Polícia Civil indicia quatro em investigação de rombo de R$ 70 milhões no agro de Mato Grosso

Investigação da Operação Agro-Fantasma foi encerrada e encaminhada ao Ministério Público; relatório policial descreve suposto esquema envolvendo compra de grãos, empréstimos bancários, cheques devolvidos e negociação de uma aeronave. O caso ainda está na fase investigativa e não há denúncia ou condenação judicial.

A Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso concluiu o inquérito da chamada Operação Agro-Fantasma, investigação que apura um suposto esquema de estelionato no agronegócio mato-grossense. O procedimento foi encerrado no último dia 4 de agosto e remetido ao Poder Judiciário com o indiciamento de quatro pessoas pelos crimes, em tese, de estelionato e associação criminosa. O relatório também faz referência ao indiciamento de uma empresa citada na investigação.

Segundo a Polícia Civil, o caso gira em torno de operações comerciais envolvendo compra e revenda de grãos que teriam provocado um prejuízo superior a R$ 70 milhões ao produtor rural apontado como principal vítima e, indiretamente, a diversos agricultores que negociaram suas safras acreditando na solidez das operações comerciais.

Como a investigação afirma que o esquema começou

De acordo com o inquérito policial, as negociações tiveram início quando empresários passaram a negociar diretamente com um produtor rural de Comodoro (MT), que possuía décadas de atuação no mercado e forte credibilidade junto aos agricultores da região.

Segundo os investigadores, a proposta consistia em utilizar a estrutura comercial do produtor para adquirir grãos de terceiros, enquanto o grupo investigado assumiria o compromisso de realizar os pagamentos correspondentes.

Ainda conforme a investigação, os primeiros negócios foram quitados normalmente, circunstância que teria fortalecido a confiança entre as partes e permitido a ampliação do volume das operações comerciais.

Operações cresceram até ultrapassar R$ 70 milhões

O relatório policial afirma que, à medida que a relação comercial evoluía, o produtor passou a assumir compromissos financeiros cada vez maiores.

Segundo o inquérito, ele comprava grãos de produtores da região em seu próprio nome para posterior revenda ao grupo investigado.

A Polícia Civil relata que, confiando na continuidade dos pagamentos, o produtor contraiu aproximadamente R$ 16 milhões em financiamentos junto a uma cooperativa de crédito, recursos que teriam sido destinados às operações comerciais investigadas. O prejuízo total descrito pela investigação ultrapassaria R$ 70 milhões.

Venda de aeronave também integra a investigação

Outro episódio descrito pela Polícia Civil envolve a negociação de uma aeronave Beechcraft G36.

Segundo os autos, o avião teria sido vendido pelo produtor ao grupo investigado por aproximadamente R$ 5,8 milhões, porém apenas parte do valor teria sido efetivamente paga.

A negociação passou a integrar a investigação juntamente com outros documentos analisados pela Polícia Civil.

Cheques devolvidos reforçaram suspeitas da investigação

O relatório também menciona dois cheques entregues ao produtor em dezembro de 2025.

Segundo a Polícia Civil, ambos foram devolvidos quando apresentados ao banco. Um deles teria sido sustado pelo emitente e outro devolvido sob a justificativa bancária de furto, roubo ou extravio, circunstâncias que passaram a integrar o conjunto probatório analisado pelos investigadores.

Revenda abaixo do custo chamou atenção dos investigadores

Entre os elementos destacados no inquérito estão documentos fiscais que, segundo a Polícia Civil, indicariam operações de revenda de milho por valores inferiores aos preços de aquisição.

Na avaliação apresentada pela autoridade policial, esse comportamento comercial seria incompatível com uma operação economicamente sustentável e passou a integrar os indícios utilizados na fundamentação do indiciamento.

Polícia também investigou divisão de funções entre os envolvidos

O relatório policial sustenta, em tese, que havia uma divisão de responsabilidades entre os investigados durante as operações comerciais.

Segundo a investigação, enquanto alguns atuariam diretamente nas negociações de compra e venda de grãos, outro investigado teria exercido papel de garantidor da credibilidade das operações. A Polícia Civil afirma ainda que empresas ligadas ao grupo teriam sido utilizadas durante a execução dos negócios investigados.

Transferência da aeronave também é citada

Outro ponto abordado no inquérito refere-se ao registro da aeronave negociada entre as partes.

Segundo a investigação, após decisões judiciais relacionadas ao caso, a propriedade do avião foi transferida para uma das empresas investigadas mediante documentação cuja data também passou a ser objeto de análise da Polícia Civil. Os registros da ANAC e os documentos apresentados passaram a integrar os autos encaminhados ao Ministério Público.

Caso entra agora em nova fase

Com a conclusão do inquérito, a investigação deixa a esfera policial e passa à análise do Ministério Público de Mato Grosso.

Caberá aos promotores avaliar o conjunto probatório produzido pela Polícia Civil para decidir se apresentam denúncia criminal, solicitam novas diligências ou promovem o arquivamento do procedimento.

Somente caso a denúncia seja recebida pela Justiça os investigados passarão à condição de réus. Até o momento, não existe condenação judicial relacionada aos fatos narrados no inquérito.


Nota de transparência

Esta reportagem foi produzida com base nas informações constantes do inquérito policial concluído pela Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso e em documentos públicos mencionados na investigação. O indiciamento constitui ato próprio da fase investigativa e representa o entendimento da autoridade policial sobre a existência de indícios de autoria e materialidade, não equivalendo à apresentação de denúncia pelo Ministério Público nem à condenação judicial. Os investigados têm assegurados os direitos ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência. O espaço para manifestação dos citados e de seus representantes legais permanece aberto.

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