Além das 189 novilhas, o país passa a exportar gestão, assistência técnica e conhecimento para implantar o primeiro sistema de produção de leite com Girolando em Botswana
O Brasil acaba de alcançar um novo marco na história da pecuária leiteira nacional. Pela primeira vez, o país não está apenas enviando genética de alto padrão para outro continente, mas também exportando o conhecimento que transformou o Girolando em uma das principais raças leiteiras dos trópicos. A chegada das 189 novilhas brasileiras a Botswana marca o início do primeiro projeto de produção leiteira com Girolando no país africano e inaugura uma nova etapa da internacionalização da pecuária nacional.
Por trás desse projeto está uma parceria entre a Fazenda Floresta, referência na seleção genética da raça, e a Milk Valley Farm, empreendimento que pretende estruturar uma cadeia leiteira moderna utilizando animais, tecnologia e assistência técnica brasileiras. Mas existe um diferencial que torna essa iniciativa ainda mais estratégica: junto com os animais, o Brasil também passa a exportar seu modelo de produção, sua experiência em gestão e décadas de conhecimento acumulado no campo.

É justamente nesse ponto que entra um dos personagens centrais dessa história. Em entrevista exclusiva ao Compre Rural, o zootecnista mineiro Tiago Gonçalves revela como será a missão de implantar esse modelo produtivo em Botswana e por que esse projeto representa muito mais do que uma simples exportação de animais.

“A pecuária brasileira hoje não está exportando apenas animal vivo ou genética. Estamos começando a exportar o nosso modelo de pecuária, aquilo que fazemos no Brasil. Isso comprova a eficiência do Girolando, sua adaptação e sua rusticidade em diferentes regiões do planeta” – revelou Tiago.
O brasileiro que levará a tecnologia da pecuária leiteira para Botswana
Se as 189 novilhas representam a base genética do projeto, Tiago Gonçalves será o responsável por transformar esse potencial em um sistema produtivo eficiente. O zootecnista embarca para Botswana com uma missão muito maior do que acompanhar os animais: caberá a ele estruturar toda a operação técnica da Milk Valley Farm, implantando processos de gestão, treinamento de equipes, protocolos de manejo e planejamento estratégico da fazenda.

