Milho em dietas para bovinos: Vilão ou Solução?

Milho em dietas para bovinos: Vilão ou Solução?

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Foto: Divulgação

A utilização do milho em dietas para bovinos é prática antiga e até hoje são utilizadas de formas equivocadas por grande parte dos pecuaristas, sendo assim, vamos entender melhor esse alimento.

Segundo dados do AGRIANUAL (2015), o Brasil é o 3° maior produtor mundial de milho, com uma produção no último ano de 75.000.000 ton/ha. Segundo o MAPA, o alimento seria destinado ao consumo humano, porém essa parcela é mínima quando comparado ao que é destinado as indústrias produtoras de ração animal.

Em um levantamento realizado com nutricionistas de bovinos confinados no Brasil por Oliveira e Millen (2014) verificou-se que a média de inclusão de alimentos concentrados nos confinamentos é de 79%, e dentre esses alimentos o milho é o mais utilizado, numa média de 63% de inclusão, seguido pelo sorgo. No mesmo levantamento também se verificou o tipo de milho utilizado, onde no Brasil a utilização do tipo flint (duro) é de 96,5% e do dent (mole) é de 3,5%.

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Milho Úmido / Foto: Divulgação

Antes de falarmos dos cuidados e formas de utilização deste alimento, é preciso entender um pouco como é realizado a utilização do milho pelos ruminantes.

Sistema Digestivo dos Ruminantes

Os ruminantes apresentam um sistema digestório com o que chamamos de pré-estômagos, ou seja, esses compreendem três compartimentos: rúmen, retículo e omaso, os quais representam os “estômagos falsos”, onde ocorre a digestão microbiana e a ação mecânica sobre os alimentos fibrosos e grosseiros.

O rúmen, junto com o retículo e um complexo microbiano são responsáveis pela fermentação dos alimentos e pelo processo de ruminação, característica predominante desses animais. O omaso é responsável pela reciclagem da água e minerais do alimento. Para entender melhor a divisão do sistema digestório desses animais, vamos visualizar a imagem abaixo:

Sistema digestivo do ruminante. Adaptado pelo autor.

Retículo e Rúmen

O rúmen é o primeiro compartimento do estômago dos ruminantes.

Em conjunto com o retículo formam uma vasta câmara de fermentação que alberga um complexo ecossistema microbiano (ou microbiota) capaz de degradar paredes celulares vegetais, constituídas principalmente por celulose e hemicelulose.

Os alimentos ingeridos pelos ruminantes são sujeitos a uma extensa fermentação com produção de ácidos graxos voláteis (AGVs) (ácido acético, ácido propiónico e ácido butírico) amónia, gases (dióxido de carbono e metano) e biomassa microbiana. Os ácidos graxos voláteis são extensamente absorvidos pela mucosa ruminal e constituem a principal fonte de energia dos ruminantes.

O ecossistema microbiano ruminal, composto por diversos microrganismos, necessita de um pH ideal para poder trabalhar de forma eficiente. Os tampões da saliva neutralizam os ácidos produzidos pela fermentação microbiana e mantém o pH ruminal levemente ácido o que favorece a digestão das fibras e o crescimento microbiano no rúmen.

O retículo é uma “estrada de passagem” onde ocorre a seleção das partículas que entram e saem do rúmen.

Omaso

É um órgão relativamente pequeno, mas que possui uma alta capacidade de absorção. Ele permite a reciclagem da água e dos minerais como o sódio e o fósforo que irão retornar ao rúmen através da saliva do animal.

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O quarto estômago do ruminante, ou também conhecido como estômago verdadeiro. Onde ocorre a digestão de alimentos não fermentados no rúmen, algumas proteínas e lipídeos.

Os ruminantes são animais que podem utilizar uma grande variedade de fonte de alimentos, quando comparado aos não ruminantes. A microbiota do retículo-rúmen permitem com que os ruminantes transforme fibras em alimentos (forragens, sub-produtos e resíduos de plantios) e nitrogênio (amônia e uréia) em alimentos que são base da alimentação humana como o leite e a carne.

