Paula Fernandes retorna a Barretos e expõe bastidores pouco discutidos da música sertaneja

Cantora mineira volta à Festa do Peão após uma década e usa o reencontro com a arena para refletir sobre carreira, presença feminina, inteligência artificial e as transformações do sertanejo

Paula Fernandes retorna a Barretos em uma fase bastante diferente daquela que marcou seu auge comercial. Depois de dez anos longe da Festa do Peão, a cantora mineira volta ao evento nesta quinta-feira (27) para participar da abertura das montarias e, no dia seguinte, apresenta um show próprio no Palco Amanhecer. O reencontro, porém, vai além da música: em entrevista à BBC News Brasil, a artista revisitou episódios de sua carreira e levantou discussões sobre machismo, inteligência artificial, política e mudanças dentro do sertanejo.

A participação na arena terá um componente simbólico. Paula volta a interpretar Ave Maria montada a cavalo, retomando uma tradição ligada ao período em que ainda percorria rodeios antes de alcançar projeção nacional. Na sexta-feira (28), quando completa 42 anos, a cantora sobe novamente ao palco para apresentar repertório que mistura sucessos antigos e faixas do projeto 30 & Poucos Anos.

Paula Fernandes retorna a Barretos em nova fase da carreira

O retorno acontece justamente quando a artista celebra três décadas de trajetória profissional.

Antes de se transformar em um dos principais nomes femininos do sertanejo, Paula passou por apresentações em bares, pequenos eventos e rodeios no interior. A virada de sua carreira ocorreu anos depois, quando músicas como Pássaro de Fogo ampliaram sua presença nas rádios e levaram seu trabalho a um público nacional.

Em 2011, no auge da popularidade, sua agenda chegou a aproximadamente 220 apresentações em um único ano.

Hoje, a cantora afirma enxergar o sucesso de outra maneira.

Depois de anos convivendo com uma rotina intensa de viagens e apresentações, passou a priorizar uma carreira que permita conciliar produção musical, vida pessoal e períodos de descanso.

Essa mudança também aparece no novo trabalho. 30 & Poucos Anos recupera elementos de diferentes fases da discografia de Paula e incorpora referências country e folk que sempre fizeram parte de sua identidade musical.

Espaço das mulheres ainda chama atenção no sertanejo

Uma das principais questões levantadas pela cantora está relacionada à presença feminina dentro do gênero.

Quando iniciou sua trajetória, Paula encontrou uma estrutura profissional construída quase inteiramente em torno de artistas homens. Segundo relatou à BBC News Brasil, situações simples relacionadas a camarins, figurino e condições adequadas de palco chegaram a provocar estranhamento entre equipes de eventos.

Com o crescimento de artistas mulheres e o fortalecimento do chamado feminejo, parte dessa realidade mudou.

Ainda assim, a diferença permanece visível nas grandes programações.

Na sexta-feira em que Paula se apresenta em Barretos, apenas três dos 22 artistas contabilizados pela reportagem original são mulheres, o equivalente a 13,6% da grade daquele dia.

Considerando os seis dias analisados do evento, a participação feminina corresponde a 11,6% das atrações.

Para a cantora, o avanço registrado nos últimos anos é importante, mas ainda insuficiente para colocar homens e mulheres em condições mais equilibradas dentro dos grandes festivais sertanejos.

Machismo também apareceu fora dos palcos

As dificuldades enfrentadas por Paula não estavam apenas na infraestrutura dos eventos.

Durante sua ascensão profissional, a artista também precisou lidar com rumores sobre sua vida pessoal e especulações de que relacionamentos com homens da indústria teriam favorecido sua carreira.

A cantora rejeita essa narrativa e relaciona esse tipo de comentário ao ambiente predominantemente masculino encontrado naquele período.

O episódio é utilizado por Paula para mostrar como artistas mulheres muitas vezes precisavam justificar conquistas profissionais por caminhos que não eram exigidos de colegas homens.

Ela avalia que a geração atual encontra um cenário mais aberto, embora reconheça que desigualdades ainda permaneçam.

Paula Fernandes retorna a Barretos em meio à expansão da inteligência artificial

A transformação da indústria musical não ocorre apenas no comportamento do público ou na composição das grades de shows.

A inteligência artificial generativa também começa a ocupar espaço no processo de produção de músicas, letras e adaptações.

Paula, porém, afirma não utilizar esse tipo de ferramenta para compor.

Na visão da artista, a criação musical precisa carregar experiências, sentimentos e vulnerabilidades que fazem parte da vivência humana. Por isso, prefere manter o processo de composição ligado integralmente à própria experiência.

Sua principal preocupação está nos limites entre tecnologia e autoria.

Ferramentas capazes de reproduzir características associadas a determinados artistas levantam questionamentos sobre direitos autorais, identidade artística e propriedade intelectual.

Para Paula, o avanço da IA exigirá regras mais claras para evitar que obras ou estilos individuais sejam utilizados sem critérios definidos.

Mistura de estilos muda a identidade do sertanejo

Enquanto demonstra cautela em relação à inteligência artificial na composição, Paula observa de maneira positiva outra transformação: a aproximação do sertanejo com diferentes gêneros musicais.

Batidas de funk, elementos do pagode, pop e outras referências passaram a aparecer com frequência nas produções atuais.

A cantora não considera essas fusões um problema.

Para ela, a renovação faz parte do desenvolvimento da música brasileira e pode ampliar as possibilidades criativas dos artistas.

Sua ressalva está na falta de identidade.

Paula defende que novos intérpretes busquem características próprias em vez de simplesmente reproduzir fórmulas que já alcançaram sucesso comercial.

O novo álbum também reflete essa visão. Ao recuperar elementos country e folk, a cantora retoma influências que, segundo ela, nem sempre encontraram espaço durante momentos anteriores da carreira.

Política fica fora da estratégia artística

Outro assunto tratado pela cantora foi o posicionamento político de artistas.

Paula prefere não tornar públicas suas escolhas eleitorais.

Ela afirma que sua decisão está relacionada à maneira como enxerga a própria função artística: produzir música capaz de alcançar pessoas com diferentes opiniões, origens e posições políticas.

A cantora diz exercer normalmente o direito ao voto, mas considera essa escolha pessoal.

Em vez de declarar apoio a candidatos, defende que o público pesquise propostas e faça suas próprias avaliações antes das eleições.

Uma trajetória construída longe dos grandes centros

Parte da identidade que Paula mantém hoje está ligada à própria origem.

Criada no interior de Minas Gerais, a cantora relembra uma infância simples no ambiente rural, antes da mudança para a cidade e do início da carreira profissional.

O contato com cavalos, a vida no campo e as primeiras apresentações em pequenos estabelecimentos se tornaram elementos recorrentes de sua história artística.

Décadas depois, voltar à arena de Barretos representa uma ligação direta com esse começo.

A apresentação desta semana reúne duas etapas bastante diferentes da mesma trajetória: a cantora que buscava espaço em rodeios e a artista que hoje retorna ao evento depois de construir uma carreira nacional.

Mais do que uma celebração de aniversário ou lançamento de turnê, o reencontro também evidencia quanto o sertanejo mudou nas últimas décadas — e quais discussões ainda continuam abertas dentro do gênero.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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