Na prática, será ele quem fará a ponte entre o conhecimento desenvolvido pela pecuária leiteira brasileira e a realidade encontrada no país africano. O desafio não será simplesmente reproduzir o que é feito nas propriedades brasileiras, mas adaptar essas técnicas às condições climáticas, econômicas e culturais de Botswana, preservando a eficiência do sistema sem perder de vista as particularidades locais.
Segundo Tiago, o objetivo é construir uma pecuária sustentável, utilizando como referência aquilo que o Brasil desenvolveu nas últimas décadas, mas respeitando a disponibilidade de recursos, a mão de obra e as características do ambiente africano.
“Nós vamos levar a técnica brasileira, mas adaptando às condições de Botswana. Precisamos entender como as pessoas trabalham, quais recursos o país oferece e construir um sistema eficiente dentro dessa realidade” – revelou o zootecnista.
Estrutura surpreende até especialista brasileiro
Um dos pontos que mais chamou a atenção do consultor durante o planejamento da operação foi o nível tecnológico encontrado na Milk Valley Farm. Diferentemente da imagem que muitos ainda associam à pecuária africana, a propriedade possui estrutura comparável às melhores fazendas leiteiras brasileiras e está preparada para operar em um modelo altamente intensivo.
A fazenda utilizará sistema freestall, ordenha em carrossel e ferramentas capazes de monitorar individualmente cada animal, acompanhando produção de leite, desempenho reprodutivo, ganho de peso e diversos indicadores zootécnicos em tempo real.
Na avaliação de Tiago, o principal desafio não será instalar tecnologia, mas desenvolver pessoas capazes de extrair todo o potencial dessas ferramentas. “A estrutura é excelente. O maior desafio será preparar as equipes para utilizar toda essa tecnologia no dia a dia” – avaliou Tiago.
Seleção genética reuniu algumas das melhores famílias do Girolando
Nada foi escolhido por acaso. As 189 novilhas embarcadas para Botswana passaram por um rigoroso processo de seleção envolvendo genealogia, desempenho produtivo, avaliações genômicas, características morfológicas e funcionalidade leiteira.
Segundo Tiago, foram priorizados animais oriundos das melhores famílias genéticas disponíveis atualmente na raça, capazes de iniciar um rebanho competitivo e, ao mesmo tempo, adaptável às condições africanas.
Embora tenham sido exportadas como meio-sangue, essas matrizes servirão de base para que o próprio governo de Botswana defina futuramente qual composição racial melhor atende ao sistema produtivo local, podendo evoluir gradualmente para o padrão cinco oitavos, considerado referência dentro da raça Girolando.
Muito além das vacas: nasce uma nova cadeia leiteira
O objetivo do governo de Botswana vai muito além da produção de leite. A expectativa é utilizar o projeto como ponto de partida para modernizar toda a pecuária leiteira nacional, estimulando investimentos, formando mão de obra qualificada e criando oportunidades de desenvolvimento econômico.
A meta inicial prevê a expansão gradual do rebanho até aproximadamente 3 mil vacas leiteiras, número que poderá ser alcançado conforme o mercado consumidor evolua e o sistema produtivo se consolide.
Na avaliação do consultor brasileiro, o maior legado da iniciativa será social. “O agro transforma regiões. Gera emprego, renda, forma novos produtores e cria oportunidades para toda a população” – revelou ele.
África pode se tornar a próxima fronteira do Girolando brasileira
Embora o continente africano já seja um importante destino da genética zebuína produzida no Brasil, Tiago acredita que a chegada do Girolando inaugura uma nova fase dessa relação comercial. Países como Angola, Congo, Nigéria e Senegal já utilizam material genético brasileiro, mas agora o desafio passa a ser construir sistemas leiteiros completos, baseados não apenas em animais superiores, mas também em gestão, assistência técnica e melhoramento contínuo.
Para ele, o sucesso do projeto em Botswana poderá abrir portas para uma expansão ainda maior da raça em diferentes regiões da África, consolidando o Brasil como fornecedor não apenas de genética, mas de tecnologia para produção de leite nos trópicos.
“O futuro será selecionar, dentro da própria África, os animais mais adaptados às condições locais, utilizando toda a base genética construída pelo Brasil.”

Um novo capítulo para a pecuária brasileira
A iniciativa envolvendo a Fazenda Floresta, a Milk Valley Farm e o trabalho de Tiago Gonçalves simboliza uma mudança importante na forma como a pecuária brasileira se posiciona no mercado internacional. Se antes o país era reconhecido principalmente pela exportação de animais e material genético, agora passa a ser visto como fornecedor de conhecimento, tecnologia e modelos de produção capazes de transformar cadeias produtivas inteiras.
Outro protagonista dessa história é a Fazenda Floresta, cuja atuação vem consolidando o Brasil como uma das principais referências mundiais em genética bovina tropical. Responsável pelo fornecimento das novilhas que deram origem ao primeiro projeto de Girolando em Botswana, a propriedade acumula um histórico de exportações que ultrapassa fronteiras e evidencia a confiança internacional na seleção genética desenvolvida no país.
Um dos exemplos mais emblemáticos ocorreu recentemente com a exportação de embriões de Gir Leiteiro para a Índia — justamente o país de onde o Brasil importou os primeiros animais zebuínos há mais de um século. Em uma inversão histórica, a genética brasileira retornou ao berço da raça para contribuir com o melhoramento do rebanho leiteiro indiano
Mais do que embarcar 189 novilhas rumo a Botswana, o Brasil exporta um conceito consolidado de pecuária tropical. E é justamente um zootecnista mineiro quem terá a responsabilidade de colocar esse modelo em prática, ajudando a escrever o primeiro capítulo da história do Girolando no país africano.
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