quase não toca no sal

A amplitude observada na pesquisa ajuda a explicar a preocupação.

Enquanto um dos animais apresentou consumo médio próximo de 135 gramas por dia, outros ficaram muito abaixo disso. Excluindo o cavalo de maior ingestão, os demais apresentaram médias entre aproximadamente 2 e 84 gramas/dia.

Isso significa que olhar simplesmente para a existência do bloco no cocho pouco informa sobre a ingestão individual.

Em propriedades com vários animais, outro problema aparece: perceber visualmente que o bloco está diminuindo não necessariamente permite identificar qual cavalo está consumindo e quanto cada indivíduo ingeriu.

Essa diferença pode ganhar importância especialmente em cavalos atletas, de vaquejada, três tambores, hipismo, enduro, trabalho com gado e outras atividades nas quais a sudorese aumenta as perdas de eletrólitos.

Sal não serve apenas para estimular o consumo de água

Sódio e cloreto participam de funções fisiológicas essenciais. O sódio está envolvido, entre outros processos, na regulação dos fluidos corporais, transmissão nervosa e funcionamento muscular.

Dietas baseadas predominantemente em forragens normalmente fornecem relativamente pouco sódio, razão pela qual a suplementação com sal é uma prática tradicional na criação de cavalos. O próprio estudo destaca que a forragem pode contribuir para atender às necessidades de cloreto, mas geralmente não fornece sódio suficiente sozinha.

Pesquisas anteriores também já apontavam grande variação individual. Um trabalho com cavalos atletas mostrou diferenças expressivas na ingestão voluntária de sódio mesmo entre animais submetidos à mesma alimentação, além de relação entre ingestão de sódio e regulação de líquidos e eletrólitos.

Portanto, o problema não surgiu agora. O estudo de 2026 acrescenta uma informação particularmente útil ao manejo ao comparar diretamente duas formas comuns de fornecimento e mostrar que trocar simplesmente o bloco pelo sal solto não elimina a variabilidade entre os indivíduos.

Bloco de sal continua sendo uma ferramenta válida

Outro cuidado importante é evitar uma conclusão precipitada de que o bloco de sal deixou de ser recomendado.

Não foi isso que os pesquisadores encontraram.

Embora os animais tenham apresentado tendência a consumir mais sal solto, a forma de apresentação não produziu diferença estatisticamente significativa na ingestão. O estudo questiona muito mais a prática de deixar o produto disponível e presumir que todos os animais irão regular perfeitamente o próprio consumo.

Há também evidências anteriores de que cavalos aceitam diferentes tipos de blocos. Pesquisa publicada em 2024 avaliou preferências entre sal branco comum, mineralizado, com selênio e sal do Himalaia. Os animais demonstraram preferência pelo sal branco em relação ao Himalaia, mas não apresentaram diferenças claras entre várias das demais combinações.

O conjunto dessas pesquisas sugere que preferência, apresentação e principalmente comportamento individual precisam ser considerados no manejo.

O que o criador deve observar na prática

A principal consequência do estudo é transformar o fornecimento de sal de uma tarefa automática em um ponto efetivamente acompanhado da nutrição.

Animais que praticamente não utilizam o bloco, cavalos submetidos a exercício intenso ou indivíduos com grandes perdas de suor merecem acompanhamento mais cuidadoso. Quando a ingestão voluntária é insuficiente, os próprios pesquisadores recomendam que o sal seja fornecido junto à ração diária, permitindo maior controle sobre a quantidade efetivamente ingerida.

Isso não significa despejar quantidades arbitrárias de sal no concentrado. A suplementação precisa considerar a dieta total, a quantidade de sódio já fornecida pelos alimentos, o nível de exercício e as características individuais do cavalo.

Outro ponto é manter água limpa e fresca permanentemente disponível, especialmente quando há suplementação de sal e em períodos de calor ou exercício.

Em cavalos de alta performance, nos quais as perdas pelo suor podem ser muito superiores às de animais mantidos em condições leves, o planejamento nutricional pode exigir avaliação específica de eletrólitos, não apenas de cloreto de sódio.

Estudo é importante, mas não permite generalizar todos os cavalos

Como toda pesquisa experimental, o trabalho também precisa ser interpretado dentro de seus limites.

A amostra envolveu 16 animais, número suficiente para identificar diferenças dentro daquele experimento, mas pequeno para afirmar que exatamente 56% de toda a população mundial de cavalos consome sal abaixo da necessidade.

Por isso, a conclusão cientificamente mais correta não é dizer que “56% de todos os cavalos têm deficiência de sal”.

O que o estudo demonstra é que, na população avaliada, mais da metade não atingiu espontaneamente a ingestão recomendada, e que houve uma variação individual muito grande mesmo com acesso livre ao suplemento.

Esse achado é suficiente para colocar em dúvida uma prática bastante difundida: considerar a presença de um bloco no cocho como garantia de atendimento nutricional.

A disponibilidade não garante o consumo

O resultado da Colorado State University traz uma mensagem simples, mas relevante para a rotina dos criatórios: manejo nutricional não termina no momento em que o suplemento é colocado à disposição do animal.

O cavalo precisa efetivamente consumi-lo.

Mais do que escolher entre bloco ou sal solto, o desafio é conhecer o comportamento de cada indivíduo, acompanhar sua dieta, considerar sua carga de trabalho e identificar aqueles que espontaneamente consomem pouco.

Para uma espécie na qual desempenho esportivo, contração muscular, equilíbrio hídrico e recuperação estão diretamente relacionados à disponibilidade adequada de eletrólitos, essa diferença pode deixar de ser apenas nutricional e se transformar em uma questão de saúde, bem-estar e desempenho.

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