Gigante dos hambúrgueres ampliou em 11% suas compras de carne australiana em dois anos; demanda envolve restaurantes locais e produto destinado a operações internacionais da rede
Poucas empresas no mundo conseguem transformar uma decisão de compra em uma demanda equivalente à produção de milhares de bovinos. Na Austrália, o tamanho dessa relação ficou ainda mais evidente: o McDonald’s comprou 89 mil toneladas de carne bovina australiana em 2025, consolidando-se como o maior cliente individual da proteína produzida no país.
Os números foram divulgados pelo McDonald’s em sua lista bienal de compras de matérias-primas e apresentados nesta semana pelo Beef Central, publicação australiana especializada no mercado pecuário. Segundo a fonte original, o volume inclui tanto a carne destinada aos restaurantes australianos quanto produtos utilizados nas operações internacionais da companhia.
O dado chama atenção não apenas pelo tamanho. Em apenas dois anos, as compras cresceram 9 mil toneladas, ou 11%. Em 2023, haviam alcançado 80 mil toneladas.
A dimensão da operação ajuda a mostrar como grandes redes globais de alimentação se tornaram importantes agentes da cadeia pecuária — capazes de conectar o bovino criado nas fazendas australianas a consumidores localizados a milhares de quilômetros de distância.
Parte da carne australiana abastece restaurantes em outros países
As 89 mil toneladas adquiridas em 2025 não ficaram exclusivamente na Austrália.
Segundo o Beef Central, o volume contempla o abastecimento dos restaurantes locais e também hambúrgueres congelados e aparas bovinas destinados às operações do McDonald’s no exterior.
A divisão detalhada referente a 2025 não foi divulgada, mas os números anteriores ajudam a dimensionar essa operação.
Em 2023, das 80 mil toneladas compradas naquele ano, 36 mil toneladas foram consumidas pelos restaurantes australianos e 44 mil toneladas tiveram como destino outras partes do mundo. Parte saiu da Austrália já na forma de hambúrgueres; outra parcela foi exportada como aparas congeladas para moagem e processamento no exterior.
De acordo com uma fonte próxima às operações de compras da companhia ouvida pelo Beef Central, normalmente entre 40% e 45% das compras australianas de carne bovina do McDonald’s são destinadas ao mercado doméstico.
Em 2026, essa participação estaria próxima do limite inferior da faixa. Um dos motivos é a forte procura norte-americana por carne magra diante da menor produção bovina dos Estados Unidos.
Estados Unidos aumentam pressão sobre a carne australiana
Esse movimento ganha relevância porque os Estados Unidos atravessam um período de forte necessidade de carne bovina importada, especialmente matéria-prima magra utilizada na produção de carne moída.
No acumulado citado pelo Beef Central, as exportações australianas de carne bovina para os Estados Unidos já haviam ultrapassado 291 mil toneladas em 2026, avanço de 18% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Para uma empresa como o McDonald’s, esse cenário é particularmente importante. O hambúrguer exige fornecimento em enorme escala, regularidade, especificações industriais e padronização — fatores que tornam grandes fornecedores internacionais estratégicos para manter o abastecimento da rede.
McDonald’s também cresceu dentro da Austrália
Não foi apenas a exportação que ajudou a elevar a necessidade de carne.
A própria estrutura do McDonald’s no mercado australiano cresceu. Em 2019, a companhia operava 970 restaurantes na Austrália. Em julho de 2026, esse número havia chegado a 1.078 unidades, crescimento de aproximadamente 11%.
Naquele mesmo ano de 2019, somente o consumo doméstico de carne bovina da companhia era de 31,9 mil toneladas.
A expansão das lojas, portanto, ajuda a explicar por que a demanda estrutural da rede por matéria-prima australiana continua elevada.
Nos EUA, consumo chega a outro patamar
Se as 89 mil toneladas australianas já impressionam, o tamanho da operação norte-americana revela uma escala ainda maior.
Em 2023, o McDonald’s informou ter comprado 325 mil toneladas de carne bovina nos Estados Unidos, considerando produto doméstico e carne congelada importada.
Segundo o cálculo apresentado pelo Beef Central, esse volume seria equivalente a aproximadamente 2,86 bilhões de hambúrgueres de um quarto de libra, considerando o peso antes do cozimento.
A comparação ajuda a dimensionar por que a disponibilidade de carne bovina nos Estados Unidos influencia fornecedores muito além de suas fronteiras. Quando a produção norte-americana diminui, a necessidade de importação pode aumentar e ampliar a disputa internacional por determinados tipos de matéria-prima.
Compras australianas passam de A$ 1 bilhão
A carne bovina faz parte de uma estrutura de fornecimento muito maior.
Em 2025, o McDonald’s Austrália gastou mais de 1 bilhão de dólares australianos em produtos frescos e ingredientes produzidos no país, movimentando quase 350 mil toneladas de matérias-primas. O volume total ficou 17 mil toneladas acima do levantamento realizado dois anos antes.
Além das 89 mil toneladas de carne bovina, a cadeia de fornecimento inclui grandes quantidades de batatas, frango, leite, farinha, ovos e hortaliças.
A companhia informou ainda que 90% dos produtos e ingredientes utilizados em seus itens de menu são de origem australiana, mantendo relações que dão suporte a mais de 15 mil produtores rurais no país.
Carne bovina continua central mesmo com avanço do frango
Outro ponto interessante é que o crescimento acontece justamente em um momento no qual o McDonald’s vinha sinalizando maior atenção ao frango.
Em 2024, diante da valorização da carne bovina, a companhia indicou que as proteínas de aves ganhavam importância em seu portfólio. Na ocasião, o CEO global Chris Kempczinski afirmou que a categoria de frango já movimentava US$ 25 bilhões em vendas globais anuais, nível semelhante ao da carne bovina.
Na lista australiana, porém, a diferença de volume permanece expressiva: foram 23 mil toneladas de frango, diante das 89 mil toneladas de carne bovina adquiridas em 2025.
O próprio Beef Central calcula que, considerando aproximadamente 36 mil toneladas de carne bovina destinadas ao consumo doméstico australiano, o volume de carne bovina utilizado nos restaurantes teria superado o de frango em uma proporção próxima de três para dois.
O que os números dizem sobre a pecuária
Mais do que uma curiosidade envolvendo uma das maiores redes de restaurantes do planeta, as 89 mil toneladas ajudam a revelar uma característica cada vez mais importante do mercado internacional de carne bovina: grandes compradores globais dependem de cadeias pecuárias capazes de oferecer escala, regularidade e padronização durante todo o ano.
A Austrália ocupa posição estratégica justamente por combinar produção exportadora, indústria estruturada e acesso aos principais mercados consumidores.
Para países exportadores como o Brasil, o movimento também merece atenção. A menor oferta norte-americana aumenta a necessidade de importações e modifica os fluxos internacionais da proteína, enquanto grandes compradores disputam matéria-prima em diferentes origens.
No caso australiano, o tamanho dessa relação ficou explícito em 2025: uma única empresa comprou 89 mil toneladas de carne bovina — e ainda ampliou suas aquisições em 11% em apenas dois anos.
Fonte original: Beef Central, reportagem de Jon Condon publicada em 13 de agosto de 2026.
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