Utilização do milho na alimentação de bovinos

Antes de falar da utilização e sua importância para as dietas dos bovinos, é preciso conhecer um pouco do que estamos fornecendo aos animais. A tabela abaixo apresenta a análise do milho após o seu processamento.

Analise bromatologica do milho. Fonte: TD Software.

Os grãos são componentes predominantes nas dietas de bovinos, e o amido representa 60–80% desse grão (Kotarski et al., 1992; McCleary et al., 1994). O grau de processamento e a espécie do grão influenciam o sítio e a extensão da sua digestão pelos ruminantes (Owens et al., 1986).

O processamento do grão de milho promove alterações no sítio de digestão do amido, no aproveitamento total do alimento e da dieta, além de proporcionar alterações substanciais no ambiente ruminal.

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Foto: Divulgação

O processamento do milho aumenta a utilização do amido, in vitro, in situ e in vivo em virtude da melhora da fermentação ruminal e da digestão intestinal (Theurer, 1986). A floculação do milho causa gelatinização do amido, por meio da ruptura das pontes de hidrogênio intermoleculares, e aumenta a superfície do grão sujeita ao ataque microbiano, resultando em maior digestão ruminal do amido (Rooney & Pflugfelder, 1986). O tratamento pelo calor desnatura a proteína pela alteração na sua estrutura tridimensional, e, quando aplicado excessivamente, ocasiona a formação de reações de Maillard, ou seja, ligações entre proteínas e carboidratos resistentes à protease (Cheftel et al., 1976).

Além do processamento, o tamanho de partícula influencia os padrões de fermentação ruminal, produção microbiana e eficiência da utilização do amido e outros nutrientes no rúmen.

Entretanto, segundo Cone et al. (1989), o impacto da floculação sobre a degradabilidade do amido é maior do que os efeitos da moagem dos grãos. Teixeira et al. (1996), estudando a degradabilidade in situ do milho moído e quebrado, concluíram que a degradabilidade efetiva da matéria seca e a taxa de degradação foram superiores na forma moída, numa taxa de passagem de 5% por hora. Sindt et al. (1993) estudaram dietas à base de milho quebrado ou sorgo finamente moído para novilhos e observaram que a taxa de desaparecimento do amido e a extensão da digestão às 12 e 18 horas foi maior no sorgo finamente moído do que no milho quebrado (P<0,01).

Em resumo, temos algumas formas em que o milho é apresentado no mercado e que pode ser utilizado pelos animais:

• Milho grão
• Silagem de milho grão úmido
• Milho moído
• Milho quebrado
• Milho floculado
• Milho laminado
• Milho incluso em rações balanceadas (fareladas ou peletizadas)
• Outros

A digestão dos ruminantes é muito sensível quanto ao pH dentro do rúmen. Sendo assim, as diferentes formas de processamento do milho podem ajudar ou prejudicar a digestibilidade do amido ou proteína. É importante salientar que os animais ruminantes possuem câmaras fermentativas, sendo assim, antes de fornecer uma dieta aos animais é preciso balancear essa dieta de forma a preservar o ambiente ruminal.

A – Milho moído fino (1mm); B – Milho reconstituído depois da moagem a 5mm e C – Milho reconstituído antes da moagem a 5 mm. Fonte: Scielo.
Dieta Alto Grão, sem fornecimento de forragem. Foto: Thiago Pereira.

Cuidados na utilização do milho na alimentação dos bovinos

Como dito anteriormente, o milho é um alimento concentrado com alto teor de energia, e por isso devemos ter cuidado com seu fornecimento, pois o amido tem grande potencial para alterar o pH ruminal. Pode ser fornecido aos bovinos para reduzir as perdas de peso pela falta de pastagens.

