Novos algodões chegam ao campo com resistência a nematoides, lagartas e doenças

BRS 510 B2RF e BRS 810 B3RF ampliam as opções para áreas sob pressão fitossanitária e superam 7 toneladas por hectare de produtividade média na primeira safra, segundo a Embrapa

A resistência a nematoides está no centro de duas novas cultivares de algodão apresentadas pela Embrapa ao setor produtivo. A BRS 510 B2RF e a BRS 810 B3RF chegam ao mercado combinando genética voltada ao enfrentamento de doenças importantes da cultura com biotecnologias de proteção contra lagartas e tolerância ao glifosato. As sementes são comercializadas pela Lyntera, parceira da instituição no lançamento.

Os materiais estão sendo apresentados aos produtores durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, que ocorre entre 22 e 24 de setembro no Expominas, em Belo Horizonte. Apesar de compartilharem algumas características, as duas cultivares têm posicionamentos distintos: a BRS 510 acrescenta resistência ao nematoide reniforme, enquanto a BRS 810 reúne resistência ao nematoide-das-galhas, estabilidade produtiva e atributos de fibra direcionados às exigências da indústria têxtil. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Resistência a nematoides diferencia os novos algodões

Os nematoides estão entre os problemas mais difíceis de manejar em áreas de produção intensiva. As duas novas cultivares apresentam resistência ao nematoide-das-galhas (Meloidogyne incognita), espécie capaz de comprometer o sistema radicular e reduzir o desenvolvimento do algodoeiro. A Embrapa estima que as perdas provocadas por esse parasita podem chegar a 50% da produtividade, dependendo do nível de infestação e das condições da área.

Na BRS 510 B2RF, o pacote avança um passo além: a cultivar também é resistente ao nematoide reniforme (Rotylenchulus reniformis). A espécie é particularmente relevante em sistemas onde algodão e soja são cultivados em sucessão, porque plantas hospedeiras podem permitir a manutenção ou o crescimento da população do nematoide no solo. Trabalhos da Embrapa já registraram que altas populações podem provocar perdas superiores a 60% em situações favoráveis ao parasita.

O problema já foi abordado pelo Compre Rural em conteúdos sobre nematoides e doenças de solo na produção de algodão e sobre estratégias de manejo para o nematoide reniforme. A resistência genética acrescenta uma ferramenta ao sistema, mas não elimina a necessidade de diagnóstico da área, rotação de culturas e outras práticas de manejo.

BRS 510 B2RF mira áreas com histórico de pressão sanitária

A BRS 510 B2RF é uma cultivar de ciclo médio-tardio indicada para sistemas de média e alta tecnologia. Segundo sua ficha técnica, apresenta produtividade média próxima de 7.500 kg/ha na primeira safra e superior a 5.300 kg/ha na segunda, com rendimento de fibra de 40%.

O material é recomendado para Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Ceará, Tocantins e Paraná, incluindo propriedades com histórico de ocorrência de nematoides e doenças. A Embrapa também informa adaptação a solos mais arenosos.

Além da resistência aos nematoides das galhas e reniforme, a cultivar possui resistência múltipla a doenças do algodoeiro, com destaque para a mancha de ramulária. O pacote inclui ainda a tecnologia Bollgard II RRFlex (B2RF), que associa proteção contra lagartas-alvo da tecnologia Bt à tolerância ao herbicida glifosato.

A BRS 510 dá continuidade a uma linha de melhoramento da Embrapa que já havia colocado no mercado materiais como a BRS 500 B2RF. O lançamento anterior foi detalhado pelo Compre Rural na matéria sobre o algodão desenvolvido pela Embrapa com resistência a pragas e doenças.

BRS 810 B3RF combina sanidade e qualidade da fibra

A BRS 810 B3RF segue outro posicionamento. A cultivar também é de ciclo médio-tardio e apresenta resistência ao nematoide-das-galhas, à bacteriose, à doença-azul típica e às raças 1 e 2 da mancha de ramulária.

