Novo caso de raiva bovina acende alerta em SC: veja como evitar a doença na fazenda

Santa Catarina chega a 27 ocorrências em animais de produção neste ano; avanço da doença amplia preocupação no campo e exige atenção à vacinação e à presença de morcegos-vampiros

A raiva bovina voltou ao centro das atenções sanitárias em Santa Catarina após a confirmação de uma nova ocorrência em uma propriedade rural de Itapiranga, no Oeste do Estado. O diagnóstico foi registrado no mesmo estabelecimento onde outro animal já havia testado positivo anteriormente e elevou para 27 o número de mortes associadas à enfermidade em animais de produção catarinenses em 2026.

O novo episódio chama atenção não apenas pelo avanço da contagem. Por ser uma enfermidade que compromete o sistema nervoso e apresenta evolução fatal após o surgimento dos sinais clínicos, a raiva exige uma resposta essencialmente preventiva. No campo, isso significa proteger os animais antes que o vírus encontre espaço para circular.

O acompanhamento das propriedades também ganha peso neste momento. Feridas provocadas por morcegos, alterações bruscas no comportamento do gado ou animais com dificuldades de locomoção são situações que não devem ser encaradas como ocorrências isoladas, principalmente em regiões onde já existem diagnósticos confirmados.

Raiva bovina aparece em diferentes pontos de Santa Catarina

O mapa dos registros mostra que o problema está distribuído por diferentes regiões catarinenses.

Pescaria Brava concentra o maior número de ocorrências contabilizadas até agora, com seis casos, enquanto Chapecó aparece na sequência, com quatro. Orleans soma três registros.

Angelina, Gravatal e Itapiranga contabilizam dois episódios cada. Também aparecem na relação Apiúna, Bocaina do Sul, Caçador, Criciúma, Indaial, Major Gercino, São Francisco do Sul e São José do Cedro, cada município com uma ocorrência.

A distribuição geográfica ajuda a explicar por que a vigilância não deve ficar restrita às propriedades onde animais já morreram. A circulação do vírus está diretamente relacionada à dinâmica de seus transmissores e às condições encontradas no ambiente rural.

O morcego que mantém o vírus circulando no campo

Na pecuária, uma espécie ocupa papel central nessa cadeia: o Desmodus rotundus, popularmente chamado de morcego-vampiro.

Ao contrário da maioria das espécies de morcegos encontradas no Brasil, ele se alimenta de sangue. Quando um exemplar infectado ataca um bovino, o vírus pode ser transmitido pela saliva que entra em contato com a lesão aberta durante a alimentação.

Esse comportamento faz com que marcas de mordidas recorrentes mereçam atenção especial. Pequenas lesões observadas no mesmo animal durante vários dias podem indicar que morcegos hematófagos estão utilizando aquele rebanho como fonte de alimentação.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o monitoramento das populações de Desmodus rotundus faz parte das estratégias adotadas pelo Programa Nacional de Controle da Raiva dos Herbívoros.

Por que a raiva bovina é tão perigosa para o rebanho?

Novo caso de raiva bovina acende alerta em SC: veja como evitar a doença na fazenda

Depois de entrar no organismo, o vírus avança em direção ao sistema nervoso central. O período entre a infecção e o aparecimento dos primeiros sinais pode ser prolongado, fazendo com que um animal aparentemente saudável já esteja incubando a enfermidade.

Quando os sintomas neurológicos finalmente aparecem, a situação muda rapidamente.

O bovino pode começar a se afastar do restante do lote, apresentar dificuldade para caminhar e perder progressivamente o controle dos movimentos. Conforme o quadro evolui, a fraqueza aumenta até que o animal deixe de conseguir permanecer em pé.

Não existe tratamento capaz de curar o animal depois que a doença se manifesta clinicamente.

Esse é justamente o ponto que diferencia a raiva de diversos outros problemas sanitários enfrentados na fazenda: esperar pelo primeiro animal doente para tomar uma providência significa agir tarde demais para aquele indivíduo.

Como evitar a raiva bovina na propriedade?

É antes da manifestação dos sintomas que o produtor possui maior capacidade de proteger o patrimônio.

A vacinação antirrábica forma uma barreira importante contra a enfermidade e ganha ainda mais relevância em regiões onde já existem casos ou registros de ataques de morcegos.

O Manual Técnico de Controle da Raiva dos Herbívoros do Mapa orienta que, em áreas onde há ocorrência da doença, bovinos e equídeos com idade igual ou superior a três meses sejam imunizados. Na primeira vacinação, uma segunda aplicação é indicada 30 dias depois.

A partir daí, a estratégia sanitária deve acompanhar o risco epidemiológico da região e as orientações do Serviço Veterinário Oficial.

Na rotina da fazenda, prevenção também significa conhecer o comportamento normal dos animais. Um produtor ou funcionário que observa o lote diariamente tende a perceber mais cedo mudanças que poderiam passar despercebidas em uma avaliação eventual.

Um sinal no couro do animal pode revelar um problema maior

Nem sempre o primeiro indício de risco será um bovino apresentando sintomas neurológicos.

Antes disso, o próprio corpo dos animais pode oferecer pistas.

Ataques de morcegos hematófagos costumam deixar pequenas feridas, muitas vezes identificadas pela presença de sangue ou pela repetição da lesão em noites consecutivas. Encontrar esse padrão em vários bovinos aumenta a necessidade de investigação.

Também é importante observar a propriedade como um todo.

Construções abandonadas, cavernas, porões, estruturas pouco movimentadas e ocos de árvores podem funcionar como abrigo para morcegos. A localização desses pontos pode auxiliar as autoridades sanitárias a entender a movimentação das colônias presentes na região.

O produtor, contudo, não deve tentar capturar ou eliminar os morcegos por conta própria.

Além do risco de contato com animais infectados, existem inúmeras espécies de morcegos que não participam da transmissão da raiva para o rebanho e desempenham funções ambientais importantes. A identificação e o controle seletivo de morcegos hematófagos exigem equipes treinadas.

Quais sinais podem indicar raiva bovina?

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foto: Divulgação

A evolução da enfermidade pode variar, mas alterações comportamentais e motoras estão entre os sinais mais importantes.

O animal pode apresentar:

  • mudança repentina de comportamento;
  • isolamento do restante do rebanho;
  • redução ou perda de apetite;
  • salivação intensa;
  • tremores musculares;
  • andar cambaleante;
  • perda de coordenação;
  • fraqueza progressiva;
  • dificuldade para se levantar;
  • paralisia.

A presença desses sinais não confirma sozinha um diagnóstico de raiva bovina, já que outras doenças podem provocar alterações neurológicas semelhantes.

A confirmação é feita por exames laboratoriais, a partir de procedimentos conduzidos dentro da vigilância sanitária animal.

Encontrou um animal suspeito? Evite contato

Um dos maiores riscos ocorre quando trabalhadores tentam medicar, alimentar, levantar ou examinar de perto um bovino com sintomas neurológicos sem considerar a possibilidade de raiva.

Como o vírus pode estar presente na saliva e em tecidos nervosos, a manipulação desnecessária aumenta o risco de exposição humana.

Diante de uma suspeita, o caminho mais seguro é isolar a área, evitar contato direto e procurar imediatamente o Serviço Veterinário Oficial.

A notificação também permite que técnicos avaliem o restante do rebanho e investiguem a presença de possíveis transmissores próximos à propriedade.

Por se tratar de uma zoonose, pessoas que tenham entrado em contato de risco com um animal suspeito também precisam procurar atendimento de saúde para avaliação.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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