Contudo, por ser de custo elevado e, também, por não atender totalmente as exigências nutricionais do gado, deve ser oferecido tomando-se alguns cuidados:

1. Complemente a dieta adicionando outros alimentos proteicos, como farelo de soja e minerais. Se preferir, use em associação com uma ração balanceada para a categoria animal desejada;
2. Se for possível, adquira alimentos volumosos, como feno e silagem, que possam contribuir para a nutrição dos animais e reduzir o custo diário em relação ao fornecimento de concentrados (milho);
3. Observe sempre a qualidade dos alimentos, evitando oferecer os que apresentam coloração escura resultante de contaminações, bolor, cheiro desagradável, ardido, entre outras características indesejáveis;

Animais em fase de terminação com dieta Puro Grão. Foto: Thiago Pereira

4. É importante que os animais não percam peso na fase de crescimento, mesmo durante a ocorrência de seca. Porém, é fundamental sempre fazer as contas de custo e benefício quanto ao fornecimento de suplementação;
5. Lembre-se que o alimento mais apropriado aos bovinos são as forragens, seja na forma de pasto ou conservada/armazenada como silagens, fenos, capim-elefante ou cana-de-açúcar. Além disso, podem ser feitos na propriedade, uma alternativa mais barata do que comprá-los de terceiros;
6. A seca ocorre todos os anos, por isso é fundamental preparar-se para esse período produzindo e conservando forragens. Outra estratégia é diminuir a lotação dos animais no final da estação das chuvas, fazendo vedação parcial das pastagens para ficar como reserva e ser usada na seca; e

Milho fornecido em dieta total a base de silagem de milho e ração farelada balanceada para engorda. Foto: Thiago Pereira.

7. Procure sempre orientar-se com técnicos da área, como zootecnistas, para melhorar o uso dos alimentos e os resultados da sua criação.

A equipe do CompreRural está a sua disposição para poder auxiliar no preparo da dieta e gestão da sua propriedade. Entre em contato conosco e teremos prazer em te atender.

Referências:
KOTARSKI, S.F.; WANISKA, R.D.; THURN, K.K. Starch hydrolysis by the ruminal microflora. Journal of Nutrition, v.22, p.178-190, 1992.
McCLEARY, B.V.; SOLAH, V.; GIBSON, T.S. Quantitative measurement of total starch in cereal flours and products. Journal of Cereal Science, v.20, p.51-58, 1994.
OWENS, F.N.; ZINN, R.A.; KIM, Y.K. Limits to starch digestion in the ruminant small intestine. Journal of Animal Science, v.63, p.1634-1648, 1986.
THEURER, C.B. Grain processing effects on starch utilization by ruminants. Journal of Animal Science, v.63, p.1649-1662, 1986.
ROONEY, L.W.; PFLUGFELDER, R.L. Factors affecting starch digestibility with special emphasis on sorghum and corn. Journal of Animal Science, v.63, p.1607-1623, 1986.
CHEFTEL, C.; CUQ, J.L.; PROVANSAL, M.; BESANCON, P. Influence of processing on the composition and the nutritive value of protein foods. Review Forage and Crops Grassland, v.1, p.7- 11, 1976.
CONE, J.W.; CLINE-THEIL, W.; MALESTEIN, A.; KLOOSTER, A.T. van. Degradation of starch by incubation with rumen fluid: a comparation of different starch sources. Journal of the Science of Food Agriculture, v.49, p.173-178, 1989.
TEIXEIRA, J.C.; SANTOS, R.M.; OLIVEIRA, A.I.G. Degradabilidade ruminal da matéria seca, proteína bruta e fibra em detergente neutro de rações contendo caroço de algodão e grão de milho, em diferentes formas físicas, em vacas da raça Holandesa. Revista Brasileira de Zootecnia, v.25, p.814-823, 1996.
SINDT, M.H.; STOCK, R.A.; KLOPFENSTEIN, T.J.; SHAIN, D.H. Effect of protein source and grain type on finishing calf performance and ruminal metabolism. Journal of Animal Science, v.71, p.1047-1056, 1993.
http://revistagloborural.globo.com/vida-na-fazenda/gr-responde/noticia/2018/01/confira-os-cuidados-para-oferecer-milho-ao-gado-de-corte.html

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Zootecnista pela Universidade Federal de Viçosa MBA em Gestão de Projetos pela UNIUBE, idealizador do projeto Tecnologia para o Agronegócio. Possui base técnica e experiência de campo em propriedades de corte e leite. Sócio-Diretor do Compre Rural. (62) 996441746 thiagorp100@gmail.com