Sua produtividade média informada pela Embrapa é de aproximadamente 7.300 kg/ha na primeira safra e 5.245 kg/ha na segunda. O rendimento de fibra é de 41%, com comprimento médio de 31 mm e resistência de 33 gf/tex. São características que colocam a qualidade da fibra entre os diferenciais do material.

A indicação geográfica é mais ampla que a da BRS 510. A BRS 810 pode ser cultivada, conforme as recomendações e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático aplicável, no Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Bahia, Ceará, Maranhão, Piauí, Tocantins, Minas Gerais e Paraná, além de áreas irrigadas da Caatinga. A cultivar também apresenta adaptação a solos mais arenosos.

Proteção contra lagartas não significa abandonar o manejo

Outra diferença está na geração da biotecnologia incorporada. Enquanto a BRS 510 utiliza Bollgard II RRFlex, a BRS 810 traz Bollgard 3 RRFlex (B3RF). A terceira geração emprega três proteínas Bt e amplia o espectro de proteção contra lagartas, incluindo espécies dos complexos Spodoptera e Helicoverpa. As duas tecnologias possuem tolerância ao glifosato.

Essa proteção, entretanto, não deve ser interpretada como imunidade da lavoura ou substituição do manejo integrado. Para preservar a eficiência das tecnologias Bt, a própria Bayer orienta a manutenção de 20% da área com algodão não Bt como refúgio estruturado, além de monitoramento e outras práticas de manejo de resistência de insetos.

O mesmo princípio vale para nematoides e doenças. Cultivares resistentes reduzem a vulnerabilidade do sistema, mas a escolha do material deve considerar histórico do talhão, população de nematoides, sucessão de culturas, época de semeadura e ambiente produtivo.

Ramulária continua entre os pontos de atenção

As duas cultivares também foram desenvolvidas para responder a um problema recorrente da cotonicultura: a mancha de ramulária. Segundo a Embrapa, a doença pode provocar perdas entre 25% e 35% em condições usuais de ocorrência, podendo ultrapassar 70% quando há elevada severidade.

A resistência genética ganha relevância porque áreas suscetíveis podem exigir sucessivas intervenções durante o ciclo. O fitopatologista Nelson Suassuna, da Embrapa Algodão, informou à própria instituição que lavouras suscetíveis podem demandar oito a dez aplicações de fungicidas por safra voltadas à doença.

Para o produtor, isso significa que o valor agronômico dos novos materiais não está apenas no potencial de produtividade. Em regiões com forte pressão sanitária, reduzir a exposição da cultura a doenças e nematoides pode aumentar a estabilidade do sistema e diminuir riscos de perda. Qualquer redução efetiva no número de aplicações ou no custo de produção, entretanto, dependerá da pressão de cada área e do programa de manejo adotado.

Lançamento ocorre em safra de produtividade recorde

Os novos algodões chegam ao mercado em um momento de forte desempenho produtivo da cultura no Brasil. No 12º levantamento da safra 2025/26, divulgado em 15 de setembro, a Conab estimou a produção nacional em 4,14 milhões de toneladas de algodão em pluma, maior volume de sua série histórica.

A área cultivada foi estimada em 2,02 milhões de hectares, 3,2% menor que na temporada anterior. Mesmo assim, a produtividade avançou 4,9%, chegando a 2.053 kg de pluma por hectare, o maior rendimento apontado pela estatal. O cenário completo está na reportagem do Compre Rural sobre a estimativa da Conab para a safra 2025/26.

Nesse ambiente, BRS 510 B2RF e BRS 810 B3RF ampliam as alternativas disponíveis para definir a cultivar de acordo com o problema predominante de cada propriedade. Áreas com presença do nematoide reniforme encontram na BRS 510 um diferencial específico, enquanto a BRS 810 combina resistência ao nematoide-das-galhas, estabilidade e atributos de fibra. A escolha, porém, deve partir do diagnóstico do talhão — e não apenas do potencial produtivo informado para a cultivar.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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